Contos | A Dama Vestida de Branco

Era o meio da década de 1970, estava eu no auge da minha juventude quando soube que ela estava vindo para a cidade. Fiquei eufórico, transtornado, e mais um monte de coisa que nem sei explicar. Marquei os dias no calendário pra poder vê-la, logo que chegasse triunfante e pomposa. Passaram-se os dias e a data tão desejada chegou! Mal podia eu acreditar que a veria ao vivo pela primeira vez. Era linda, sua cor pálida, remetia classe e sofisticação, usava detalhes brilhantes, em madrepérola e couro, e todos que a viam passar, independente da idade não conseguiam deixar de admirá-la, em seu andar firme e macio.

Como já havia imaginado, ela virou minha deusa. Animou meus sonhos por noites e dias, e creio que não era o único quem tinha fantasias com aquele ser tão incrível. Todos os dias eu ficava horas a observando no salão do centro da cidade, onde ela costumava ficar. Perdia o fôlego quando a via, e era inevitável imaginar as mais diversas situações com ela, e como poderia ser bom se nós estivéssemos juntos, mas esse sonho parecia ainda um pouco distante, mas que me tentava mais a cada minuto.

Com esforço arrumei um emprego numa oficina do meu bairro, decidido a guardar todo o dinheiro que ganharia para um dia poder tirá-la daquele salão onde ela sempre me parecia tão solitária e carente. Todos os dias, pela tarde quando saía da oficina, passava pelo salão para vê-la, ainda que um pouco escondido entre a multidão, pois me envergonhava em deixá-la me ver sujo de graxa. Que pensaria ela de mim? Um pobre coitado que almeja uma coisa que não pode ter, mesmo que por enquanto. Era um sonho difícil, eu sabia, mas um dia ela seria minha.

Algumas semanas se passaram, e numa fatídica quinta-feira, eu a vi a cena que mais me machucou, em toda minha vida! Minha deusa, estonteante como sempre, em seus vestidos brancos como a neve, andava com outro sujeito! Um dos riquinhos do bairro nobre, com seu cabelo besuntado de goma e com seus sapatos envernizados, que manchavam a beleza da minha musa. Aquilo foi como se explodissem meu coração com uma granada! Todo meu sonho se despedaçou como uma vidraça após uma pedrada. Parecia ter sido de propósito que passaram em frente à oficina, só para me provocar! E o almofadinha se sentia o máximo! Juro que tive vontade de arrebentar-lhe a fuça, mas não queria assustar a bela dama junto dele, e fazer me passar por um ignorante. Terminei meu horário naquele dia e fui pra casa. Subi as escadas sem falar com ninguém, me tranquei no quarto e desejei a morte. Minha amada estava nos braços de outro, que talvez poderia lhe dar melhores cuidados, mas não o carinho que merecia.

Passei meses entristecido,  e me doía o coração de vê-la desfilar junto daquele sacana pelas ruas. Mas de alguma maneira meu sonho ainda estava aceso, e me fazia seguir em frente, em imaginar o dia, mesmo que seja meu último, junto dela. Chegou a primavera, e acompanhado dela o baile de comemoração! Era tradição na época, um jovem cortejar uma moça e chamá-la para ser sua acompanhante na festa. Porém, eu não poderia ter meu par, já que ela estava com outro. Não comprei convites para a festa, e nem sequer pensava em sair, pois não aguentaria vê-la, e não poder chamá-la de minha.

No dia seguinte da festa, ao ler o jornal vi a notícia terrível! O playboy, após uma noite de azar no baile, resolveu descontar seu ódio na Dama. Com um pedaço de madeira e garrafas de whisky, ele a deixou irreconhecível. Indefesa a pobrezinha não teve como reagir diante da maldade de um monstro! As fotos eram terríveis, e meu choque foi enorme! Larguei o jornal e o café da manhã e fui atrás do idiota responsável por tamanha crueldade. Quando o encontrei, disse que já não se importava com a coitada, e que iria se desfazer dela. Era incrível a falta de interesse daquele ser, mas ao mesmo tempo mal podia acreditar que essa era minha chance de realizar o sonho de ficarmos juntos!

Levei-a para casa. De início todos se assustaram, pois meu pobre anjo caído estava em frangalhos, e passei a cuidar dela todos os dias. Minhas economias foram de boa ajuda, e meus pais também se mobilizaram para dar a ela um bom e merecido amparo. Semanas se passavam e a cada momento, eu olhava para aquele monumento e me apaixonava ainda mais, a desejando cada vez mais. Parecia loucura, mais passava a maior parte do meu tempo com ela, conversando e cuidando da pobrezinha.Passaram-se os meses e ela finalmente estava de pé novamente. Mais glamourosa do que nunca, seu olhar penetrante e seu corpo mais impecável do que qualquer outra coisa que já possa ter visto. Seu toque era macio, sedoso, sua pele já não tinha mais marcas e e parecia feita de cristal, refletindo toda luz. O bom Deus realmente havia colocado todo seu capricho naquela obra prima.

Quando entrei dentro dela pela primeira vez após sua recuperação, não pude conter minhas lágrimas, todo aquele couro e o cheiro de sofisticação me fez querer acelerar forte! Seu coração de 6 cilindros rufava como tambores numa marcha para a guerra! Sua voz era uma música perfeita! Finalmente ela estava viva novamente! Finalmente ela era MINHA! Meu Chevy Opala, a Dama de Branco, meu sonho e minha vida!

Texto de autoria de Felipe “Jim” Rozz.