Contos | KAFFEE, STRUDEL ODER BLITZKRIEG?

Ela me acordou aos tapas com aqueles dedos tatuados espalmados na minha cara. Aos berros a milímetros do meu nariz gritou salivando que me amava, falava um alemão truncado e agressivo. Não que eu saiba alguma coisa de alemão, mas os olhos sempre entregam a mensagem. Enquanto ela ia para o quarto praguejando e juntando suas roupas no chão eu catei as minhas e me vesti em segundos. Reconheci amontoada atrás da porta minha jaqueta jeans fedida de cigarro e escapamento, joguei nos ombros e sai deixando a porta entreaberta.

No elevador abotoando a calça me perguntava como caralhos eu me metia nessas situações com mulheres malucas e endereços estranhos. Sai do prédio e a impressão era de que eu tinha acordado em outro país, não sabia que lugar era aquele nem onde estava minha moto, nem mesmo tinha certeza de que tinha ido até ali de moto. Escolhi uma direção e segui. Enquanto me deslocava até a esquina eu sentia um vazio no peito aumentando a cada passo. Um sentimento peculiar bem parecido com saudade, mas poderia muito bem ser apenas fome. A cada esquina sentia aumentar o desânimo por não identificar nada familiar naquele lugar que me desse alguma pista de onde eu estava. O comércio estava fechado, não encontrei nenhum outro transeunte além de cães pilhando sacos de lixo. Parecia feriado nacional ou aqueles domingos de manhã no forte do inverno, eu não podia afirmar que dia da semana era aquele, nem mesmo se era de manhã, só tinha certeza de que não era inverno.

No meio daquela confusão mental brotou enfim um pensamento lógico, “se você está perdido, volte para o último ponto de referência”. Suspirei e fiz o caminho de volta. Já no elevador eu me encarava de canto de olho no espelho velho e sujo ali pendurado, quantas vezes mais isso iria acontecer? Por quanto tempo mais eu aguentaria viver sem rumo? Me senti como aquela criança que descobre que andar de carrossel é apenas rodopiar em torno de si subindo e descendo um cavalo de plástico e que não vê a hora de descer porque a brincadeira perdeu a graça.

Encontro a porta ainda entre aberta. Lá estava ela sentada no sofá meio de lado, com um toco de cigarro fumegando entre os dedos, o cabelo de cor não específica caia despenteado por entre o decote do roupão de cetim roxo, as partes esbranquiçadas e os fiapos da barra davam a entender que o roupão poderia muito bem ter sido da sua mãe, entretanto lhe caia com uma perfeição extrema. Fiquei apenas admirando aquela cena compenetrado como se estivesse em um dia de folga no Louvre, poderia dizer que naquele momento o mundo todo estaria em silêncio total não fossem os gemidos da cafeteira cuspindo café na cozinha. Ela então cruzou as pernas, o roupão deslizou devagarinho revelando a coxa, joelhos roxos e uma cinta liga solta, pois estava sem meia. Era hora de retomar o controle da situação, me aproximei devagar, tomei-lhe o cigarro da mão, traguei e afoguei aquele resto de brasa em um dos copos de bebida que povoavam aquele lugar, soltei a fumaça olhando nos seus olhos que eu nunca sabia dizer se eram castanhos ou verdes. Ela riu. Riu de boca inteira, um sorriso que iluminou toda a sala, os questionamentos que me fiz no elevador iam perdendo a relevância.

Falei que precisava comer, ela disse algo apontando com o nariz para a cozinha, mas eu só consegui entender “blitzkrieg”, tive receio de descobrir o que de fato ela quis dizer. Já não havia mais sorriso, apenas uma cara feliz e satisfeita, ainda assim iluminava. Ela deu três tapinhas no assento vazio do lado dela, suspirei fingindo cansaço e sentei. Ficamos apenas nos olhando por um tempo, seus olhos pareciam mudar do verde para o azul e vice-versa a cada piscada, e cada vez que percebia isso eu perdia a urgência em saber onde estava e como voltar para casa, me sentia menos vazio e um pouco mais animado. Se eu estava sonhando ou tendo uma crise de amnésia já não fazia diferença, eu não queria acordar e nem ser curado.

Conto de autoria de Fabio Monteiro.

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