A Psicanálise Novamente Parte VII – Os Cinco Impérios

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Magno começa a palestra dizendo que em termos de referências ao gozo, poderia-se supor a existência de quatro posições sexuais. Fazendo a crítica da sexuação segundo Lacan, Magno reapresenta o sexo que faz referência ao Gozo Absoluto, que seria o Sexo da Morte, se ele houvesse, chamado Sexo Desistente. Este sexo simplesmente não comparece jamais. O que comparece é o Sexo Resistente. Se existe Tesão, pode ser negado, mas não inteiramente.

O Sexo  Consistente, também alcunhado de PLEXO, faz um fechamento por ter uma referência externa – a castração operada pelo pai, no sentido freudolacaniano – que faz a lógica da consistência. É na verdade, o que pode se chamar de Homo-Sexo, ou seja, a estrutura do que se chama homossexualidade – ou homoafetividade, de acordo com as novas normas do politicamente correto. Para Freud e Lacan, a vocação dos homens, enquanto referentes ao Sexo Consistente, é nitidamente homossexual. Não que seja o sexo masculino, mas no sentido deles é homossexual porque não considera nenhum outro sexo. Como as mulheres, também para eles, são apenas um homem que não têm pênis, o estado que predomina é o de homossexualidade aberta. Este sexo constitui a visão Clássica de mundo. O idealismo classicista que propões algo que lhe é externo, que se organiza como fechamento, concentração, verticalidade, é a ideia formada da consistência. Na medida em que a consistência só aparece porque há algo externo – o-pelo-menos-um que faz barreira ao e nega o destino do Tesão, para criar a consistência – esta é a lógica da Transcendência. Lacan mergulhado no sintoma da cultura, chamou este sexo de masculino. Isto porque, desde o Neolítico, o mundo gira em torno da dominação masculina, que é essa coisa de homossexual, transcendentalista, classicista (em todos os sentidos, sobretudo o da exclusão fundadora de classes).

O Sexo Inconsistente, na cabeça de Lacan, é o Outro Sexo, que ele chama de feminino, e que Magno alcunha de Sexo Inconsistente. Este faz NEXO, e não plexo, ou puramente sexo, e também não é fora, vai de ligação em ligação, vai se ligando no que funciona.

Magno, mais a frente, fala da relação do aparelho teórico com a Cultura. As modalidades de gozo na maneira de existir é chamado por ele de cultura. Os objetos nada têm a ver com isto: cada um se esfrega naquele que achar mais interessante – o que é a da ordem das fixações, frequentemente estéticas, que não tem ligação direta com essa estrutura lógica. Quanto a relação deste teorema com a cultura, a qual faz história, tem sucessivos arranjos, dependerá do entendimento a respeito do Primário, com suas formações autossomáticas e etossomáticas; e sobre o Secundário, como a estrutura do simbolizante e do simbolizado, de organização branda (soft) das transposições artificiosas; e sobre o Originário, como o aparelho de reviramento, de Revirão, que é a estrutura humana específica, própria da espécie.

Entretanto, se esta espécie se movimenta, a suposição é de que a constituição macromórfica inicial do homem seja o Primário, o qual é a base e a massa que recalca profunda e extensivamente a possibilidade de reviramento, isto é, o Originário, o qual, embora seja de surgimento mais recente, é que qualifica realmente quem “somos nós”. Não que este nós refira-se diretamente a espécie homem, e sim espécie Idioformação; Em qualquer parte do universo, mesmo que a formação encontrada não seja biótica, se há espécies capazes desse mesmo movimento mental que é o “nosso”, é destes que o homem tem parentesco, mediante o comum Originário.

O périplo da humanidade, através do que se entende por história, passaria segundo MD Magno por Cinco Impérios sucessivos. O psicanalista toma emprestado de Fernando Pessoa e outros autores essa ideia antiga sobre os Cinco Impérios da humanidade.

O primeiro, chama-se de Império d’AMÃE, pois a suposição é de que, numa fase muito primitiva, o mais provável é imaginar que a referência de Eu era o corpo da mãe, a presença da mãe, a instância materna dentro do grupo social. Como naquela coisa primária, simples e pobre não havia instituição para dizer que é uma criança, uma possibilidade bastante fácil de se comprovar, marcar, localizar de uma pessoa é por seu nascimento, pois o filho é da mãe. Até segunda ordem, não há ser humano nenhum que não tenha saído do ventre de uma fêmea. O conceito de mãe existe em praticamente todas as civilizações catalogadas e é fácil se comprovar isso, porque o acompanhamento do crescimento da barriga durante a gravidez é visível. As dores do parto testificavam a origem do filhote, que saía de dentro da mulher, e esse testemunho ajudou a elevar o símbolo, tornando a mãe uma referência de eudade básica. No entanto, para Magno, o conceito de matriarcado associado a esta época é infundado e inexistente, graças a difícil posição que a mulher ocupava nestes grupos sociais – as meninas mal menstruavam e já engravidavam, e provavelmente amarravam uma gestação atrás da outra até as suas mortes, que também ocorriam muito cedo. Até era possível realizar alguns trabalhos, mas certamente não travar guerras com o outro gênero, que sempre estava livre para executar suas badernas – que piorava com a vocação homossexual de patota, já presente no comportamento “masculino”, excludente por si só das fêmeas. A referência deste império é o filho da mãe – o Filho desta mãe.

Outro tipo de referência, segundo os estudos realizados pelos historiadores, levaria alguns milênios, costumeiramente chamado de Neolítico, com o término da prática de nomadismo, faz-se um assentamento sobre um terreno que se divide em partes apropriáveis, começa-se a plantar, ao invés de simplesmente colher, criam-se animais, ao invés de simplesmente caçar, desenvolvendo-se então, a agricultura e a pecuária. Inventa-se o Pai, e o Segundo Império chama-se d’OPAI, que se situa entre o Primário e o Secundário. O pai é apenas reconhecível mediante expedientes de limitação, pois como se iria saber, uma vez que a coisa corria solta, sem ninguém talvez fazer ideia precisa de que fosse consequência da transa sexual nascerem os bebês? Mesmo porque eles eram inteligentes ao pensar assim. Para estabelecerem uma precisa correlação, seria preciso que a cada vez que se copulasse nascesse um bebe, o que efetivamente não era o caso. Foi talvez organizando os animais em grupos que notou-se que era da relação sexual que se originava a descendência – descobre-se daí o Pai do Filho da Mãe, e este é o nome científico do pai do Pimpolho. É notório que a invenção do Pai é datada e portanto não é universal. O conceito do Pai fica entre o Primário e o Secundário graças a falta de prova de quem é realmente o pai, portanto a nomeação da paternidade é simbólica, tomando como verdade que a fêmea teve um único parceiro macho reconhecível. A preocupação da veracidade disso também é legítima, visto que o complexo de corno é muito comum, graças até ao passado homossexual do homem, e de sua descrença natural.

Para Magno, a invenção do Terceiro Império foi por si só um passo genial, denominado como Império d’OFILHO. Uma vez que aqueles que vivem no Segundo Império reconhecem a paternidade e têm como referência essa paternidade, eles se dão conta de que, por mais que seja organizada no sentido de coibir a copulação de tal fêmea com outros machos, essa paternidade é de índole secundária, ou seja, enquanto a paternidade não tem outra garantia a não ser a materna. O conceito do Deus Pai torna-se cada vez mais abstrato com o passar das eras, o pai dos povos perde em poder e notoriedade, como Nietzche previra. Por que essa figura seria nomeada pelas aparências do Primário? Mediante ao longo processo de criação e revolução, inventa-se o Terceiro Império, com um Pai que tem agora referência estritamente simbólica. Na cultura ainda restam Pais de Segundo Império, com as Mães correspondentes, pois estas são entidades renitentes: uma vez aparecidas é modalmente impossível eliminar e sobram como sintomas em repetição. A revolução de Jesus Cristo é um exemplo do que pode acontecer em quantos lugares, do mesmo modo, mesmo se com diferenças relativas. A diferença do Cristianismo face ao Judaísmo, nessa época, nesse âmbito – e só nesse, pois os Romanos há muito já sabiam que a coisa aí é de nível puramente simbólico, que a filiação se dá por pura adoção. É Jesus, tendo a ideia genial de dizer que não se deve apedrejar nenhuma adúltera, pois todos têm pecado, e com a intenção de eliminar qualquer necessidade de prova de paternidade biológica, uma que decreta que a verdadeira paternidade é a do Pai que está no Céu. Sua morte com trinta e poucos anos – um menino ainda – e o enfrentamento à igreja judaica constituem em si atitudes pretensiosas, movidas pela máxima de que o Deus acima dos céus é o Pai de todos, mesmo do filho da adúltera, o adultério ganha contornos de abstração e se torna absolutamente simbólico – Revolução. O físico perde valor, a referência de adoração é celestial, e as ideias propagadas são as de fraternidade universal, democracia e direitos do homem. O fato da revolução d’OFILHO ter ocorrido, não aboliu ou sepultou os Impérios anteriores, que continuam a existir (até hoje), regionalmente recalcitantes, o que mudou é a ideia de referência a si próprio, a referência do Eu, pois agora, todos os homens são irmãos, filhos do Deus. Mesmo que grande parte do Terceiro Império ainda continue regida pelos outros impérios, agora, neste momento, há um avanço com grande acúmulo de processamentos, invenções tecnológicas, de acelerações comunicacionais, de críticas de pensamento – lembrando que os relatos de Magno datam de 1999 – atualizando o tema, há muito mais margem para a discussão do que antes o que separa os seres entre si, tanto os aderentes do Terceiro Império, adeptos de um novo (já velho) modo de pensar, e aqueles que permanecem no estilo de vida arcaico típicos do Primeiro e Segundo Império.

Emerge, ao longe, um Quarto Império, situado entre o Secundário e o Originário, e pouco há para se falar quanto ao homem saber lidar com este. Magno o chama de Império d’OESPÍRITO porque para ele, não mais é preciso entronizar nenhum Pai, mesmo que more no céu como um Deus figurativo e conteudizado, regulado por uma religião de preceitos fixados. O homem está desvairado, e isso graças a referências de Segundo e Terceiro Impérios, que já se esgotarão até lá. O momento que entra é de aceleração em que a própria ideia de reprodução está se desvinculando do ato sexual. Será preciso cada vez menos de sexo, no sentido copulatório, para se reproduzir a espécie. A clonagem ainda é algo temível pelas pessoas, mesmo que nela não haja mal algum, talvez ainda por medo da figura repressora e castigadora do Papai do Céu, mas para Magno, eles estão se perdendo em abstração e em poder. O importante é notar que a sexualidade gradativamente é desassociada da reprodução, a instituição sagrada da cópula cai aos poucos, assim como a paternidade e todas as identificações – justo quando o DNA pode (ou não) comprovar a paternidade de alguém. O que Magno chama de OESPÍRITO é a articulação do campo do Secundário, que está cada vez mais desembaraçada, mais leve, mais rápida, mais disponível para o que vier. Dada esta situação não dá mais para voltar, só mesmo se vier algum ingovernável cataclismo – que a Bíblia chama de Apocalipse, mais aí é outra história. A Bomba Atômica estava desmoralizada em 1999, e hoje é substituída por mísseis mais avançados, mas ainda assim inertes, vide o discurso norte-coreano. O medo de pensar adiante faz a humanidade desejar que algo dê fim a ela, imagina-se mil formas do mundo acabar, meteoros, profecias maias… Isso tudo é símbolo do Quarto Império, o medo de mudar, o medo da consumação da dissolução da família como instituição. A decadência cada vez evidente da célula familiar assusta as viúvas do Terceiro e Segundo Império, mas nem por isso deixa de se extinguir, muito por causa da figura chamada amor. O conceito do amor muda mais uma vez, e desassocia da ideia infantil de posse, mantém o nome e muda a significação. Atualmente, o amor é ainda é uma postura masculina em essência e portanto homossexualizante, no sentido de dominação de um sexo só. As mulheres (homens castrados, homens sem seus brinquedos) não têm verdadeiro reconhecimento social. Homossexual no caso nada tem a ver com a transa (coito) entre pessoas do mesmo sexo. No Quarto substitui-se o amor pela consideração, não só do outro como outro, mas do outro como o mesmo (o maior mandamento de Jesus, supostamente), como alguém com quem o homem se relaciona independente do amor ou do ódio, mas por reconhecimento das vinculações tecidas a partir de um Vínculo Absoluto.

Andando mais a frente, talvez se alcance algo impensável de tão distante para “nós”, um Quinto Império, a passagem, o intervalo, o interregno do Secundário para o Originário é o que acontece no Quarto Império como referência. Seria o Império do AMÉM: o que der e vier está bom, ou melhor, não é bom nem mau, tudo é aceitável, tudo bendito. Seria o momento do Valetudo, da extrapolação do TudoAoMesmoTempoAgora, o tempo da saúde. É O Império da Saúde, porque não tem mais como distinguir o que é ou não a saúde na mente. Tudo é absolutamente aceitável, acolhível. O índice de loucura no sentido nosológico deverá descer muito, porque é o homem que fabrica os loucos com as exclusões que ele faz. Se essas loucuras forem aceitas, o conceito de loucura se inverte e os adeptos dela passam a ser os novos normais. O Quinto Império seria aquele em que pode-se conjecturar tudo a partir de cada um, tendo como referência sua própria estrutura de reviramento, mas tudo isso ainda está muito distante, visto que a humanidade mal esta tentando entrar no Quarto Império, tentando sair do empacotamento egóico do racismo, do sexismo, do machismo e falicismo, estupidismo e dessa logomania de todo mundo de achar que é mesmo alguma coisa. Para Magno, essa gente toda morrerá disso mesmo em breve. As pieguices de auto-conhecimento, família e afins logo vão para o brejo, é inexorável.