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Filosofando o Pulp | Sobre o gostar

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O objetivo desta coluna é escrutinar alguns pontos da cultura popular que adentramos, discutimos e vivemos. Alguns tão perceptíveis quanto seria um Olifante a alguns metros de distância, outros sorrateiros e quase intangíveis como um neutrino perpassando seus neurônios sem deixar marca. Almeja-se nunca apontar uma certeza, e se algum sucesso obtiver, será pelo turbilhão causado dentro deste sempre transcendente vórtice cultural...

Filmes, livros, séries, música etc. Entre as diversas discussões que permeiam o mundo da cultura pop e todas as suas mídias, uma talvez seja a maior fonte de discórdia, debate e deliberações.

O que a princípio soa como uma pergunta boba e inocente em uma conversa casual com amigos (e aquele filme, é bom mesmo?), esconde um complexo mecanismo humano de absorção cultural. Afinal, quão subjetiva ou objetiva é a nossa avaliação de uma obra artística? O que aquilo nos diz sobre a nossa personalidade, ou o que para alguns é ainda mais sério: O que aquilo nos diz sobre a nossa intelectualidade?!

O filósofo escocês David Hume (1711-1776), em uma de suas obras mais importantes e conhecidas (Enquiry Concerning Human Understanding) discorre no ensaio Do Padrão do Gosto sobre essa busca mais do que natural do ser humano de tentar compreender e justificar qualitativamente o gosto humano e suas variações. Entre os diversos pontos levantados por ele, um interessante é acerca do sentimento ao experienciarmos uma obra, e do nosso juízo ao tentarmos explaná-la para outros. Basicamente Hume pensava que, antes de qualquer análise mais cuidadosa, a priori temos apenas o sentimento como parâmetro do gosto e, baseado nesse sentimento, prosseguimos com as explicações e o porquê de termos gostado de algo ou não.

Muitas vezes travamos uma verdadeira guerra verborrágica (com amigos ou aqui no Vortex) em acaloradas discussões ao tentarmos fazer a conexão entre o que sentimos (apreciando uma obra artística) e o que racionalizamos sobre ela. Muitas vezes tentando decodificar a si próprio. Achar um sentido para ter tido aquele tipo de reação.

O curioso é que muitas vezes somos incapazes de relacionar estes dois estados. Quantas vezes você não já se pegou dizendo algo como: "Não sei por que exatamente, mas não gostei desse filme". Mesmo após explicações perfeitamente plausíveis sobre a técnica do filme como um todo, sobre a qualidade da direção etc. Mesmo depois de demonstrado em detalhes que você deveria SIM gostar daquele filme, caso tenha um mínimo de bom senso, você não consegue " perceber " isso, sentir isso de fato. Claro que, se apreciássemos uma obra através da razão apenas, bastaria isso para nos convencer, ou seja, uma boa explicação. Felizmente para a longevidade dos debates acalorados aqui no site, isso não é verdade. O mesmo acontece na direção contrária: me refiro ao que chamamos em inglês de guilty pleasure. Quando se gosta de algo que mesmo você consegue perceber que é de extremo mau gosto, ou pelo menos de qualidade duvidosa. Mesmo sabendo de inúmeras razões para que qualquer ser humano inteligente ache aquele filme uma porcaria, você aprecia aquela obra, se diverte com ela e por aí vai...

Listamos os pontos negativos e positivos, detalhes técnicos, padrões encontrados etc. Mas será que é por causa desses pontos que realmente consideramos algo “bom”? Ou estamos apenas justificando um sentimento com opinião já formada?

Os adjetivos observáveis são realmente a causa do que gostamos, ou é o gosto já decidido que nos faz notar algumas qualidades e deixar de enxergar os defeitos daquela obra?

Faça este exercício e tente analisar o que você realmente prioriza na sua avaliação. Garanto que algumas surpresas surgirão em ambas as direções: "análises detalhadas" VS "sentimentos primordiais".

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Texto de autoria de Amilton Brandão.

Amilton Brandão

Curioso consumidor das mais variadas manifestações artísticas e culturais humanas. Guiado pela certeza de que está nesse mundo para absorver, processar e disseminar o que nos eleva para além de nós mesmos.
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