Contos | Coletivo de Gralhas

Ela desligou o despertador no terceiro toque da soneca. Eu sempre me acordo por volta das seis horas da manhã no horário daqui ao natural, estava ali com os olhos semicerrados e a cara enfiada naquela cabeleira já a alguns minutos.

Espreguiçou-se como sempre com um bocejo remexendo o corpo todo no final. Passou a mão no meu rosto de leve, pôs se em pé esticando-se mais uma vez.

– Hora de acordar mocinho. – Falou puxando as cobertas para o chão. Fingi acordar, ela estava sorrindo nua aos pés da cama. Fiquei olhando ela sair do quarto em direção ao banheiro. E a certeza de que seria a última vez que eu veria aquela cena me estapeou a cara.

Fui até a cozinha, coloquei o café a passar, botei o dedo na terra do cacto dentro da pequena estufa, a terra ainda não estava seca. Retornei ao quarto e ela estava lá vestida com minha camisa ao contrário, alongando-se pausadamente como fazia em todas as manhãs em que acordava comigo. Um nó no estômago e nos pensamentos me acometeu.  A cada movimento do alongamento ressaltava o desenho daquelas coxas, ao se abaixar mostrava um pouco mais da bunda, tinha minhas digitais em vermelho impressas ali. Suspirei.

– Teu ritual de despertar é encantador. – Falei sem demonstrar o meu real encanto.

– O alongamento é sagrado para mim, se todo mundo se comportasse como os gatos teríamos menos problemas no universo.

– Quer dizer que se todo mundo tivesse a habilidade de lamber as próprias bolas diminuiriam os índices de problemas no universo?

– Ahaha! Não bobo. Eu me referia ao comportamento dos gatos de se alongar sempre ao se levantar.

– Ahh! Entendi. Não é um bom parâmetro, não temos gatos por aqui. – Falei com meio sorriso congelado no rosto.

 Uma taquicardia começou vibrar meu peito, eu queria apenas manter o controle e não piorar as coisas, não chamar a atenção para o meu desconforto. Exatamente o contrário do que aconteceu, ela se aproximou e o movimento fez a camiseta colar no corpo, delineando aquele peito que outrora eu dormira em cima.

– O que foi? Você está bem? Parece estranho, quer me falar alguma coisa? –  Eu tinha muita coisa para falar, sobre o quanto eu queria que ela ficasse, sobre o quanto ela estava nos meus planos. Então falei:

– Você sabe qual é o coletivo de gralhas?

– Oi?

– Gralhas, quando tem muitas gralhas, uma turma toda de gralhas, qual o nome que se dá a isso?

– Bando, não? É o coletivo de qualquer pássaro até aonde saiba. Que pergunta é essa? – Ela respondeu do jeito desconcertado de quem espera ser questionada por qualquer outra coisa.

– Não, acho que não. Acho que gralha tem um coletivo específico. Eu sonhei com um monte de gralhas essa noite e fiquei pensando nisso. Tu que acredita nessas paradas de vidas passadas, sonhos e vozes interiores, o que significa sonhar com um monte de gralhas?

– Humm… não saberia dizer de cabeça, mas gralhas são do grupo dos corvídeos e os antigos diziam que achar uma pena de corvo significa solidão.

– Poxa, que pesado.

– Mas olha só, não é uma coisa ruim. Solidão é o ponto de partida para uma coisa nova, um recomeço logo ali adiante, sabe?

Nos encaramos por alguns segundos e suspiramos. Aqueles olhos eram poços límpidos e tranquilos que eu gostava de mergulhar. Desconcertantes. Dei-lhe as costas e fui até a cozinha verificar o café. Fiquei ali observando catatônico vendo as gotas caírem uma a uma enchendo o bule. Logo ela apareceu já com o traje de viagem e mochila nas costas.

– Mas já?

– O cheiro do café está tentador como sempre, mas não vou poder tomar. Atrasada.

– Tem certeza?

– Tenho. Melhor eu ir… tudo bem contigo mesmo?

– Sim.

– Está tudo certo entre nós?

– Tudo certo.

– Me abraça?

Eu queria que aquele abraço tivesse durado dois anos. Fomos em silêncio até a porta que abriu automaticamente. Ela me deu um beijo no rosto e seguiu no corredor em direção a sala de descompressão sem olhar para trás. A porta fechou-se novamente.

Fui até a escotilha para observar até o que módulo de transporte desacoplasse da estação lunar e partisse em direção ao planeta azul. Eu tinha saudades da terra. Das coisas simples. Do vale de plátanos que ficavam dourados no inverno, de uma caminhada para ver o pôr do sol, uma mirada de estrelas no cume de um monte.

É estranho sentir falta disso, aqui de cima o pôr do sol é incrível e a miríade de estrelas é de uma beleza imensurável. Não estava tudo certo não. Eu queria ter dito para ela que meu desejo era estar naquele módulo de transporte sentado ao lado dela, com a mão em cima daquela coxa. Desta forma estaria tudo certo. Mas eu falei sobre gralhas. Talvez porque eu tenha uma saudade imensa dos pássaros tanto quanto eu já tenho saudades dela. Talvez.

O módulo de transporte desconectou-se da plataforma de embarque, a ausência de gravidade fez a mágica acontecer, com o apoio dos jatos propulsores ela partiu vagarosamente até sair da órbita da lua e do alcance da minha visão em direção a terra.

– Gralhas! Puta que me pariu.

O café ferveu e derramou.

Conto de autoria de Fabio Monteiro.

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