Contos | Christmas in Madness

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No fim das contas, Erick acabou indo trabalhar naquele dia 25 de Dezembro. Havia nevado no dia anterior, então ainda era possível encontrar alguns carros limpadores da prefeitura nas ruas. “Que merda” ele pensava, enquanto aguardava o sinaleiro abrir. Se não fosse a briga que teve com sua esposa naquela manhã, teria tirado o dia de folga para ficar com ela. Uma xícara de chocolate quente e um delicioso peru de Natal, comprado no supermercado, mas ainda assim apetitoso. Erick não se importava com extravagâncias. Não como seu primo Foreman, que adorava ostentar e mostrar para deus e o mundo que era bem sucedido com o seu emprego de advogado. “Maldito parasita”, pensou. De qualquer forma, o dinheiro que tirava com seu táxi era o suficiente para sobreviver e sustentar seus agrados e de sua mulher. Mas não naquela manhã.

Taxistas deveriam ser mais valorizados. É naquilo que pensava naquele momento. É um trabalho mais honesto do que o de seu primo, porém não tinha tanto retorno financeiro assim. Ficou pensando em que momento da vida ele resolveu virar taxista, já que nem gostava tanto de dirigir, mas não conseguia se lembrar.

Duas garotas acenaram o braço na esquina e Erick encostou. Clientes:

“Para onde vão?” – perguntou.

“Vigésima sétima com a quinhentos e vinte e sete, senhor. A propósito, feliz Natal!” – disse a menina que estava vestida de azul. Erick fingiu que não escutou.

As duas não aparentavam ter mais de vinte anos, pensou. Com uma olhada mais atenta no retrovisor percebeu que as duas estavam muitíssimo arrumadas. Talvez estariam indo para uma festa:

“Visitando familiares?” – perguntou. Não porque se importava realmente onde elas iriam, mas porque aprendera que um taxista deveria tentar pelo menos uma vez estabelecer uma conversa com o passageiro, já que se fosse tomado como simpático poderia ganhar uma gorjeta melhor. Certa vez ganhou vinte dólares de gorjeta utilizando essa tática.

“Na realidade, vamos a uma festa particular. Muito melhor do que passar um Natal chato e parado com os avós” – ambas riram uma para a outra.

Erick olhou pelo retrovisor e assentiu com um falso sorriso no rosto. Sempre pensando nas gorjetas. Colocou a mão no bolso e tirou um cartão:

“Peguem. Caso precisem chamar um táxi de madrugada, quando forem embora. Estarei trabalhando a noite toda provavelmente. As ruas de Nova York são muito perigosas durante a noite. Nunca se sabe o que pode encontrar por aí.” – disse entregando o cartão.

“Muito obrigada, senhor, mas não acho que vamos voltar para a casa hoje” – riram de novo, uma cutucando a outra.

Novamente assentiu com a cabeça e deu um sorriso. Não demorou muito e já havia chegado no destino. Todas as pessoas decentes estavam em suas casas naquela noite, por isso o trânsito não estava muito intenso nas ruas. As duas garotas saíram do carro e não pagaram gorjeta. Maldição.

Se tem uma coisa que vocês precisam saber das cidades grandes como Nova York é que você pode encontrar todo tipo de pessoa e situação bizarra a qualquer momento, até mesmo no Natal. Além das duas garotas, naquele dia já havia levado duas famílias para encontrar com parentes para uma ceia de Natal, sendo que uma delas derrubou torta de maçã no tapete de seu carro. Isso e alguns garotos que estavam sozinhos. Um deles começou a cheirar cocaína no banco de trás. Erick parou e mandou o rapaz ir embora, ameaçando chamar a polícia. De fato não foi um bom dia desde o momento que começou, pensava Erick.

Já eram quase duas da madrugada quando pensou em finalmente ir para casa e dormir. Sabia que sua mulher ainda estaria puta com ele, principalmente pelo fato de ele ter fugido no dia do Natal após uma briga que começou porque havia chegado tarde do trabalho na noite anterior. Não aguentava brigar, mas já estava em um ponto de sua vida que não se importava muito com o que as pessoas diziam, muito menos sua mulher, que já o aturava por dez anos.

Fez o retorno para ir em direção a sua casa, quando foi surpreendido por um homem alto que estava com uma roupa vermelha, quase o atropelando. Freou bruscamente e gelou por algum momento por causa do susto. O homem bateu em seu vidro:

“Tenha mais cuidado!” – exclamou Erick.

“Desculpe-me, amigo, mas ainda dá tempo para mais uma corrida?” – o homem falou, com uma voz macia como veludo. Trajava um robe vermelho com um capuz que cobria parcialmente seu rosto. Estava escuro, portanto Erick só conseguia ver os olhos claramente azuis do rapaz, os quais cintilavam com um brilho absoluto por dentro daquele capuz.

“Pode entrar. Onde quer que eu te leve?”

“Por enquanto vamos andando, senhor. Eu lhe digo onde você deve ir no caminho. Não sei o endereço do local exatamente.”

“Pois bem. Esqueceu-se de entregar algum presente de Natal a essa hora?”

“Digamos que sim.” – respondeu.

O ar do carro parecia ter mudado com a presença daquele homem. Algo nele intrigava Erick, não somente pelo traje que estava utilizando, o qual já era esquisito por si só, mas toda a figura era intrigante. Vez ou outra olhava para o retrovisor tentando visualizar melhor o homem, tentando observar trejeitos e manias dele. Erick aprendera nessa profissão que é possível observar e saber muito sobre uma pessoa só de observá-las pelo retrovisor. Acabou que depois de um tempo virou uma espécie de hobby para ele tentar analisar as pessoas dessa maneira. O único padrão que notara naquele passageiro era que constantemente passava seus dedos em um anel que se encontrava no indicador de sua mão direita.

“Noite agradável, não?” – a voz do homem surgiu do nada, quase assustando Erick novamente, que estava prestando atenção no anel dele.

“Sim…sim.” – respondeu, gaguejando.

“O que faz o senhor dirigindo o seu táxi nesse dia tão especial para todos? Porque não está em casa jantando com seus familiares?” – perguntou o homem misterioso, levantando de leve a cabeça. Uma franja loira apareceu na luz.

“Alguém precisa trabalhar nessa cidade. Se eu não estivesse aqui, quem sabe o senhor nem encontraria alguém para levar onde você quer. Aliás, viro a direita ou a esquerda aqui?”

“Muito bem colocado. Continue pela direita. Logo chegaremos lá.”

“E você? Nada de família?” – perguntou tentando extrair um pouco mais dele.

“Mais ou menos.” – novamente abaixou sua cabeça e começou a mexer no anel – “Não vai cear o nascimento daquele que nasceu para salvar todos nós de nossos pecados?” – perguntou com um tom sarcástico.

“Não sou cristão na realidade. No fim das contas o único significado que o natal teria para mim seria para tirar um descanso em minha casa junto de minha mulher…”

“Brigas conjugais?” – o homem emendou.

“É, mais ou menos.”

Nessa hora Erick percebeu que estava mais desabafando com aquele estranho do que o contrário, coisa que não é muito comum. Geralmente são os passageiros que usam o motorista do táxi como psicólogo. Por algum motivo estranho, aquele ser conseguia desviar de suas perguntas e o deixar à vontade com isso.

“Pois bem, meu local é ali.” – o homem apontou para uma pequena igreja adiante, que parecia estar abandonada a muito tempo.

“Tem certeza de que este é o local? Parece não ter ninguém aí!” – perguntou curioso.

“É sim, meu senhor. Agradeço pela jornada até aqui.”

“Não tem por que agradecer.”

O homem estendeu a mão com o dinheiro para Erick, encostando sua longa mão branca e delicada sob o ombro do mesmo. Nessa hora conseguiu visualizar perfeitamente o anel, que possuía uma forma arredondada com um símbolo estranho no meio. Várias rachaduras que formavam a figura de um dragão-polvo. Extremamente bizarra, pensou. Olhou em seguida para o dinheiro que havia sido entregue para si e percebeu que o viajante lhe entregara uma gorjeta de cinquenta dólares. Olhou espantado para o dinheiro e virou-se para cumprimentar novamente aquele senhor tão estranho, porém tão generoso.

Ao virar-se rapidamente para o homem, este havia retirado o capuz que antes cobria seu rosto misterioso. Primeiramente, Erick ficou atônito, pois nunca poderia conceber aquele rosto em sua mente. Uma forte marca de cicatriz cruzava o rosto do homem da extrema direita à esquerda, em uma altura um pouco abaixo dos olhos, cruzando seu nariz pontiagudo. Seus cabelos eram loiros e curtos e sua pele acinzentada. O homem não parecia ter mais de trinta anos. A mão dele apertou seu ombro e seus olhos eram profundos.

Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh Wgah’nagl fhtan” – sussurrou o homem com uma voz profunda e aterradora que cruzou toda a espinha de Erick, como um vento frio e cortante.

Erick estava atônito e não conseguiu pronunciar nada e nem perguntar o que ele quis dizer com aquilo. O homem simplesmente saiu do carro e sumiu na escuridão daquele terreno. Sumiu da vista, porém ficou gravado na cabeça de Erick que não conseguia parar de pensar em seu rosto nem por um instante. Engatou a marcha e saiu o mais rápido possível daquele local.

Não se sabe quanto tempo levou para Erick chegar em casa. Não sabia nem que horas eram. Entrou em seu pequeno apartamento sentindo-se atordoado com o que aconteceu. Pensou que talvez estivesse delirando demais. Já sabia que Nova York é um antro de loucos e ele apenas encontrou mais um.

Ao chegar no quarto percebeu que sua mulher não estava em casa. Achou um bilhete que dizia que ela tinha ido para a casa da mãe dela.  Sentou na lateral de sua cama com o bilhete em mãos, suspirou fundo e colocou a mão na cabeça.  O que aconteceu com ele, se perguntou. É melhor ir dormir. O dia foi estranhamente cansativo.

Erick estava deitado quando sentiu um formigamento percorrer o seu corpo. Sentia calor, mas achou estranho já que o certo era que estivesse sentindo frio naquela época do ano. Abriu os olhos e percorreu rapidamente o que acontecia a sua volta. Estava deitado em uma praia. A areia era cinza por todos os lados e não se via sequer o sinal de uma pessoa por perto. O mar estava agitado. Olhou para cima e percebeu que o sol começava a escurecer. A lua alinhava-se ao sol, provocando seu eclipse. Tudo ficou levemente escuro, quando percebeu mudanças no ambiente a sua volta.

O mar começou a agitar ainda mais e uma grande montanha começou a surgir do horizonte. Não entendia o que estava acontecendo a essa altura. Provavelmente estava sonhando, pensou. Olhou para a montanha que surgira diante de seus olhos e percebeu pequenas movimentações que se jogavam para dentro da água do mar e calmamente vinham em direção à praia.

Das águas surgiram criaturas horrendas, escamosas e de aparência indescritível. Nada se assemelhava àquelas atrocidades que caminhavam lentamente da água e o rodeavam. Quanto mais se aproximavam, mais se sentia sufocado de pavor. Uma delas encostou com longas mãos negras, escamosas, molhadas e reais em seu braço e o puxou. Erick gritou por socorro, mas quanto mais força ele tentava fazer para escapar de seus estranhos captores, parecia nada surtir efeito. Aquilo era real demais para ser um sonho e se fosse queria acordar de uma vez por todas. Ele queria fugir, mas não parecia ter forças pra sequer se levantar e andar. As criaturas faziam gemidos altos enquanto o carregavam para dentro da água. Erick se desesperava mais e mais.

Assim que chegou à água, Erick foi puxado para baixo por um deles. Após algum tempo tentando fazer um esforço inútil de sair dali, sucumbiu e foi submerso. Quando teve a sensação de que iria desmaiar e morrer afogado, foi elevado para a superfície. Respirou ofegante, buscando oxigênio. Tossiu e prestou atenção à sua volta para sua infelicidade. As criaturas não estavam mais lá, porém estava diante de uma montanha parecida com a que havia surgido momentos antes no mar que estava adiante de si. O céu se encontrava vermelho e não havia sol e nem lua. Um pavor apossou de todo o corpo de Erick quando olhou para o alto da montanha e então parou de respirar. A criatura que ali se encontrava jamais poderia ter sido vista por Erick. Sua monstruosidade e complexidade eram fora do comum. Suas asas cortantes cobriam metade da montanha, enquanto suas longas barbas em formas de tentáculos desciam pelo seu peito. Sua própria existência era um absurdo inclusive para um sonho, porém aquele absurdo estava ali contemplando Erick. Um olhar. Um suspiro de pavor. Um profundo silêncio. A escuridão.

O corpo de Erick foi encontrado na manhã seguinte dentro de seu táxi em um ponto afastado de Nova York. Ninguém nas redondezas viram sequer o carro chegando ali. O que mais intrigara os policiais eram as estranhas marcas perfuradas no corpo de Erick, em seus braços, costas e peito. O caso foi para o arquivo tendo sido classificado como suicídio.

Texto de autoria de Pedro Lobato.