Contos | Ivan

Há momentos em que você pressente o que está por vir. Não me refiro à mediunidade ou a premonições. Estou falando de sensações. Como abrir a janela, sentir o vento forte e quente, e saber que logo vem tempestade. Ivan acordou naquela manhã e acendeu um cigarro ainda na cama, sentindo um aperto no peito. Bocejando fumaça ele sentou-se. Seu pé esbarrou na lata de cerveja que rolou ao encontro de outras latas vazias embaixo da cama. Ele ignorou a lata e o rastro de cerveja quente que ela deixou. Naquele momento estava inerte a tudo, menos ao seu cigarro. Tragava e meditava, às vezes enquanto soltava a fumaça pelo nariz com os olhos fitando o chão balançava a cabeça como se aquela tragada tivesse esclarecido tudo. De certa forma, Ivan sentia no peito o vento forte e quente que precede uma tempestade. Ele sabia que uma tempestade estava por vir.

Ficou nesse estado catatônico até a brasa do cigarro encontrar o filtro amarelado. Levantou-se e deixou o toco fumegando em um prato com restos de pizza que há dias fazia de cinzeiro. Seu apartamento era minúsculo, em três passos já estava diante da porta de saída onde jazia a correspondência sem remetente ou destinatário, uma folha branca com um lembrete escrito em letras negras e garrafais: “VOCÊ VAI PAGAR POR ISSO, IVAN’. Ele amassou e abandonou o bilhete ali mesmo. Serviu-se de seu conhaque barato, acendeu outro cigarro e sua mente retrocedeu à manhã anterior quando recebeu um envelope com um recado diferente: “VIRGÍNIA, A MORENA DE OLHOS VERDES DO PULP CABARÉ. HOJE APÓS SEU SHOW ÀS 23:30hs. É IMPERATIVO QUE SEJA SEM DOR E QUE SEU ROSTO PERMANEÇA INTACTO.” Ivan era assassino profissional, não lhe importava quem eram as vítimas ou qual o motivo que as levava à morte. Apenas executava ordens sem questionar.

Lembrou também que naquela noite ele estava em algum canto do Pulp Cabaré, alheio à gritaria da platéia. Via acertada sua decisão em trazer apenas o seu pequeno jogo de facas. Uma estocada seca nas costas entre as costelas seria rápido, limpo, discreto e teria o rosto de Virgínia intacto como lhe fora ordenado. A esguia Virgínia fazia refém os olhos e os desejos da sua platéia lasciva, ávida pela queda de sua última peça de roupa. O seu show era o ponto alto da noite. Garotos lançavam-se ao palco para deixar notas de seu salário preso ao corpo dela, enquanto velhos bêbados gritavam e exaltavam de forma despudorada sua beleza. Ivan levantou-se e abriu caminho entre a pequena multidão em direção à ela. Chegou diante do palco aos pés de Virgínia. Seus olhos procuravam apenas os olhos dela. Ela o notou, Ivan tirou algo do bolso do seu casaco e estendeu na direção da garota. Ela aproximou-se dele com movimentos de serpente com sua pélvis insinuante. Ele depositou na alça de sua lingerie algo semelhante a uma nota. Sua mão já estava recuando quando ela o segurou pelo pulso, puxando-o para si e beijou levemente sua mão e seus dedos, sempre o encarando. Ele recuou. Não era dinheiro, e sim um bilhete em sua cinta liga. Quando ela leu: “Salve sua vida. Não volte para casa.”, ela achou estranho. Mas, ao ler no verso, a ordem dada ao executor, ela sentiu medo. Procurou Ivan que desaparecera entre a platéia que a aplaudia em êxtase, mesmo ela estando estática e com os olhos prestes a transbordar.

As lembranças do dia anterior foram se dissipando da mente de Ivan, que não concebia o fato de ter poupado a garota, pois no meio em que vivia, ele era limpo, mesmo seu serviço sendo sujo. Nunca deixara de cumprir uma ordem, ainda mais quando a metade do serviço é paga adiantada. Ivan não conheceu Virgínia naquela noite, quando seus mundos colidiram há meses atrás ele sabia que estavam usando um ao outro. Ela entregava seu corpo apenas para pertencer a alguém. Ele matava para sentir-se forte. Doentios demais para permanecerem vivos.

No fundo, ele sabia que, quando seu mundo desolado colidiu com o mundo de Virgínia, estavam usando um ao outro. Ela vendia seu corpo apenas para pertencer a alguém. Ele matava para sentir-se forte. Doentios demais para permanecerem vivos. Aos poucos essas lembranças foram evaporando de sua mente. Há muito tempo deixara de se questionar. Aprendeu que perguntas demais levam a respostas de menos. E no final é sempre a mesma pergunta, que obtém sempre a mesma resposta. Ele pegou a mochila com o dinheiro que recebera adiantado para executar Virgínia, entornou o conhaque, fumou o resto do cigarro em uma única tragada e depositou mais um toco fumegante no prato de restos de pizza. Colocou seu jogo de facas na cintura que ficou acomodado e discreto sob sua camisa. Calçou suas botas e caminhou até a porta. Catou o bilhete que ameaçara sua vida. Colocou-o no bolso e saiu. Quando saiu porta a fora parou de solavanco. Voltou vagarosamente e tomou seu casaco, vestiu-o acomodando-o por cima de sua camisa amarrotada e escondendo definitivamente suas facas. Ainda sentia o vento quente no peito.

Ele ignorou o elevador e desceu os seis lances de escada. Encontrou a manhã daquele domingo nascendo preguiçosa e cinza com o sol se esgueirando por detrás das nuvens. Ele tomou o sentido contrário dos carros na rua. Não havia pessoas nas calçadas, somente cães tentando puxar sacolas de lixo das lixeiras. Logo que passou por eles, sentiu um leve aroma de flores. Talvez tivesse lembrado onde sentira esse cheiro, não fosse o fato de um táxi ter parado à sua frente mesmo sem ele ter feito sinal. Ivan abanou ao taxista e teve a impressão de que o motorista estava assustado. Foi aí que sentiu que alguém o espreitava. Sua nuca arrepiou-se tardiamente. Sentira uma pancada seca e forte nas costas, algo gelado e agudo penetrara entre suas costelas de baixo para cima e era empurrado para mais e mais fundo. Seus braços não obedeciam, estavam desfalecidos. Seu algoz forçou o aço até Ivan ficar na ponta dos pés e arquear as costas para trás. O aroma suave que sentira se dissipou quando ele sentiu o sangue subir pela garganta e encher a boca. Em um movimento rápido, o punhal que o transpassara foi puxado sendo seguido por um jato de sangue escuro e espesso. Ivan caiu de joelhos e em um movimento lento, sua face encontrou o chão. Ele ergueu o rosto e quando viu Virgínia com um punhal pingando um vermelho escarlate, lembrou-se onde sentira aquele cheiro. Ela tomou a mochila de suas mãos pálidas, que não reagiram. Virgínia o encarou enquanto limpava o punhal em um lenço branco e o jogou atrás de si enquanto tomava o táxi que a aguardava, levando a mochila com o dinheiro que pagara a sua morte.

Ele ficou na calçada, quando os espasmos começaram não se ouviu gemidos. Ivan não podia afirmar, mas os olhos de Virgínia pareciam estar lacrimejando. Talvez fosse só impressão, pois sua visão embaçou. Ele riu. Riu pela ironia do destino. E mesmo no final não houve arrependimento ou questionamentos. Lutando para manter as pálpebras abertas, sussurrou o nome dela sob o olhar débil dos cães que o observavam espalhar sua vida pela calçada, tingindo de vermelho aquela manhã cinza de domingo.

Texto de autoria de Fabio Monteiro.