Carta Aberta à Literatura Fantástica

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Existem muitos gêneros literários. A internet brasileira – sua podos e blogosfera pop, principalmente – tem confundido e defendido a confusão entre fantasia, ficção científica e literatura fantástica. Literatura fantástica, dizem, é a grande mãe dentro da qual estão fantasia, ficção científica e horror.

Mas não, e explico o motivo: no Brasil, na nossa tradição acadêmica que estuda narrativas, é quase ponto pacífico que fantasia/ficção científica é uma coisa, fantástico é outra. Simples assim, porque temos uma tradição de estudar as estruturas narrativas a partir de referências que, muitos e muitos anos atrás, definiram assim as dinâmicas de narrar.

Fantasia/ficção científica – assim mesmo, juntas, sendo quase a mesma coisa – não dizem respeito ao cenário em que se passa a história. Esses gêneros dizem respeito à estrutura que dá vida ao que é narrado. Literalmente, estruturas narrativas. A sequência da confusão diz que fantasia/fc são fantástico porque tratam de coisas que não podem/poderiam acontecer em nosso mundo (neste aqui, na vida do dia a dia). Mas isso é só mais uma confusão: essas estruturas narrativas apresentam cenários que, sim, não correspondem à nossa realidade, mas são construídas a partir de uma lógica interna, uma coerência ficcional que organiza e dispõe a realidade dentro do cenário. Assim, por exemplo, existe uma lógica perfeitamente compreensível na magia dos elfos em Senhor dos Anéis (mesmo que essa magia “não exista em nosso mundo”), e é perfeitamente lógico, dentro do universo ficcional de Star Trek, que Capitão Kirk e Spock sejam desmaterializados na Enterprise e reapareçam, inteiros, na superfície do planeta vermelho gasoso de belas mulheres verdes.

O fantástico, por outro lado, não é assim. Fantástica é aquela estrutura narrativa que deixa em suspenso a comprovação lógica de algo. Se um elfo de Tolkien de repente fosse esmagado por um elmo gigante caído dos céus, sem qualquer explicação lógica, essa estrutura narrativa estaria usando um artifício gótico (do Castelo de Otranto, para ser mais exato), um dos pais desse tal fantástico. Outro dos pais desse fantástico gótico, por exemplo, é o bem conhecido Frankenstein, de Mary Shelley.

Mas fantástico ainda tem outra estrutura, que é a que mais usamos quando pensamos sobre isso no Brasil: é a estrutura do Gato Preto, de Edgar Allan Poe (que o Zé do Caixão pronunciava “po-ê”). Se vocês bem se lembram [spoiler alert], o personagem é aterrorizado durante o conto pelos miados do gato que, pensa, o está acusando de ter matado sua esposa. Não fica claro se o gato de fato estava sobrenaturalmente acusando o personagem, se sua quase-materialização no porão foi algo sobrenatural, ou se tudo não passava da mente distorcida do personagem [/spoiler alert]. ISSO é fantástico. O balanço entre um ponto e outro da lógica narrativa, da estrutura que faz o leitor e o texto passarem da “certeza de que era o capiroto” para o “mas acho que, no fim, o cara era apenas doido”.

E alguns parágrafos acima eu frisei a tradição que nós, no Brasil, costumamos adotar, e disse que ela é “quase” ponto pacífico. Quase porque é claro que outras referências e filiações literárias e críticas podem dar outras compreensões dessa divisão. Em Portugal, por exemplo, com a crítica influenciada pela tradição francesa do fantastique, as distinções entre fantasia/fc e fantástico são, de fato, menos claras. Em nosso caso brasileiro, por outro lado, com as tradições russa e anglo-saxônica, especialmente, temos a tal da distinção de estrutura narrativa, e não de cenário.

Fora da academia, entre o público nerd (orgulhosamente, eu incluso) que consome cultura pop, não há maiores problemas em confundir nariz de porco com tomada. O que não podemos fazer (porque somos nerds, ora, e o que nos define é o interesse pelas coisas) é simplesmente ignorar uma tradição, um conhecimento acumulado, refletido, teorizado, apenas porque sim. Seria como dizer que e não é igual a mc². Ou que dia 25 de maio não é o dia da Toalha.

Isso não quer dizer que você – e a podosfera brasileira – vai deixar de falar que Tolkien é literatura fantástica. Longe de mim exigir isso, policiar a fala alheia. Isso quer dizer, apenas, que agora você sabe. E saber é metade da batalha.

Texto de autoria de Leandro Durazzo, escritor, tradutor, antropólogo, budista, da barriga da mãe para o mundo. Pode ser lido em Os Caras do Clube e Mísera Mesa.