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A Psicanálise Novamente Parte VIII - Agonística das Formações

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Magno começa a última palestra afirmando que a psicanálise nasceu mal, foi malparida. Contudo, apesar disto, conseguiu algumas coisas bem importantes. Sua história caseira do início foi tão vigorosa e caiu de tal maneira no esgoto do folclore mundial, que hoje atrapalha demais a sustentação da reflexão. A ignorância crassa da época – em matérias que hoje já começam a ser fartamente disseminadas, sobretudo no campo da neurologia – fez com que Freud praticasse erros grotescos. Daí por diante, numa espécie de cabala psicanalítica, ficam sendo repetidos velhos textos, sem se retirar deles apenas aquilo que, como nata, sobrasse na superfície do seu processamento através dos tempos. Repetem-se meras casuísticas que, fora de caso, só de demonstram sem pé nem cabeça. São casos fracassados e frequentemente nada exemplares que se repetem e se repetem, permitindo que o pessoal da neurologia, por exemplo, erroneamente é claro, mas não sem alguma chance de acerto quanto a pretensa reaplicação, acuse Freud (se não de charlatão, pelo menos) de certa condescendência para alguns tipos de charlatanismo. Hoje já sabe-se que, em sua maioria e na maior parte de sua fenomenologia, casos chamados de histeria, por exemplo, na verdade não passavam de lesões cerebrais, algumas epilepsias, etc., o que constitui um dos defeitos mais graves da história da psicanálise, desde Freud, passando por muitos e chegando a Lacan, é a tentativa desesperada de constituir para ela em campo que possa ser reconhecido como científico. Tentativa sempre frustre, sempre atofalhada – que a deixa afinal com certo sabor (nem mesmo de ciência humana) de seita religiosa. Esta é uma crítica que se faz muito pouco e acaba-se endossando e engrossando o cordão eclesiástico e de clero das chamadas instituições psicanalíticas.

Magno considerava Lacan um pensamento terminal. Ele não abre um novo ciclo, ele fecha primeiro, embora tanto quanto Freud, deixe muitas indicações para um novo salto para frente. Continua-se insistindo num referencial mítico, se não mitológico, em formas de repressivas de determinação de comportamentos e, portanto, resultando em ser um discurso normativo, o que nada tem a ver com os desígnios da psicanálise.

A indagação levantada na palestra é relativa aos operadores do aparelho psicanalítico, os psicanalistas. A questão passa por onde esses novos terapeutas, ou como Magno gosta de chamar os psiconomistas (assim como ele chamava a psicanálise de Psiconomia ou Economia Pulsional). A tendência é que cada vez mais a sociedade precise mais e mais desses terapeutas, e dessa Psiconomia para poder sustentar o movimento na situação caótica e para as novas formulações que irão chegar em breve. Este novos terapeutas são os operadores da NOVAmente. Lacan havia inibido falar-se em terapia, pois a psicanálise, para ele, não era nem uma terapia nem uma psicologia, embora Freud tenha a chamado de Metapsicologia. A posição de Magno é de ressaltar o posto de analistas que virão dos Novos Terapeutas porque acha que se trata mesmo de conversão, não necessariamente no sentido religioso de conversão de uma fé para outra, mas no de operação permanente a se fazer, uma verdadeira conversão das formações. Houve um tempo em que a psicanálise se achava sabidinha porque começou a mostrar, mesmo em denúncias Das Unbehagen in der Kultur, o Mal-estar na Cultura, de Freud. Atualmente nota-se um mal-estar no Haver, em que homem busca fugir, já que o incomoda e o alcança em quase todas as formações: posições culturais, estéticas, políticas, étnicas, e tudo vira motivo para qualquer guerra.

Às vezes, se sentindo muito mal, porque o sintoma é deles também. Em seu livro A Dominação Masculina, Pierre Bordieu com muita perspicácia, mostra como o lado masculino da cultura se apoderou das forças, constituiu poderes que massacram o feminino, etc. Não há mais condição, em termos de futuro, para se repetir assim: o poder cai na cabeça de qualquer um e de todos. Resta saber que poder, quando e como. O homem se dá conta de que é ele mesmo que detém o poder, e ele é massacrado por este poder, o desígnio sintomático que lhe coube o diminui.

Diante do quadro que Magno apresenta, todas as reivindicações sintomáticas da cultura são igualmente válidas, dado que podem ser referidas à hiperdeterminação. A ideia das chamadas “minorias” está à beira da morte. Minorias ou maiorias não se definem mais quantitativamente. Minoria não é um conceito quantitativo, é um conceito exclusivo. A virulência das suas próprias formações, associada à ruína das fundamentações, está obrigando que elas sejam tomadas como de valor equivalente a quaisquer outras no confronto entre as formações. A virulência corre sozinha pelos meios eletrônicos e pelas redes em geral.

O analista afirma também que os mais jovens não precisam se apavorar, só precisam trocar de cabeça o mais depressa possível, e perder a impressão de que seu mundo caiu, pois isso não aconteceu, apenas está com novíssimas configurações. Aqueles antigos ideais já não servem mais, é preciso partir para novas imaginações. A visualização da questão de hoje tem que ser completamente outra. Basta começar o engajamento nos problemas que estão efetivamente acuando o sujeito, e verá-se que a questão política do momento e que essa postura nova a ser tomada é a formação da cura para o futuro. As novas gerações de terapeutas já foram convocadas para o trabalho contemporâneo e urgente de plena disponibilização. Assim é o novo século, o Segundo Século da Era Freudiana.

PS.: MD Magno desenvolveu ininterruptamente seu Seminário de psicanálise desde 1976, ano seguinte à fundação oficial do Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, até 1998. Suas atividades teórico-clínicas continuam nas Oficinas Clínicas e no Falatório do NOVAmente.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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