Crítica | Chorão: Marginal Alado

O filme de Felipe Novaes começa em uma pista de skate vazia, que vem a receber o nome de Alexandre Magno Abrão, o Chorão como homenagem, ele que foi um grandíssimo defensor da modalidade no mainstream. Chorão – Marginal Alado é um documentário que tem a pretensão de falar a respeito da controversa figura que foi frontman da banda Charlie Brown Jr., que foi um rockstar nos anos 90 e 2000 e que veio a falecer em 2013, sob circunstâncias trágicas e até hoje discutidas, tendo a ver com o uso largo de drogas.

Aliado as cenas de introdução, Chorão é mostrado manobrando seu skate, que segundo ele, é um instrumento que o liga demais a música, como uma parabólica para a arte. As partes em que ele fala são tiradas de muitas outras entrevistas, já que é um filme póstumo. As falas dele são tiradas especialmente de uma entrevista dada a Tv Cultura, enquanto Champignon, a esposa de Chorão Graziela Gonçalves, os outros integrantes da banda dão entrevista para o próprio Novaes.

O documentário tem méritos grandes, como destacar as influencias musicais da banda de do cantor, como Suicidal Tendencies e o Planet Hemp, que fez eles chegarem a conclusão que poderiam fazer um som pesado com letras em português. Isso também dá ao filme a possibilidade de falar sobre o modo de Chorão compor, e sobre as muitas “poesias” que escrevia, com letras longas, e que vez por outra, ultrapassavam até o espaço das canções. A maioria dos entrevistados – incluindo João Gordo e Serginho Groisman – destacam que ele tinha muita coisa entalada na garganta, e precisava falar o tempo todo, servindo ao menos na opinião desses, como um por voz da geração jovem deles, ou como disse Marcelo Nova, Alexandre era a Xuxa do Rock Nacional, dado que atraía muitas crianças.

O filme é repleto de informações para quem não conhece absolutamente nada sobre a trajetória do CBjr, as falas de Rick Bonadio então são ótimas para ambientar isso. Se fala também sobre a produção de O Magnata, o que se sente falta é uma discussão mais profunda da alta criatividade dos clipes da banda, em especial Couro  Vai Comê e Rubão, que tem historias bem legais, quase como filmes em curta-metragem. Já havia ali uma narrativa cinematográfica, e isso funcionaria melhor do que simplesmente afirmar que ele era cinéfilo.

As entrevistas mais ricas resultam em João Gordo, que destaca as brigas com Chorão e a capacidade dele de fazer chicletes, e até de fazer as pazes com alguns dos seus desafetos – aliás, a parte em que se descreve a briga com Marcelo Camelo é hilária – além de um dos amigos de infância, que foi ajudado por ele ( e que saiu da prisão graças a ele, que investiu em advogados caros). Champignon também dá boas afirmações, pois mostra um lado mais egocêntrico e vaidoso de Alexandre, e entre brigas e abraços, eram os dois grandes amigos. O baixista morreria sete dias após a entrevista, vítima de suicídio, mostrando o quão trágica era a jornada de Charlie Brown como um todo.

Chorão era a alma da banda, tinha uma alma pregadora, parecia um pastor evangélico mas com linguagem mas chula e popular e nisso o filme acerta. O que não há tanto aprofundamento é no uso que ele fazia de drogas, tendo um trecho que obviamente destaca a problemática mas que só arranha a superfície. Por ser um documentário encomendado pela família, é natural que seja um pouco chapa branca, ainda que isso conflite com a exigência extrema que  Alexandre impunha a si e a coisa mais importante de sua vida, que era a banda. Ao menos nas brigas e retornos da banda não se economiza em criticar ele, nem em tornar problemático o fato dele centralizar as responsabilidades da banda, fato que o fez sobrecarregar, claramente.

Bonadio fala algo correto, Chorão não evoluiu, ele já nasceu com talento e muito pronto, só ganhou experiencia. Isso se reflete na eterna repetição que tinha, em letras, harmonia e lançamento de discos, e isso realmente marcou a carreira e discografia de Charlie Brown Jr. As cenas de arquivo sempre muito boas, mas não salvam o filme de um formato muito protocolar de contar historias, o que é uma pena, pois o cantor era complexo e anárquico para ter o seu documentário algo tão quadrado.

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