Aladdin, o Universo Expandido e a Mitologia

A Lenda Aladin é uma historia e uma marca famosa desde muito tempo, e ficou ainda mais em 1992 graças a Aladdin. Alguns fãs da animação de John Musker e Ron Clements consumiram produtos derivados, seja no cinema, nas peças musicais da Broadway ou dentro de reprises ou mercado de vídeo. A animação é bastante inspirada no Ladrão de Bagda, um filme dos anos 40 que inspirou muitos dos sub plots, ainda que de uma maneira pasteurizada, resgatando conceitos até da versão de 1924 do mesmo filme, ainda do cinema mudo.

Outros tantos filmes do cinemão clássico de Hollywood ajudaram a compor a magia, entre eles, a versão de 1942 dirigida por John Rawlins de as 1001 Noites, cuja participação de Aladin é apenas um chiste/piada com direito a protagonismo de personagens brancos e eurocêntricos. Há também de se destacar a famigerada versão de 1986 que Tim Burton fez, para Teatro dos Contos de Fada (Faerie Tale Theatre) uma série de curtas exibida entre 1982 e 87, onde James Earl Jones faz dois gênios, tal qual o conto original, munido apenas de tinta corporal para tal. A história é baseada num conto chinês,  adaptado para uma versão de as 1001 noites no século XVIII, e contem elementos  de muitas culturas, assim como o próprio clássico da Disney.

Alguns filmes cercam a mitologia de Aladin (grafado assim na maioria das mídias), desde versões nacionais como Aladin e a Lâmpada Maravilhosa, dos Trapalhões, até uma versão com Bud Spencer, Aladim de Bruno Corbucci (irmão do também diretor Sergio Corbucci, criador de Django, o herói do western spaghetti), em uma versão já bem humorada do gênio da lâmpada. Houveram claro pastiches, como a cine série de terror Mestre dos Desejos, com quatro filmes, e claro, o péssimo Kazaam, com Shaquille O’Neal tentando carreira no cinema. Das versões bizarras, talvez a mais engraçada seja o musical indiano de 2009, Aladin, de Sujoy Ghosh, cujas coreografias são absurdas, assim como há muitos números musicais legais. Apesar de se passar na atualidade, e ignorando claro o estranhamento ao estilo de cinema de Bollywood, é um filme bem legal e bem feito.

Com o sucesso do longa animado, claro que se pensou em continuações, mas a Disney não tinha o hábito de fazer sequências e por isso, Retorno de Jafar foi lançado direto para vídeo, com uma qualidade visual bem aquém do esperado. A despeito disso, Al não parece ter evoluído como personagem, pois continua mentindo para sua amada, e isso talvez revele um problema de mitomania (em Aladdin e os 40 Ladrões ele também mantém esse defeito, incrivelmente), mas a realidade é que até por conta dos defeitos visuais, esse mais parece um piloto estendido da série animada que qualquer outra coisa, pois serve basicamente para por o papagaio Yago na historia novamente, para fazer o gênio retornar das férias ainda bem leal ao seu antigo amo, e para fechar as pontas soltas deixadas após o gancho do final de Jafar. Ao menos Jafar é sensacional, é vingativo e manipulador, e faz as vezes do Djinn de Mestre dos Desejos 3 anos antes do filme de Robert Kurtzman. Também se introduz Abismal, que viraria vilão recorrente do seriado. A parte da mitologia é atrapalhada, e pelo que se vê a libertação do gênio o faz ser menos poderoso que o vilão no auge dessa revanche.

A série animada passou entre Abril de 1994 e Novembro de 95 e teria 86 episódios, ela passou no Brasil via rede Globo, mas minha lembrança mais viva era de passar nas manhãs do SBT e algumas vezes no Disney Cruj/Disney Club. A maioria dos episódios explorava as historias assessorias das 1001 Noites, e o programa tinha seus próprios personagens originais, como Mecânicles, um grego que inventa robôs, o povo de Fedoroza, Miragem, a Sereia Saleen (que transforma Aladdin em um tubarão humano), a Rainha Hipsodete (que viveu um ” amor” com o sultão) e que é a soberana de Galafena, um paralelo com Themyscera, Mukhtar o caçador de gênios, entre outros menos notáveis. Há também anti heróis, como Sadira, que é quase uma versão feminina de Aladdin, e que varia nos clichês de heroína e vilã, aparições de outro gênio, que faz par com o amigo de Al, e nesse ponto da trama a metalinguagem se extrapola bastante.

Dos personagens originais, o que mais chama atenção é Mozenrath, introduzido em The Citadel (episodio 37) como um sujeito que quer contratar Aladdin para fazer um trabalho como ladrão. Ele tem poderes mágicos, mora no reino da areia preta e Yago dizia que o antigo mestre dele Destane, fazia até Jafar ter medo dele. O sujeito tem um parceiro animal, Xerxes, que parece uma enguia que ao invés de nadar, flutua e fala. Quase todas as suas aparições envolvem algo pessoal contra o protagonista, fato que faz o personagem ter um destaque  especial quando aparece. A realidade é que, por mais que a dublagem brasileira salvasse alguns episódios, a maioria tem um texto bem básico, formulaico, além de ter um visual bem com muitos erro de animação e cores mal enquadradas, o quadro melhora ligeiramente na segunda temporada, mas continua com as mesmas tramas repetitivas.

Robin Williams voltaria a dublar o Gênio (na série e no segundo filme, foi Dan Castellaneta, o dublador de Homer Simpson), em Aladdin e os Quarenta Ladrões. Para retomar temática, o ser mágico azul volta a se disfarçar. Finalmente o casal de protagonistas se casa, e nesse meio tempo, aparece um grupo de ladrões, liderados por Cassim, que é além de ser um paralelo com Ali Babá, é também pai do protagonista. A qualidade da animação melhora bastante, mesmo também tendo saído só para vídeo. Há vários aspectos estranhos no roteiro, como o fato do Gênio soar como um animal domesticado, ainda que ainda guarde algumas características próprias suas, como a constante quebra da quarta parede. De positivo há Yago, que retorna a condição de marginal, tal qual sempre agiu nos oitenta e poucos episódios da série. Este parece um filme de ciclos e muitas repetições, mostrando um pouco de redenção do pai, que volta a ter contato com o filho, mas nada muito além disso.

Fato é que Aladdin tem um primeiro filme sensacional, e continuações animadas não tão inspiradas (exceção ao terceiro longa) que reúnem alguns bons momentos. O personagem-título, o gênio e os mitos árabes retornariam em outras mídias da Disney, em especial nos games. Houve também uma participação no desenho do Hercules, de Aladdin, sua turma e claro, Jafar. Em Hercules e a Noite Árabe a alma do feiticeiro chega ao Tártaro e Hades permite que ele volte a vida, tudo bem que Hercules deveria se passar antes de Cristo enquanto os impérios islâmicos habitaram a terra entre os séculos VI e VII, mas o foco é realmente na dramaticidade, e no flerte homo erótico entre os dois vilões, que prometem até se casar. O plano dos vilões faz os heróis caírem em confronto, como a maioria dos crossovers, e apesar de curto, durando apenas 20 e poucos minutos, a reunião dos personagens é bem legal.

Desde os anos noventa, durante a guerra dos 16 Bits, houveram boas versões de Aladdin nos consoles clássicos. Para Super Nintendo, a Capcom fez um jogo bem divertido, de gênero de aventura. O personagem aqui é praticamente estático, e é engraçada a participação do macaquinho Abu, que fica brincando com o cenário, como um Tails dos jogos de Sonic só que as avessas, pois além de não ajudar, ele ainda distrai o jogador, interagindo com inimigos e fingindo brigar o tempo inteiro, socando o ar quase sempre. No final do jogo, Jafar vira uma cobra gigante, e há tanta informação em tela que o console não suporta, e torna a luta em um combate de slow motion. Há um bom porte desse jogo para o Game Boy Advance, feito em 2003, que corrige boa parte desses problemas.

Para o Mega Drive, a Virgin fez um outro jogo, que tem como principal diferencial o uso por parte do heróis de uma cimitarra, que é uma espada árabe. Esse foi lançado em 1993 (e o jogo anteriormente citado também), e a limitação do console da Sega fez com que utilizassem mais as músicas do filme, fato que deu um charme especial para esta versão. As telas de carregamento/loadings são cenas retiradas do filme, dentro da estética do Mega, obviamente, e há mais inteirações, como venda de itens pelo mercador que é o gênio. Ambas versões são bem legais, no entanto a de SNES ficou mais famosa e é mais lembrada.

Houve também um jogo para Windows, de passatempo feito pela Disney Interactive, chamado Aladdins Activity Centre, que reunia quebra cabeça e pintura, era bem esquecível, e foi lançado em 94. O destaque real para jogos inéditos foi lançado em 2001, Aladdin: Nasiras Revenge, contando com uma história inédita e jogabilidade em 3d, fato que foi copiado inclusive nas participações do herói árabe na franquia Kingdom Hearts. O jogo de Play Station 1, e apesar da recepção mista, sua história era bem lega, mostra Nasira, uma poderosa feiticeira que quer ressuscitar seu irmão gêmeo, o vilão clássico, Jafar. Como no Mega Drive, Aladdin andava com uma cimitarra, e o roteiro era bem pretensioso, ao tentar justificar o irmão morto de Nasira. A realidade é que Nasira era poderosa, possivelmente mais até que Jafar, já que era necromante, não precisando lançar mão de um gênio para ser forte, background esse que a faz ser bastante rica. Uma pena que ela não foi explorada em outras mídias, mesmo porque potencial ela tinha para ser uma boa personagem.

A versão em live action que Guy Ritchie fez no Aladdin de 2019, teve uma recepção  mista, mas nada terrível como se esperava antes, e certamente abre possibilidade para continuações, que ficam mais difíceis de ocorrer graças ao péssimo desempenho de Marwan Kenzari como vilão, pois como dá para perceber, a maioria das mídias, Jafar é quase tão importante quanto o príncipe ladrão e quanto o gênio onipotente,no entanto, a lenda de Aladdin e da lâmpada segue viva, muito por conta da Disney mas também por que seu conto é eterno.

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