A Mise-En-Scène Aterrissa no Cinema

Antes mesmo de 1968 quando o cosmonauta soviético Yuri Gagarin foi lançado, literalmente, para fora da Terra a humanidade já conhecia o espaço sidera.Além de ter aterrissado na lua e conhecido os seus formidáveis habitantes. Tudo isso quando o francês George Méliès decidiu adaptar a obra de Jules Verne, Da Terra à Lua, para o esplendoroso e jovem mundo do cinema.

Mise-en-scène. Expressão bastante usual no meio cinematográfico, nascera no ventre do teatro anos antes do surgimento desta jovem manifestação artística chamada cinema. De origem francesa tem como tradução em português “por em cena”, tendo sido utilizada na linguagem teatral do século XIX para remeter à movimentação dos atores pelo cenário e o posicionamento dos adereços pelo palco de forma a contribuir para a história que estava sendo contada.

Cena de uma peça teatral representante do Teatro Burguês-  também denominado Drama Burguês; tem como principal idealizador o dramaturgo Denis Diderot, que condessou elementos cômicos e trágicos de forma a retratar por meio de suas peças o universo burguês da França em ascensão no final do século XVIII. De acordo com pesquisadores tanto do teatro como do cinema a expressão mise-en-scène fora inicialmente utilizada e difundida durante este período.

Não obstante, a mise-en-scène ao invadir a sétima arte teve seu uso e significado ampliado. Cenário, iluminação, figurino, maquiagem e interpretação são os componentes formadores dessa técnica cinematográfica. Acrescento ainda, que tudo aquilo que nos salta aos olhos aglutinando-se em nossa memória logo após sairmos da sala de cinema, integra esse fabuloso universo.

Porém, ela não brotou pura e simplesmente no terreno do cinema. Mas, sim, fora plantada e aos poucos cultivadas pelas mãos de jardineiros e jardineiras para lá de habilidosos. George Méliès, ilusionista, cineasta, ator, roteirista e pai dos efeitos especiais, foi o responsável pela migração da expressão do universo cênico para o cinematográfico. Ele dirigiu, atuou e roteirizou inúmeros filmes e foi um dos primeiros diretores de cinema a orquestrar os elementos da mise-en-scène a fim de criar mundos totalmente imaginários e fantasiosos. Como muito bem expresso na sua célebre obra Viagem à Lua (1902)

Frame de Viagem à Lua(1902). Nota-se um mundaréu de detalhes pertencentes ao que se entende por mise-en-scène: um longínquo cenário que realista ou não nos faz crer ser a superfície da Lua, que até aquela época mantinha-se intocável. Atrizes encenam os habitantes lunares, trajando figurinos que lhes oferecem particularidades as diferenciando dos míseros terráqueos.

Para cada cena do filme Méliès fez inúmeros esboços, algo semelhante ao que conhecemos hoje como storyboards, onde se tornava possível ver os cenários, figurinos das personagens e o posicionamento dos atores e atrizes dentro do quadro fílmico. Desta forma, Méliès estando na posição de diretor tinha total controle sobre O QUÊ apareceria em cena, semelhante ao compositor que minuciosamente seleciona as notas e acordes a serem postos na partitura e ao pintor que pensa e repensa quais cores estarão presente na tela.

Méliès, sem sombra de dúvidas, foi uma figura ímpar na história do cinema, influenciando inúmeros diretores e diretoras com seu olhar sensível em criar mundos para além do imaginário daqueles que aos poucos se cansavam do cinema como registro do cotidiano. Filmou em seu estúdio na França, Star Film Company, mais de 500 filmes, e deu os primeiros passos na inserção da expressão mise-em-scène no vocabulário cinematográfico e transformou nossas fantasias e sonhos em película; para então projetá-las sobre a tela do infinito.

Texto de autoria de Harllon Filho.

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