O Cinema e o Trabalhador

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Imagine este cenário: trabalhadores suados, com sede (sem direito a beber água, para não prejudicarem a produção), num ambiente totalmente fechado, cuja temperatura de 29°C se junta à umidade que impregna o ar.

Embora essa cena tenha sido exibida em algumas obras da sétima arte, ela também fez parte de várias realidades, como por exemplo no século XVIII, em Manchester, Inglaterra, numa fábrica de algodão. Se no cinema ela dura alguns minutos, no cotidiano desses trabalhadores ela se estendia por 14 horas (às vezes 17), dias, meses e anos seguidos, sem férias, 13º ou qualquer outro direito trabalhista conquistado posteriormente.

Charles Chaplin, com toda a sua sensibilidade e genialidade, nos aponta a falta de respeito pelo ser humano, e o abuso do patrão sobre o trabalhador, em 1936 com Tempos Modernos. Retratando os primeiros tempos da industrialização e do capitalismo, mostrando-nos as condições sub-humanas a que o “proletariado” era submetido, através do personagem Carlitos, em cenas como a da esteira rolante (cuja velocidade é frequentemente aumentada, a partir das ordens do presidente da fábrica, que se comunica por um telão).

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Na cena onde o protagonista parece ser “engolido” pela engrenagem, faz-se uma alusão à despersonalização do individuo, assim como naquela em que ele testa uma máquina para alimentar o trabalhador, evitando assim, que este perca tempo se alimentando, já que o propósito era efetivar e maximizar o lucro, produzir mais em menos tempo e pelo menor custo.

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Uma imagem que não poderia passar desapercebida é quando o ingênuo Carlitos pega uma bandeira sinalizadora que cai acidentalmente de um caminhão e, ao tentar chamar atenção do motorista,  é confundido com o líder de uma passeata e levado pelos policiais. Chaplin nos conta sobre a consciência das condições precárias impostas ao empregados, sua vontade de mudar isso, e a repressão que as autoridades exerciam.

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Foi uma manifestação, em Chicago (Estados Unidos), em 1886, na luta por mais salários e a redução da jornada de trabalho, que originou o feriado comemorado no 1° de maio. Além de ser um destacado pólo industrial, esta cidade figurava no cenário mundial como um dos maiores centros sindicais. No primeiro dia do mês de maio, na penúltima década do século XIX, milhares de pessoas foram à ruas manifestar seu descontentamento, iniciando-se também, nos EUA, uma greve geral. Nos dias que se seguiram imediatamente, estabeleceu-se um clima de violência, ferindo dezenas de pessoas e matando algumas. Mas o ato que marcou definitivamente esta data, foi a prisão de 8 líderes, sentenciados ao enforcamento.

No entanto, nem todo o trabalhador se propõe a lutar, de imediato, pelos direitos da sua classe. Alguns porque se acomodam, construindo um imaginário de que é essa a sua condição da sociedade. Outros porque o próprio sistema capitalista, de consumo, acaba colocando-os num impasse ideológico.

É este impasse, o grau de precariedade das condições de trabalho (considerando esta força como mercadoria) e todas as relações de produção num universo capitalista, que o diretor Elio Petri tenta explicar em A Classe Operária Vai ao Paraíso (1971).

Este filme italiano tem como protagonista Lulu (Gian Maria Volonté), um operário-padrão aplaudido pelos superiores e hostilizado pelos colegas de trabalho, que o identificam como alienado, entregue ao sistema. Até que Lulu Massa perde um dedo numa máquina, e começa a despertar para a exploração que lhes é imposta, começando uma luta interna de ideais.

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Movimentos grevistas e repressão aos mesmos, também são questões abordadas em Germinal (1993) de Claude Berri, baseado no romance homônimo de Emile Zola (1881).

Nenhuma palavra me pareceu tão justa quanto “abordadas”, porque os temas citados acima são tratados, por incrível que pareça, de uma forma mais superficial, dando ênfase realmente à diferença entre a burguesia e os trabalhadores, sendo que os primeiros vivem emersos em sua alienação, futilidades e opulente suntuosidade, como é mostrado na maioria das cenas que os retrata, em volta de uma mesa mais do que generosa. Já os segundos, vivem em condições, para as quais a palavra “miseráveis” ainda seria atenuante, chegando a oferecer sexo em troca de comida, e permanecendo numa situação sem qualquer individualidade, sem qualquer traço de personificação, num núcleo familiar descaraterizado, onde funcionam como meros fatores de contabilidade.

Despida de qualquer ideologia pré-concebida, a sua luta é pela sobrevivência, a sua revolta é motivada pelo princípio da ação/reação (à exploração), e o próprio conceito de justiça acaba sendo deteriorado pela força das necessidades básicas, como nos mostra a cena em que o personagem de Gerard Depardieu (Toussaint) come a sopa que deveria ser o alimento do seu filho.

A trama gira em torno de uma família de mineiros, cujo chefe, Toussaint, estimulado e em parceria com um operário recém chegado, Étienne (Renaud) com experiência em revoltas e contestações, resolve criar um “fundo de resistência”, como plano para a uma condição de sobrevivência, e todo este processo acaba levando a maiores tensões. Apesar de o próprio título, germinal, referir-se ao desenvolvimento da gestação e maturação dos movimentos grevistas desse período, e de haver algumas pinceladas dos discursos de Marx e Engels, esta obra aprofunda-se efetivamente é nas relações humanas, e nos mecanismos que condicionam e provocam comportamentos. Há na obra uma evidente intenção em mostrar os contrates, o que é favorecido também pela brilhante fotografia de Yves Angelo (quando contrapõe a luz dos aposentos burgueses ao opaco sombrio das minas e “casas” dos trabalhadores).

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Mas se você, prefere não mergulhar em ideologias declaradas ou supostas e, em vez disso, deixar-se emocionar em alguns momentos, e entregar-se a reflexões sobre superação e ética, em outros, num contexto mais atual, aqui vão duas sugestões que também englobam a luta no mercado de trabalho, e os malabarismos necessários às adaptações, internas e externas, que este nos exige.

“Há coisas que acontecem na vida e há coisas que você faz acontecer. É a diferença entre ter um plano e não ter.”

Esta é uma das premissas que norteou Chris Gardner, um homem que viu afundar um negócio onde investira todo o seu dinheiro, afundou-se em dívidas, foi abandonado pela esposa, dormiu por algum tempo em banheiros públicos e abrigos para moradores de rua, e teve que cuidar sozinho de seu filho de cinco anos. Mas Chris é obstinado, e torna-se dono de uma grande corretora e, consequentemente de milhões de dólares.

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A história real foi registrado num livro e, posteriormente, transformada em filme, sob a direção de Gabriele Muccino e a brilhante atuação de Will Smith, contracenando com seu próprio filho, Jaden Smith. À Procura da Felicidade (2006), apesar de trazer alguns pontos dramatizados ou açucarados pelo roteirista Steven Conrad, não deixa de emocionar e encorajar alguns daqueles que não conseguem ver um luz no final do túnel.

Mas sejamos realistas! Claro que persistência e foco são essenciais, no entanto, não há tantos Chris por aí! Sabemos da crise de desemprego numa escala global. Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, sempre atentos para os temas em pauta, sabem disso, e os trazem esta questão, com o roteiro e a direção de Dois Dias, Uma Noite (2014).

A história passa-se na Bélgica, e tudo se inicia quando Sandra (Marion Cotillard) é despertada pelo som do celular. A cena é praticamente um monólogo, pois não se ouve quem está do outro lado da linha, mas a forma como Marion se expressa diante da câmera, satisfaz plenamente a intensão dos diretores em seu enfoque psicológico.

Quando se preparava para retornar ao trabalho, após um afastamento ocasionado por uma depressão, que parece superada, Sandra fica sabendo que seus colegas haviam aceitado a proposta da empresa em substituir a sua vaga por um bônus de mil dólares. Diante disso, ela tem apenas o fim de semana para fazê-los mudar de ideia, e começa uma maratona de visitas a cada um. Aqui, os irmãos Dardenne discutem a questão social.

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As relações humanas são abordadas fora do núcleo familiar, embora a família seja usada como pretexto para a priorização do bônus, por parte dos outros funcionários. Este dilema sustenta o teor moral e ético da trama, e os conflitos externos, desencadeados pela fragilidade do mercado de trabalho, e pelo peso do seu retorno monetário, tornam-se reveladores de conflitos internos vividos pelos personagens.

O tema central destes filmes é o trabalho… Será? Essas histórias (e todos os recursos cinematográficos que atuam como agentes simbólicos) nos levam a uma reflexão sobre algo que exige a busca pelo equilíbrio entre a razão e a emoção: as relações humanas, culturais e sociais!

Texto de autoria de Cristina Ribeiro.

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