Sobre os acontecimentos de 20/06 – Rio de Janeiro

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Chegamos ao Centro por volta das 17 horas, estava acompanhado da minha namorada e mais duas meninas amigas minhas. Tentamos encontrar três pessoas num estabelecimento comercial na Avenida Presidente Vargas, mas o local estava tão cheio que só conseguimos encontrar dois deles.
Tentei ligar para o outro, mas foi em vão, os celulares não ligavam,e a internet também não funcionava.

Marchamos, gritamos, xingamos, brincamos – temos humor, claro – nos encontramos com amigos dos amigos e fomos andando da esquina da Avenida Rio Branco até um pouco depois da Central sem maiores problemas.
Nosso grupo era composto de 4 homens e 7 mulheres. Tinham caucasianos, negros, homossexuais, religiosos e até ateus. Ao fazer o percurso víamos muitas pessoas indignadas, outras nem tanto, havia também alguns arruaceiros, mas esses foram vaiados e hostilizados pela multidão –  não se criaram.

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Entre Sete e Meia ou Oito horas  da noite – sinceramente não sei precisar- ficamos literalmente engarrafados na Estácio. A Passeata para a Prefeitura não conseguiu prosseguir por completo ao seu destino.
Um grupo de amigos se instalou na nova passarela da Estácio, um pouco a frente da onde estávamos.
Meu amigo que não conseguimos encontrar ultrapassou a tal passarela.
Um outro grupo de amigos estava na Candelária, e naquele momento eu nem sabia do paradeiro deles.
Uma amiga minha estava perto da Lapa.

Um cheiro insuportável vinha da direção do nosso destino final. Barulho de sirenes, barulho de explosivos. Perto de onde estávamos estourou algo – ninguém sabia o que era – as pessoas começaram a correr para onde dava,  algumas por cima das outras, nosso grupo se dispersou. Uma das minhas amigas partiu em disparada e corremos atrás dela para não nos perder. As meninas que antes estavam felizes e achavam tudo lindo se assustaram mas não se deixaram levar pelo medo, só não entendiam o porquê daquela reação. Os barulhos de disparos só aumentavam, e as bombas que chegavam ao solo faziam um estrondo tremendo, pareciam trovões, algumas pessoas ficaram em pânico, mas o grito era um só: NÃO CORRE!

Na passarela, onde estavam um dos meus grupos de amigos, dava para ver a Tropa de Choque se aproximando, afugentando a parte da multidão que não conseguiu chegar a Prefeitura – acho que agora está claro porque os grupos se dividem e vão para destinos diferentes – a Polícia não permitia a passagem. Era um movimento pacífico. A Tropa de Choque tem como função conter conflitos, e não havia conflito. Era para ser uma manifestação pacífica, só “esquecemos” de combinar com o outro lado. Meus amigos correram como podiam, impressionados como a massa se movimenta rápido e escoa como se fosse água diante do terror. Eles chegaram a Cinelândia, a passos de tartaruga. Um deles prenuncia a tragédia: Acho que vai dar merda! –  Dito e feito. No meio da multidão entrou um carro da Polícia Militar. A patama estava na calçada, num patamar superior a população civil. Sem nenhuma ação hostil por parte dos manifestantes os policiais começaram a abrir fogo. Desesperados, correram até a Glória e conseguiram entrar no Metrô – por sorte aquela não era uma das estações fechadas por medida de segurança.

O grupo de amigos da Candelária estava muito longe da Prefeitura, mas também provaram gracejos da polícia. Mais uma vez sem nenhuma ação violenta a PM reprimiu os protestantes. Dois amigos meus, entre eles meu primo, viram uma fumaça preta a sua frente – era um automóvel da equipe de reportagem do SBT – Rio.  Eles foram empurrados, ao ponto de ficarem prensados num bar. Foram obrigados a entrar no estabelecimento e permanecer por lá. Amedrontado o comerciante fechou as portas, temendo por sua vida e por seu sustento. No interior, conheceram 3 moças que estava desesperadas e sozinhas, sem saber como fariam para voltar para casa. Eles se ofereceram para ajudá-las e decidiram rumar juntos outro ponto do Centro da cidade. Puseram a cabeça para fora. Segundo eles a PM não conseguia distinguir manifestantes de vândalos. Um policial tentou ajudá- los, seu depoimento registra muito da realidade do protesto:

 “Quer ir para a Lapa? Lá tá tranquilo, é só passar a Faixa de Gaza (referia-se a Avenida Presidente Vargas) e conseguir chegar do outro lado. Não escoltamos vocês porque os vândalos estão tacando pedra na gente e vocês podem se ferir”

No asfalto, a multidão estava em polvorosa, nervosa e com muita raiva de quem lhe impunha a vontade opressora, por meio de bombas, tiros e borrachadas. Em meio a gritos de protesto lotados de palavrões, uma voz rouca, grave e cheia de paixão começou a bradar, logo seguida por milhares de outras vozes – NÃO VAI TER COPA.

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Uma outra amiga minha estava com um grupo de conhecidos, em um bar na Lapa. Impossibilitada de voltar a sua cidade, decidiu por ficar na casa de uma amiga. Ao lado do boteco, enquanto estavam comendo, passou a Cavalaria e a Tropa de Choque. Os clientes vaiaram os agentes da lei. Movidos pelo sentimento de revanchismo e com o pretexto de manter a ordem, o grupo de policiais atiraram bombas de gás lacrimogêneo no interior do restaurante, apontando armas letais para quem tentasse fugir. Minha amiga ficou sufocada, sua garganta fechou e ela chorava copiosamente, temendo pela própria vida e a dos amigos. Há poucos metros dali, ocorria um tiroteio, e não era festim ou borracha, o chumbo imperava perto dos Arcos.

O meu grupo se dividiu, uma parte foi na direção da Avenida Rio Branco, e nós fomos para a Central do Brasil. Éramos quatro agora, eu e mais três meninas. Fomos às catracas enquanto uma das minhas amigas foi ao guichê. Um barulho horrendo vinha do portão próximo ao Metrô, uma correria enorme começou, as pessoas pisoteavam umas as outras. Escondemos-nos atrás de uma pilastra e mandei as meninas ficarem ali enquanto tentava achar a minha amiga perdida. Enquanto isso as pessoas pulavam as catracas, os agentes de segurança as Supervia ameaçaram reagir, mas se viram manietados: estavam em muito menor número. Finalmente tive sinal de celular e consegui encontrar minha amiga, que já havia entrado no trem. Corremos até o primeiro vagão onde ela estava, com as camisas levantadas e cobrindo o rosto. Meus olhos ardiam e se avermelhavam, minha garganta que já estava inflamada piorava ainda mais, estava irritada – estou sofrendo até agora, os efeitos colaterais.

 Ao chegar em casa, entrei em contato com as pessoas que estiveram na Rua, e ouvi de tudo. Gente que acha que tudo aquilo foi em vão, que não vai dar em nada, pessoas esperançosas, outras amedrontadas, manifestantes que acha que tem que resolver na base da violência…

A turba de pessoas no asfalto estava longe de ter unidade, os interesses e protestos eram variados e havia uma grande parcela de indivíduos que estavam ali por puro entusiasmo, sem muitas reivindicações. Se estes antes eram alienadas, desinformados ou qualquer coisa que o valha, agora tinham uma boa causa para reclamar – a truculência que o órgão que deveria garantir-lhe a segurança teve em lidar com seus contribuintes.

Uma pena que grande parte do corpo policial carioca ainda tenha a mentalidade repressora do regime militar – lembrando que esta PM nasceu com a nossa última ditadura. Não há como culpar todos os profissionais, há pessoas de esquerda lá inclusive, o grave problema é o que eles são obrigados a fazer mandados pelos chefes de Estado – esses estavam seguros, atrás de paredes humanas armadas, que apontavam para as cabeças dos reivindicantes.

A pergunta que fica é: Será que tudo isso valeu a pena? A multidão dispersa conseguirá algo? Os governantes realmente estão com medo das conseqüências? Essas respostas não chegarão cruas, é preciso que o movimento amadureça e ganhe forma antes de fazer qualquer previsão. Uma coisa é certa, o reclame está ganhando as multidões e apoio popular, e para que as reivindicações sejam ao menos vistas isso é muito importante. O esforço agora é manter o fôlego, que os protestos continuem. A redução do preço das passagens não é motivo para parar, ao contrário, medidas paliativas como essa estão longe de ser as soluções profiláticas que o povo busca. A imprensa internacional olha para o país com olhos atentos, o Manifesto ganhou os olhos da mídia mundial, mesmo que seja tão achincalhado pelos grandes veículos de comunicação brasileiros. A tendência é que isso aumente para os próximos dias, e talvez a questão de não ter um foco definido seja mais uma qualidade que defeito, pelo menos por hora.

Um fato curioso aconteceu com o meu primo– o mesmo da Candelária. Ele estava no ônibus lotado a caminho de casa, um rapaz fez sinal e o motorista o instruiu a entrar pela parte de trás, para não pagar passagem. O enfurecido rapaz se recusou e disse:

“Não, eu acabei de vir de uma luta que é exatamente contra isso! Eu acredito no meu povo e temos que acabar com essas coisas na nossa cultura. Vou entrar pela frente e pagar”

Os presentes no carro o aplaudiram, talvez essa seja uma atitude isolada, de alguém que entendeu o conceito dos protestos, talvez seja apenas pose, talvez seja uma catarse, uma transformação do povo, talvez não seja nada. Talvez haja alguma esperança nisso tudo, mas só haverá chances disso dar certo se os protestos continuarem e se o povo prosseguir pressionando os poderosos, a fim de tirá-los da zona de conforto.

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