Contos | Fósseis no meu quarto

– Edgar, devo confessar que fiquei preocupada quando sua mãe me ligou dizendo que você queria adiantar a consulta que seria apenas na próxima semana, tendo em vista que em todas as visitas anteriores você veio a contragosto. Ela me tranquilizou e disse que estava tudo bem, mas eu só acreditarei nisso se você mesmo me disser. Está tudo bem com você?

– Estou bem, doutora.

– Elisa, pode me chamar de Elisa, combinamos que não quero que me veja como uma doutora e sim como uma amiga. Ok?

– Sim.

– Então vamos lá, quer começar me contando o que o fez mudar de ideia sobre nossos encontros?

– Eles sumiram, doutora. Ahm… Digo, Elisa. Eles sumiram, Elisa.

– Quem sumiu, Edgar?

– Bem, eles sumiram. Não os vejo mais, a senhora sabe, eles.

– Está me dizendo que você não vê mais os dinossauros?

– Isso. Não os vejo mais.

– Eu fico muito feliz por isso, Edgar, mas diga-me: você os via na rua, na sua casa, no seu quarto, você via dinossauro em todo lugar, certo?

– Certo.

– E não tinha medo deles, correto? Eram seus amigos, não eram?

– Sim, correto. Eram meus amigos.

– E agora todos eles sumiram?

– Sim.

– Inclusive aqueles pequeninos que ficavam nos seus pés na cama?

– Eles não estão mais lá.

– E pode me dizer o que foi que “extinguiu” os dinossauros da sua vida?

– Eu pedi e eles sumiram.

– Edgar, há seis meses temos conversado sobre esses seus amigos – agora que eles sumiram eu posso chamá-los de imaginários, posso?

– Sim, pode.

– Ok. Bem, então diga-me o que o fez pedir para eles irem embora.

– Doutora… Desculpa, Elisa. Foi o Beto quem pediu isso para mim, e eu pedi isso a eles.

– Está me dizendo que fez isso atendendo ao pedido de seu padrasto?

– Sim, foi.

– E pode me dizer por que foi que ele pediu isso a você?

– Eu estava brincando com o pterodáctilo que vinha toda noite na janela da sala. Então o Beto chegou. Estava daquele jeito estranho de novo. Eu ignorei e continuei a jogar cascas de pão ao meu amigo. Então o Beto chegou e me pegou pelo braço e disse que ele não trabalhava o dia todo como um cavalo para um retardado jogar o dinheiro dele pela janela. Minha mãe gritou para ele da cozinha. Ele me soltou e foi até lá. As panelas começaram a cair. Corri até o quarto, eu tinha um velociraptor que dormia lá no meu roupeiro. Ele poderia estraçalhar um adulto em segundo, sabia? Mas antes de eu chegar ao roupeiro o Beto me pegou pelos cabelos e falou baixinho no meu ouvido. Disse que aquela era uma conversa de homem. Ele disse que a minha mãe estava chorando por minha causa. E isso irrita as pessoas, e quando pessoas se irritam elas podem fazer coisas ruins até para os entes mais queridos. Ele me prometeu que isso nunca aconteceria conosco se eu não me comportasse mais como um retardado. Então naquela mesma noite eu chamei meus amigos e expliquei que eu não tinha escolha. Eles entenderam e desapareceram. Eu vim aqui pedir algo que prove que eu não sou retardado e aí ficará tudo certo.

– Edgar, você não tem nenhum retardo mental. Pelo contrário, tens um QI acima da média, sabe o que é isso?

– Acho que sei.

– É mais inteligente que as outras crianças da tua idade. E, além de um QI brilhante, tem uma imaginação fértil bem acima da média também. Por isso às vezes você pode parecer desatento para as coisas práticas e objetivas ao seu redor. Mas isso está longe de ser um problema que não possamos resolver. Lamento que seus amigos tenham partido dessa maneira, não era isso que eu tinha em mente. Tome, fique com o meu número, quero que me prometa que vai ligar se o Beto tiver mais uma conversa de homem com você, promete?

– Sim, prometo, posso ir agora?

– Sim, querido, até nosso próximo encontro.

Ao sair do consultório, Edgar sente a brisa fria de final de outono nos cabelos. Olha para cima e vê a sombra de uma gigantesca criatura alada por entre as nuvens. Ele sorri. À sua esquerda na calçada como um cão de guarda marcha um jovem velociraptor.

– Ela acreditou. Foi uma boa ideia a sua, isso vai nos deixar longe de problemas – sussurra o menino ao lagarto que grunhe modestamente, dando-lhe a compreensão que mais ninguém poderia lhe dar.

Edgar ergue a mão e aponta para cima. O lagarto mostra os dentes e solta um guincho agudo. Do alto, a criatura alada responde com um berro igualmente agudo e longo enquanto esquenta suas asas sob o sol.

Texto de autoria de Fabio Monteiro.