Contos | Ás de espadas

Eu entrei na sala e lá estava ela no sofá. Dando as cartas na mesinha de centro. Érica. Tinha uma cruzada de pernas bem alta que combinava perfeitamente com seu micro vestido. Um jogo perigoso. Apostas sempre foram o meu fraco. Joguei muita coisa fora apostando, mas também ganhei um bocado, nada muito compensador. Jogava de forma compulsiva até a noite em que encontrei Jesus em um bar e entre uns copos e outros ele me disse “Filho, as cartas são um atalho para o inferno, comece a apostar em cavalos, é mais sábio.”

Desde então eu dei um tempo nas apostas. Não que eu seja religioso, mas é que por aqui não há hipódromos, e eu estava realmente de saco cheio de cartas. Érica tirou um ás de espadas do baralho, jogou-o na minha direção com um sorriso malicioso. Ela veio até mim deslizando lentamente pela sala. A cortina se encorpou com o vento que entrava pelo vidro quebrado da janela. Eu coçava minha barba mal feita e só pensava naquele par de pernas que o vento arrepiou e que chegava cada vez mais perto. Foi o Júlio quem me apresentou Érica. Disse que se eu jogasse pôquer tanto quanto ela, eu poderia trabalhar em um de seus cassinos no Uruguai. Era com esse intuito que ela vinha até a minha casa. Nunca chegamos a jogar pôquer de fato. Ultimamente pulávamos a parte dos cumprimentos e incendiávamos os lençóis. Depois disso ela fumava um cigarro ainda na cama e tão logo ele apagava, ela colocava sempre o mesmo blues no toca-discos, vestia-se e desaparecia antes mesmo da primeira faixa acabar de tocar. E eu ficava lá, espichado na cama, com os dedos dos pés encolhidos e congelados. Contando os nós das madeiras do forro. Não se contabiliza perdas e danos quando você é só, há apenas o que restou.

Eu sabia que estava fazendo o jogo errado. Mas se não há risco, apostar torna-se desnecessário. Naquela noite incendiamos o sofá também. Ela não acendeu o cigarro, pediu para ficar até o amanhecer. Quando o sol começou a aquecer a cortina, ela vestiu-se e disse que não iria mais voltar. Partiria para o Uruguai no final daquele mesmo dia. Disse que se eu quisesse partir com ela e continuar com as aulas de pôquer ela estava disposta a continuar lecionando. Ainda esticado na cama com os dedos dos pés encolhidos e congelados eu disse que a partir daquele dia eu jamais jogaria cartas. Ela suspirou com o sentimento de que nem mil ases na manga a fariam vencer esse jogo. Érica desapareceu sem colocar um blues no toca-discos, mas deixou seu cigarro fumegando no meu cinzeiro.

Na noite em que Érica cruzava suas generosas pernas no avião com destino às mesas de apostas uruguaias, eu caminhava pela calçada vazia com a umidade de início de julho nos meus cabelos. Próximo ao cruzamento, uma vitrine me chamou atenção, havia uma televisão ligada em um programa religioso. Saquei na mesma hora que o apresentador não falava do mesmo Jesus que eu encontrara no bar aquela vez. Os semáforos do cruzamento ficaram verdes, mas não passou nenhum carro. Dei-me conta do quão sozinho estava. Aquela não era a primeira e não seria a última noite fria e solitária. Encolhi as mãos nos bolsos e os pés nos sapatos gelados. Segui para casa assoviando uma música qualquer tentando lembrar qual era o blues que tocava depois que o cigarro apagava.

Texto de autoria de Fabio Monteiro.