Quentin Tarantino | Acima do Público e da Crítica

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Vivemos num tempo que todos podem ser artistas, com a tecnologia a favor das nossas ideias mais ambiciosas. Mesmo assim, de todos os cineastas em atividade, nenhum consegue conciliar a aprovação de crítica e público de forma tão positiva quanto Quentin Tarantino; o forasteiro na terra dos gigantes, sobre seus ombros para nos fazer ver além.

“-You and I have unfinished business…”

Alguns são mais público, tipo Zack Snyder de 300, ou Peter Jackson com suas aventuras épicas e tão infantis, quanto, enquanto outros promovem essa dicotomia de gostos levando em conta o que o artista precisa mostrar, e não o que a plateia quer assistir, feito Paul Thomas Anderson ou Michael Haneke, os ditos cult, apenas por seguirem seu gosto pessoal, e não o do público. Sua liberdade criativa impressiona, as revoluções silenciosas que os autores autorais sempre permearam o Cinema, em pouco mais de um século, porém o dinheiro que um drama poderia fazer é convertido nos mesmos elogios que Van Gogh recebeu após sua morte, de fome, sem grana para o pão de cada dia. Essa condição limítrofe entre o ser, e o ter, nunca acometeu a mente por trás de Bastardos Inglórios e Jackie Brown.

“-Did I break your concentration?”

Tarantino sempre teve muito a dizer – e ainda tem. Sua fórmula é simples e revisita os primórdios, os fundamentos e a alma de uma arte que vive para aprimorar, tão bem quanto pode, o que os mestres e deuses do passado já pavimentaram pelo caminho. Tarantino consegue fazer o público mais alienado possível, que só presta atenção em super-heróis e outros arquétipos infantis se interessar por diálogos extremamente refinados, no limite da intelectualidade, ao mesmo tempo que nos diverte com um humor que ergue pontes sobre o abismo entre coração, e cérebro. O cara não tem fórmulas, mas apenas faz, da forma mais honesta e planejada possível, combinando técnica com alma, filmes que desafiam a concepção de Cinema de contradições. E o que seria, isso?

“-You know how you get to Carnegie Hall, don’t ya? Practice.” 

Um cinema de contradições é um cinema imprevisível, pois tal num suspense de Tourneur ou Hitchcock, ou na própria vida, não há como saber o que vai acontecer. Filmes assim, portanto, são realistas, e sua “fórmula” é o bom-senso do realizador que não subestima quem o prestigia. Tarantino, aliás, reconhece seus filmes como extensão audiovisual de sua psique, o que nada mais é que um presente para todos nós: Viciado por Sérgio Leone, um dos reis do faroeste, ele retira nossas dúvidas sobre o que é realmente bom no mundo dos filmes, através do peso e da brilhantina de suas influências tão vastas. Eles nos faz sentir o poder do Cinema pelo poder da imagem e da “palavra na tribuna”, como postulou Machado de Assis em suas antigas crônicas de jornal. Pois tal Woody Allen e Jean-Luc Godard, Tarantino é escritor que encontra na fala dos outros a glória de suas palavras.

“-Started to see pictures, ain’t ya?”

Quando fui assistir Django Livre no cinema, numa bela sessão na noite de estreia, lembro de notar, confuso, como a idade na plateia era mista, sem a prevalência dos jovens pra Harry Potter, ou dos adultos e universitários animados pelo mais novo Scorsese… É incrível como Tarantino se equilibra entre dois mundos: A representação do popular, cujo ápice certamente veio no começo da carreira, com Pulp Fiction, o gozo prematuro do artista que ainda não conhece a Fama, feito Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Acossado dos já citados Allen e Godard, e a representação de um Cinema sofisticado e em ebulição que nada deve aos patronos e orixás que tanto inspiram a mente criadora de Kill Bill, o genial e incomparável compêndio das culturas ocidentais e orientais em uma única história, tão globalizada quanto à época que existe e a expressão de seu criador, capaz de misturar inglês, francês e alemão num único filme, reinventando-se, estética e ideologicamente, sem perder a olhos nus suas típicas marcas registradas… E quais seriam?

“-You had my curiosity, but now you got my attention.”

Uma violência cuja consequência ou gatilho pouco interessam, e sim sua construção, em balés de morte que não encontram filmografia atual mais aptas a adotá-los – talvez a do coreano Joon-ho Bong comporte a visão de Quentin, tão versátil quanto quem acabou de entrar na fase adulta dessa “visão” com seu oitavo filme, Os Oito Odiados, já nos avisando da aposentadoria ao alcançar a marca de dez assinaturas! Seja como for, Tarantino brinca com a vulgaridade e o impacto inevitável do assassinato em sociedade, para escandalizar até quem acha que já viu de tudo. Se não consegue por atos, como no massacre japonês em Kill Bill – Volume 1, aposta no diálogo ‘matador’ entre assassinos em Cães de Aluguel antes da mesma violência, presente feito oxigênio em seu universo de contradições, explodir na tela para continuar roubando nossa atenção, tenha você um apurado senso-crítico, ou seja preguiçoso o bastante para refiná-lo.

“-Au revoir, Shoshana!!!”

Não é necessário: Tarantino filme para satisfazer a gregos, troianos e espartanos ainda, e pelo simples fato que filma para satisfazer a si mesmo; seu mais ardiloso crítico. Faz o que seu adolescente interior já sonhava a fazer, mas só hoje descobriu como. Um perpétuo moleque com síndrome de Peter Pan, eternamente a procura de títulos maravilhosos, marginalizados e esquecidos nas locadoras sujas dos Estados Unidos. Se os seus filmes, suas saladas pop são inesquecíveis, únicas e extremamente americanas, não por natureza, mas pelo jeito que são produzidas, culpe a sua formação, seus ídolos, vícios irresistíveis e sua gula por um Cinema furioso por existir. Que essa gula seja insaciável.