Melhores filmes “alternativos” de 2012

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Lista de melhores filmes é um negócio repetitivo e a essa altura eu suspeito que vocês já entenderam que Cavaleiro das Trevas é uma certa unanimidade por aqui. Então, honrando minha fama de menina dos filmes “cults” e nêmesis do Jackson, eu faço a lista de melhores filmes hipsters/alternativos/falados em línguas estranhas/não entendo nada, mas tá bonito.

Primeiro: essa não é minha lista de melhores filmes de 2012, em uma seleção que fosse só pela minha preferência entrariam um bom número de blockbusters. Pelo critério totalmente intuitivo e arbitrário dos filmes que caberiam aqui Drive ficou de fora (mas é de longe um dos melhores filmes do ano), mas eu vou considerar uma menção honrosa, porque o lançamento não foi tão grande assim.

Em segundo lugar, o critério: filmes lançados em circuito no Brasil em 2012. Doeu um pouquinho esse critério porque eu tive que deixar de fora filmes incríveis que vi em mostras, festivais ou por meios menos oficiais e que só vão entrar aqui em 2013. Enfim, ficam para a próxima. A única exceção é um filme lançado lá fora em 2012, mas que não chegou aqui de forma nenhuma, achei que a lista pseudo-intelectual merecia um desses.

10. Amores Imaginários
Na verdade é um filme de 2010, um beijo para as distribuidoras brasileiras! Xavier Dolan, o diretor, ficou famoso em 2009 com Eu Matei a minha Mãe, filme pequeno, de baixo orçamento, que ele mesmo atuava, quase com cara de trabalho de graduação de estudante de cinema e que ainda assim foi a escolha canadense ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Amores Imaginários é mais bem elaborado, mais maduro e bem dirigido, mas ainda mantém o que é tão interessante em Dolan: essa auto-exposição tão descarada, quase crua. Ele atua novamente e os personagens são mostrados em toda sua fragilidade, cheio das ilusões estúpidas de quem começa a se apaixonar. O roteiro e o ritmo do filme têm alguns problemas, mas a honestidade faz valer. Bônus para excelente trilha sonora.

9. Martha Marcy May Marlene
Esse é o que não chegou aqui, mas eu aposto que daqui uns dois anos, quando a Elizabeth Olsen virar estrela de comédias românticas indies, ele chega. Elizabeth Olsen é a irmã boa atriz daquelas gêmeas de filmes da sessão da tarde que de repente surgiu do nada com esse filme em Sundance. Ela faz Martha, uma menina que foge de um culto e tenta se reintegrar na sociedade. A fotografia é escura, suja, e o filme flerta com o terror psicológico. É perturbador e todo o barulho em volta de Olsen tem razão de ser, já que tudo depende da capacidade dela de convencer o espectador do seu medo e sua paranoia.

8. O Gato do Rabino
Eu vou para sempre promover animações de países que não sejam Estados Unidos e Japão e a França tem um bom histórico. O Gato do Rabino é adaptação de uma HQ e tem roteiro e direção do próprio autor. A animação em si é linda, com um traço cuidadoso, todo cheio de detalhes. Os personagens são carismáticos, o roteiro bem feito e engraçado. O filme faz um ótimo trabalho em colocar um ou outro diálogo filosófico sem atrapalhar o ritmo e a ironia do Gato torna tudo divertido e adorável.

7. Moonrise Kingdom
Ok, ok, esse foi um lançamento consideravelmente grande, mas quem vai argumentar que o Wes Anderson não é hipster? Melhor filme dele desde Os Excêntricos Tenenbaums, com duas crianças lindas e um ar de ironia com um tema sério. Eu gosto particularmente de como ele transforma tudo em uma versão miniatura de um filme de guerra, assim como as crianças são versões pequeninas dos conflitos adultos. É leve, divertido, bonito, mas meio dolorido lá no fundo.

6. Pina
Eu reclamo muito por aí que o 3D é um recurso legal, mas que o cinema não chega a explorar criativamente, além de ser uma forma de deixar tudo mais “bonito” e tentar evitar pirataria. Junto com Hugo, Pina é a exceção. Pina é um documentário do Wim Wenders sobre a Pina Bausch, ícone da dança contemporânea e amiga pessoal do diretor, cujo principal objetivo era explorar a relação dos corpos com o espaço do palco. Wenders não faz um documentário sobre a vida dela, mas sobre o trabalho da coreógrafa e assim o uso do 3D espelha toda a investigação sobre a ocupação do espaço. Wim Wenders é um dos melhores documentaristas em atividade e esse filme é plasticamente a coisa mais bonita que eu vi em muito tempo.

5. Habemus Papam
Ou: se Woody Allen fosse italiano e católico. É o mesmo tipo de humor auto-irônico, paranóico e inseguro, mas por um outro viés e até um pouco mais escrachado. Nani Moretti dirige e atua como um psicólogo chamado para lidar com um Papa em crise existencial. O filme aponta todos os dedos possíveis para a igreja e o conservadorismo da sociedade italiana e desconstroi a imagem dos cardeais até chegar ao absurdo, sendo sempre um pouco melancólico, mas principalmente engraçado.

4. Um Alguém Apaixonado
Porque não é uma lista esnobe suficiente se não tiver filme iraniano. Melhor: filme de diretor iraniano filmado no Japão. Eu confesso e aviso: talvez seja o melhor exemplo da minha definição de “não entendo nada, mas tá bonito”, mas ainda assim vale a pena. É sobre a relação entre um velho professor e uma jovem prostituta com um namorado horrível. Sobre as escolhas irracionais que as pessoas fazem e, sim, claro, sobre pessoas apaixonadas. É mais uma reflexão do que respostas, mas é um exemplo maravilhoso do que o cinema é quando desiste de dar respostas.

3. A Separação
Porque eu não me satisfaço com só um filme iraniano. Ganhou Oscar de melhor filme estrangeiro em 2012, Bafta, Urso de Ouro em Berlim e mais um monte de prêmios e eu prometo que por mais que filme iraniano tenha fama de chato não é o caso desse. O diretor, Asghar Farhadi, fala das contradições entre a imagem de um Irã ultra-religioso e a modernidade que na verdade existe lá dentro e, da mesma forma, seus filmes integram o ritmo contemplativo pelo qual o cinema iraniano ficou famoso com elementos do cinema comercial. Seu filme anterior “Procurando Elly” era quase um thriller e aqui o mistério move boa parte da trama. É angustiante, claustrofóbico e um tanto genial. Mostra um Irã que nós não estamos acostumados a ver e reflete sobre o país, mas tudo em cima de uma narrativa bem feita e um filme envolvente.

2. No
O cinema latino-americano vem soltando coisas ótimas, inclusive de países inesperados, como o Peru e o Uruguai, mas o Chile andava meio quieto desde Machuca (2004). “Não” compensa isso. Em 1988 os chilenos deveriam votar em um plebiscito que diria “sim” ou “não” para o governo do General Pinochet e o filme se centra no publicitário responsável pela campanha que deveria convencer o povo a dizer “não”. “Não” tem um roteiro tão bom, tão bem amarrado e cheio de boas tiradas que é até difícil apontar exatamente porque ele acabou em segundo lugar nessa lista. O filme flui e trata do tema de forma honesta e leve, sem medo de revirar um tema complexo e é bem dirigido, atuado, fotografado sem ser correto demais.

1. Fausto
Eu fiz uma crítica dele aqui e não sei se cabe falar muita coisa mais. Quando o Sokurov fez a Arca Russa eu fiquei fascinada, mas achei que faltava ancorar aquilo, dar uma narrativa, conseguir tornar esse cinema de sensações que ele faz um pouco mais palatável e Fausto faz tudo isso. É experimentação e estética, mas tem também uma narrativa forte, é cheio de diálogos sobre a vida, a morte, a efemeridade da beleza e o mal, mas também expressa essas contradições na fotografia, na direção de arte e na montagem. Fausto é um dos melhores exemplos do que é o cinema como arte, ao mesmo tempo apontando para toda uma tradição e sendo original. É difícil, é lento, definitivamente é um filme que requer investimento, mas é o melhor encontro de forma e conteúdo desde Asas do Desejo.

Texto de autoria de Isadora Sinay.