Grandes Duplas Policiais do Cinema

Dentre todos os subgêneros dos filmes policiais e de ação, o buddy cop film – ou dupla de policiais talvez seja o mais cativante. A ideia de colocar dois opostos em uma convivência forçada para que juntos consigam um objetivo comum tem um lugar especial no imaginário dos fãs de cinema.

Por definição, o subgênero consiste em filmes que possuem em suas tramas o envolvimento de dois indivíduos de personalidades extremamente opostas que são forçados a trabalhar juntos para resolver um crime, desbaratar uma quadrilha de criminosos ou ambas as coisas. Durante a trama, os dois acabam aprendendo a conviver um com o outro, vão compreendendo e aceitando suas diferenças até que em um determinado ponto uma amizade surge.

Ao longo dos tempos, vimos vários tipos de duplas forçadas nos filmes. Em alguns, os protagonistas pertencem a culturas totalmente opostas, em outros há um conflito étnico, aqueles onde há uma diferença grande de idade. Porém, existe um ponto comum nesse tipo filme: um parceiro é sempre indomável enquanto o outro é mais comedido. Isso é feito para que o conceito de “bom policial, mau policial” seja explorado durante a trama, mostrando um como boa-praça cumpridor da lei, praticamente um CDF, enquanto o outro é mostrado como alguém que possui uma malandragem de rua, uma sabedoria popular e está sempre disposto a quebrar regras e a lei (ou pelo menos “entortar” a lei).

Existem outros plots do subgênero que também são utilizados, como o policial novato que vai trabalhar com um veterano, o tira que vai pra um lugar que não lhe é familiar – pode ser  outro país ou uma cidade muito diferente de onde reside – e aquele que é tirado de sua função normal para exercer outra (policial de função burocrática que vai pra rua). Em todos esses casos, há um parceiro que vai guiá-lo nessa nova jornada.

Após esse breve explanação sobre o gênero, vamos a nossa lista de grandes parcerias. Lembrando que, se você tem alguma sugestão, se você concorda ou discorda com a lista, comente abaixo na nossa sessão de comentários.

 

Martin Riggs e Roger Murtaugh, de Máquina Mortífera (Richard Donner, 1987)

Roteirizado por Shane Black e dirigido por Richard Donner este talvez seja o mais lembrado de todos. “Máquina Mortífera” conta a história de um pacato policial veterano próximo da aposentadoria que é colocado pra trabalhar com seu extremo oposto: um ex-veterano do Vietnã com tendências suicidas atormentado pela morte da esposa. É interessante como a tensão da relação entre os personagens de Mel Gibson e Danny Glover vai se transformando em uma relação fraternal ao longo do filme e em certos momentos chega até a assumir um caráter simbiótico. Foram feitas três sequências, mas somente a segunda parte manteve o padrão de excelência estabelecido por esta película.

Ouça nosso podcast sobre a série Máquina Mortífera.

Virgil Tibbs e Bill Gillespie, de No Calor da Noite (Norman Jewison, 1967)

Considerado por muitos o protótipo do gênero (ainda que O Cão Raivoso dirigido por Akira Kurosawa tenha vindo 18 anos antes), o clássico No Calor da Noite opunha um policial negro vivido por Sidney Poitier e um xerife preconceituoso vivido por Rod Steiger na investigação do assassinato de um bem sucedido empresário. Passado no sul dos EUA, mais precisamente no estado do Mississippi, o filme oferece uma visão crua da tensão racial e do preconceito que permeava a região durante a época. Dirigido por Norman Jewison, o filme venceu os Oscars de melhor filme, melhor ator (Rod Steiger), melhor roteiro adaptado (Stirling Siliphant), melhor edição e melhor som.

Jack Cates e Reggie Hammond, de 48 Horas (Walter Hill, 1982)

Filme que catapultou Eddie Murphy para o sucesso, 48 Horas tem uma abordagem diferente: o turrão policial vivido por Nick Nolte se vê obrigado a trabalhar com o vigarista vivido por Murphy para que juntos desbaratem uma quadrilha que é responsável pela morte de vários policiais. Com uma direção inspirada do veterano Walter Hill, o filme possui diálogos sensacionais que arrancam boas gargalhadas. A química entre Nolte e Murphy é  palpável e os dois parecem se divertir o tempo todo que estão em cena.

Nicholas Angel e Danny Butterman, de Chumbo Grosso (Edgar Wright, 2007)

Parte integrante da “Trilogia dos Três Sabores de Cornetto” junto com Todo Mundo Quase Morto e Heróis de Ressaca, esta sensacional comédia dirigida por Edgar Wright e estrelada pela dupla Simon Pegg e Nick Frost brinca com todos os clichês dos filmes policiais e de ação. Aqui, Pegg vive um policial de Londres que é tão bom no trabalho, que acaba fazendo a corporação parecer incompetente. Devido a isso, acaba sendo transferido pra uma cidadezinha do interior. Chegando lá, ele descobre que a cidade tem segredos sinistros. O diretor Wright pega todos os clichês do gênero “buddy cop”, subverte e os empilha de forma genial na tela. De diálogos cheios de frases de efeito, sequências de montagem e cenas absurdas, nada passa incólume por essa homenagem satírica.

David Mills e William Sommerset, de Se7en: Os Sete Crimes Capitais (David Fincher, 1995)

Nesse que é um dos melhores filmes de suspense da história do cinema, Brad Pitt vive David Mills, um idealista policial que sai do interior para ir trabalhar na cidade grande. Mills acaba se tornando parceiro de William Sommerset (Morgan Freeman), um já desiludido detetive que está na sua última semana de trabalho, na investigação de crimes horrendos. O amargor e desesperança do personagem de Freeman contrastam fortemente com a inquietação e a vontade de fazer a diferença do personagem de Pitt, mas ao invés de um embate de personalidades, Sommerset acaba se tornando uma espécie de guia de Mills numa viagem pelo lado negro da humanidade.

Ed Exley e Bud White, de Los Angeles: Cidade Proibida (Curtis Hanson, 1997)

Um almofadinha que deseja ter uma carreira tão brilhante quanto a de seu pai, nem que pra isso precise passar por cima dos seus colegas. Um policial conhecido por seu temperamento extremamente explosivo e que opera de forma quase marginal. Um representa exatamente o que o outro despreza, e Guy Pearce e Russell Crowe atuam brilhantemente nesse thriller neo-noir. Interessante observar como a convivência forçada vai os tornando próximos não só em termos de amizade, mas em termos de comportamento. Outro ponto interessante é que a dupla de protagonistas é orbitada por Jack Vincennes (Kevin Spacey), um policial malandro e bem relacionado, mas que apesar de sacana, acaba recuperando seu senso ético graças à Exley e White.

Jackson Healy e Holland March, de Dois Caras Legais (Shane Black, 2016)

Escrito e dirigido por Shane Black, o criador de Máquina Mortífera, o filme estrelado por Ryan Gosling e Russell Crowe é passado na década de 70 e coloca um detetive particular vigarista e um truculento colega de profissão em uma trama rocambolesca que envolvem festas nababescas, o submundo da indústria pornô, altos cargos do judiciário americano e o underground de Los Angeles. O filme se utiliza demais de metalinguagem e de subtextos pra se sustentar, o que não é necessariamente uma coisa ruim. Na verdade, deixa o filme ainda mais interessante de ser assistido.

Ray Tango e Gabriel Cash, de Tango & Cash: Os Vingadores (Andrei Konchalovsky, 1989)

Imagine colocar dois dos maiores astros do cinema dos anos 80 para atuarem juntos. Foi o que fizeram em Tango & Cash. Sylvester Stallone e Kurt Russell vivem os policiais (e rivais) Ray Tango e Gabriel Cash, os dois astros da polícia de Los Angeles. Enquanto Tango é um CDF no trabalho, Cash é o malandrão que trabalha na margem da lei. Quando um mafioso arma para que os dois sejam presos, a dupla se une para escapar da cadeia e provar a inocência. Dirigido por Andrei Konchalovsky, o filme tem boas cenas de ação, mas se apoia muito no humor, com destaque para a cena que Kurt Russell se veste de mulher para escapar da polícia e nos divertidos diálogos ofensivos entre a dupla de protagonistas.

Ivan Danko e Art Ridzik, de Inferno Vermelho (Walter Hill, 1988)

O slogan desse filme é: “O policial mais durão de Moscou. O policial mais maluco de Chicago. Só existe uma coisa mais perigosa que deixá-los com raiva: torna-los parceiros”. O contraste entre Arnold Schwarzenegger e James Belushi é o que faz esse filme divertido. Não só o contraste físico, mas a postura oposta dos dois policiais. As tentativas de diálogo de Belushi com o impávido colosso vivido por Arnold são hilárias. Porém, Arnold rouba a cena ao exercitar sua verve cômica no papel de Ivan Danko. A coleção de tiradas pró-Rússia que ele desfila no filme sem nem ao menos alterar sua expressão facial é sensacional. Talvez seja o primeiro caso de uma limitação dramatúrgica sendo utilizada em favor de um ator.

Alonzo Harris e Jake Hoyt, de Dia de Treinamento (Antoine Fuqua, 2001)

O que acontece quando um idealista policial novato é colocado pra trabalhar com um corrupto policial veterano? Dia de Treinamento narra o que acontece quando os dois tipos colidem. Denzel Washington e Ethan Hawke dão um verdadeiro show neste atmosférico conto moral escrito por David Ayer (Esquadrão Suicida) e dirigido por Antoine Fuqua (O Protetor). A jornada tensa do primeiro dia de trabalho do personagem de Hawke começa com um diálogo nervoso com o personagem de Denzel e termina com um confronto de sérias consequências pra ambos os protagonistas. O filme rendeu o Oscar de melhor ator para Washington e de melhor ator coadjuvante para Hawke.

Allen Gamble e Terry Hoitz, de Os Outros Caras (Adam McKay, 2010)

Nessa película dirigida por Adam McKay (A Grande Aposta), Mark Wahlberg e Will Ferrell vivem dois policiais que são a piada do departamento. Enquanto o primeiro é um bailarino frustrado cheio de testosterona (ele é um “pavão que quer voar”), o segundo é uma espécie de secretário responsável pela parte financeira do departamento. Quando os dois melhores oficiais da cidade de Nova York – vividos por The Rock e Samuel L. Jackson – morrem de forma absurda, o personagem de Wahlberg resolve que vai tomar o lugar deles e carrega o personagem de Ferrell junto. Os dois protagonistas tem histórias de vida bem bizarras e que provocam sofrimento a eles quando lembradas e o diretor McKay torna isso como o grande momento cômico do filme. O duelo das personagens opostas dos dois também é filmado de forma hilariante.

Brian Taylor e Mike Zavala, de Marcados para Morrer (David Ayer, 2012)

Dirigido e roteirizado por David Ayer, Marcados para Morrer oferece uma abordagem um tanto quanto diferente. O filme faz uso de câmeras de mão para narrar de forma mais “pé no chão” o cotidiano de dois parceiros da polícia de Los Angeles. Jake Gylenhaal e Michael Peña vivem dois parceiros de longa data que tem suas rotinas completamente alteradas após uma apreensão de drogas de um traficante local. O diretor mostra como o fato reflete na rotina de trabalho dos oficiais e as implicações da tensão crescente nas suas vidas pessoais.

Menções honrosas: Os Bad Boys, Anjos da Lei, A Hora do Rush, As Bem Armadas, Dois Policiais em Apuros, Miami Vice, O Guarda, Beijos e Tiros, O Último Boy Scout: Jogo de Vingança, Viver e Morrer em Los Angeles, As Cores da Violência, Tiras em Apuros, Showtime, Rookie: Um Profissional em Perigo, Divisão de Homicídios, Dose Dupla, Um Tira da Pesada, Chuva Negra, etc.

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