[Contos] Pangea Café

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Já passava das nove da manhã, e Oto folheava o caderno de esportes sem interesse algum, no balcão de um boteco qualquer, quando o telefone público que ficava em frente à porta na calçada começou a tocar. Oto deixou algumas moedas junto a sua xícara vazia e abandonou o jornal em direção ao telefone.

 Recebeu minha encomenda? – Oto perguntou.
 Sim, eu vi e revi as fotos e vídeos. É ele com certeza.
 Você tem certeza mesmo? Quero dizer, viu ele mais de uma vez? É que eu fiquei na dúvida, você me deu poucas fotos e eram bem antigas.
– No início, eu também fiquei na dúvida, ele está praticamente irreconhecível. Pelas fotos, apenas sentia que era ele, mas foi vendo o vídeo que tive a certeza. Veja você mesmo, aos três minutos e trinta e cinco segundos ele faz um trejeito com o pescoço que o denuncia.
 Espera, está dizendo que esse é o homem certo só pelo jeito dele de mexer o pescoço? É uma certeza fundamentada em nada.
 Não é um simples “mexer o pescoço”, é um tique nervoso que ele sempre teve. Desde garoto ele usava mullets e pegou a mania de tirar e botar o cabelo pra dentro da gola da camisa. É fácil mudar de lugar e de aparência, mas suas manias sempre vão te entregar, nunca se esqueça disso.
 Quer que eu interrogue o cara pra ter certeza?
 Não. Não quero que fale com ele. Entra lá e manda ele pro inferno que eu garanto.
 Só quero lembrar que, se eu matar esse cara que vende livros usados em um muquifo de nome estranho e ele não for o cara certo, o serviço será dado como feito.
 Eu assumo toda a responsabilidade. Não vai ter erro, pois tenho certeza que é ele. E não tente interrogá-lo, ou ele é quem vai te matar. Se deixar ele piscar, ele acaba com você. Entendeu?
 Ei, não me subestime tanto, vou te mandar essa fatura hoje mesmo.

Oto desligou o telefone e tomou a direção do sebo Pangea Café, que ficava a quatro quadras do orelhão. O sol ainda se espreguiçava por entre nuvens acinzentadas, e o vento frio da manhã causava alguns arrepios, motivando a caminhada. Faltavam poucos minutos para o sebo abrir, e quando Oto dobrou a esquina, ainda pôde ver o “suposto” alvo abrindo as fechaduras da porta de vidro do sebo. Assim que entrou, virou a plaquinha de “fechado” para “aberto” e deixou a porta fechada. Oto não percebeu movimento de carros ou pedestres, enquanto empurrava a porta de vidro, e entrou logo atrás.
Um sinete na porta anunciou a sua entrada. O “alvo” já estava atrás do balcão, de costas. Oto duvidou que ele tivesse apenas 38 anos como lhe tinham informado, pois aparentava uns 10 anos a mais. Era um sujeito de estatura mediana, não era gordo nem magro, tinha o cabelo castanho claro caindo pelos ombros, com várias mechas brancas e focos de calvície testa acima. Tinha um cavanhaque espesso e mal cuidado, amarelado pelo cigarro,  e levava no rosto uma expressão judiada, com olheiras de quem raramente tinha horas de sono contínuas.

– Bom dia. – disse ele, virando-se ao ouvir o barulho da porta.
 Bom dia.
 Posso te ajudar? Procura algo em específico?
 Ah, não, obrigado, não procuro nada em especial. Só estou dando uma olhada mesmo.
 Então fique à vontade. Vou por uma água para esquentar e já volto. Se precisar de alguma coisa, é só gritar. Meu nome é Roberto.
 Pode deixar, Roberto, obrigado.
Ele saiu de trás do balcão arrastando suas sandálias de couro, pisando na barra do seu abrigo de moletom cinza, e entrou na pequena cozinha, puxando pra cima as mangas do seu puído casaco marrom de tricô.

Oto engatilhou sua luger no bolso do casaco e começou a andar por entre as prateleiras, observando cada seção de livros.
Roberto voltou da cozinha e foi direto no toca-discos que ficava no caminho.
 Vou por um som aqui pra alegrar. – E um jazz nervoso começou a soar nos alto-falantes raquíticos.
– Ah, Chet Baker. Eu gosto.
 Como?
 O vinil que você acabou de colocar, é Chet Baker, não é?
 Ah sim, é mesmo. – Roberto afirmou espichando os olhos para a capa surrada do vinil.
 Roberto, há quanto tempo você trabalha aqui nessa livraria? – Oto já tinha dado uma volta por todas as prateleiras e agora se afastava da porta.
 Eu trabalho e sou o dono. Não tenho nada novo aqui, isso é mais um sebo mesmo e estou aqui nesse ponto há muitos anos. Se procura por um lançamento, eu sinto muito.
Quando Roberto terminou a frase, percebeu que a porta de vidro estava agora trancada, e a placa com a inscrição “ABERTO”, virada para o lado de dentro.

Ele não sabia dizer desde quando, mas, ao olhar para Oto, percebeu que ele estava apontando uma arma para ele discretamente da altura da cintura.
 Ei, cara, que porra é essa? Abaixa essa coisa. Você é meu primeiro cliente do dia e eu só tenho trocados, vou pegá-los pra você. – Roberto fez menção de se aproximar do balcão.
 Mais um passo e eu estouro tua cabeça. – Oto abandonara o tom polido – na verdade, de qualquer forma, eu vou estourar a tua cabeça, mas antes tenho que te dizer que até entrar aqui eu estava certo de que iria cometer um erro. Fui contratado para localizar e matar Enrico Diaz, o Rico. Todas as pistas me trouxeram até você. Eu te segui, te fotografei e te filmei durante muito tempo, e embora o meu empregador tivesse confirmado que era você o cara certo, eu tinha minhas dúvidas, até entrar aqui. Enrico Diaz, prolífico matador de aluguel nos anos 90, fim da linha pra você.
– Pelo amor de Deus, cara, espera. Tu tá cometendo um erro, não sou quem tu tá dizendo, eu sou só um livreiro.
 Você pode ser qualquer coisa, Rico, pode ser um assassino aposentado, um padeiro, um carteiro, um juiz ou um astronauta, mas uma coisa você não é, um livreiro. E eu vou te dizer o porquê. Não precisa ter cursado biblioteconomia pra saber algumas coisas sobre organização de livros. Você não conseguiria organizar uma gaveta de cuecas. Isso aqui é o retrato do caos. Você é um herege: tem mais de quatro livros do Stephen King na seção de espiritismo; H.P. Lovecraft e Allan Poe estão na seção Wicca; Nietzsche e Júlio Verne estão na de autoajuda, bem ao lado de O Hobbit. Que porra de disfarce é esse? Se você quer mudar de identidade e se tornar um garçom, você tem que, no mínimo, aprender a abrir uma droga de lata de cerveja e equilibrar um copo em uma bandeja. Se disfarçar de livreiro sem ao menos saber organizar uma estante de livros é um desleixo imperdoável. Merece morrer mesmo.

 Não, cara, espera, eu sou um livreiro sim. Isso não é um desleixo. Quero dizer, é tudo proposital. É uma jogada comercial, entende?
 Tá piorando, Rico.
 Olha, veja bem, o negócio vai de mal a pior. Quem tu acha que entra em uma livraria hoje? De cada dez pessoas que entram aqui, cinco querem tirar cópias de alguma coisa, mesmo tendo um cartaz na porta dizendo “NÃO FAZEMOS CÓPIAS. NÃO TEM XEROX”. Duas querem comprar cigarros, uma quer usar meu banheiro e as outras duas estão interessadas somente nessas seções que tu falou. Se de cada cem pessoas uma delas levar um desses clássicos por engano e gostar, já vai ter valido a pena, não acha?
 Acho que essa é uma das piores desculpas pra não morrer que já me deram. Agora você merece morrer sendo o cara certo ou não.
 Ah, cara, quem diabos é você? Um matador erudito? Está me apontando uma arma de mais de 50 anos, você é um desses porra-louca vintage?
 Vou te falar isso só porque tu vais morrer mesmo. Lecionei língua portuguesa e literatura por 23 anos. Só mudei de profissão porque ganho mais matando do que ensinando. E quanto à pistola, ela não tem nada de especial, é só um capricho meu mesmo. E isso é tudo o que tu vai saber de mim. Agora, antes de morrer, só me diga uma coisa. Pangea Café, que merda de nome é esse?

 Não fui eu que deu esse nome. Isso aqui era tipo uma cafeteria que vendia vinil e acabou falindo, então eu comprei o ponto e mantive o nome do lugar. Achei legal e não mudei a fachada.
 Que surpreendente, uma cafeteria que vende vinil. Por que será que não fez sucesso né?
 Pois é, cara, que negócio louco, eu fiquei com os discos, só tem clássicos.
 Ahh! Os clássicos. Você nem sabia que era Chet Baker que estava tocando. Você não sabe porra nenhuma. – Oto era rangidos entredentes e os olhos esbugalhados.
 Não, cara, eu sei muito, sim. Eu amo os clássicos. É sério.
 Ok, Rico. Nós dois sabemos que você não vai sair vivo desse lugar. Entretanto, vou te dar a chance de morrer com alguma dignidade me provando que em alguma coisa você está certo. Me mostra esses teus clássicos, e a cada disco da Xuxa que eu encontrar, tu vais tomar um tiro em um lugar aleatório.
 E se tu não achares nenhum?
 Aí é um tiro só. Aquela tal dignidade que te falei.
 Ah não, cara, vamos conversar. Eu tenho dinheiro em outro lugar, eu te pago mais do que estão te pagando, eu desapareço, tu nunca mais vais me ver, não precisa fazer isso comigo.
Oto aproximou a pistola entre os olhos do livreiro e disse um enfático “Preciso sim”.

Caminharam até a sala contígua à cozinha. O livreiro choramingou e resmungou coisas sem sentido. A porta fechou-se atrás deles. Alguns segundos depois, seis estampidos passaram despercebidos por qualquer transeunte que pudesse estar pela rua naquele momento. Uma pequena pausa se fez. O livreiro praguejava e gritava de dor quando uma sequência de mais três tiros o calou.

Oto saiu da sala de discos acomodando a luger no bolso do casaco. O cheiro de pólvora tomava o lugar, como aquela neblina que chega de surpresa em fim de tarde no inverno. Algo o chamou a atenção próximo ao banheiro. Ele caminhou até ao lado da porta e ficou de frente a uma pequena estante em que estava escrito “Livros para ler em uma cagada” e que expunha diversos títulos de poucas páginas. Oto soltou uma gargalhada e disse “Mas que grande filho de uma puta” e voltou-se para os títulos, olhou para a porta da sala de discos e deu uma risada muda e sem graça. Pegou um exemplar de “Como pegar em garotas em festas sem sem ser divertido” e o colocou no bolso interno do casaco. Caminhou até o toca-discos e virou o vinil. Olhou mais uma vez para a porta que o separava do livreiro e suspirou balançando a cabeça negativamente. Chet Baker recomeçou a choramingar seu trompete, quando Oto fez o sinete estremecer ao bater a porta em sua saída.

Texto de autoria de Fabio Monteiro.