Crítica | 15h17: Trem Para Paris

Depois do lançamento de O Artista do Desastre os olhares cinéfilos voltaram-se para The Room, obra máxima do ator e cineasta Tommy Wiseau. O longa-metragem é encarado de forma jocosa como uma obra prima do cinema trash, por ter atuações risíveis e dignas de pena, além de um visual único, no pior sentido do termo. A historia “heroica” de Spencer Stone, Alek Skarlatos e Anthony Sadler, três americanos que impediram um ataque terrorista num trem europeu, que se dirigia a Paris também guarda semelhanças com essa perola do trash, em especial pela artificialidade das situações propostas, mesmo que essas sejam inspiradas em fatos reais.

15h17: Trem Para Paris varia entre a entrada no vagão da locomotiva e flashbacks, que mostram o trio de protagonistas ainda crianças, em situações onde as mães dos rapazes brancos Joyce (Judy Greer) e Heidi (Jenna Fischer) são constantemente chamadas para ir ao colégio. Os rapazes são tratados como garotos-problemas, e suas famílias se recusam a receber conselhos para encaminharem os dois rapazes (Spencer e Alek) para psicólogos, a fim de diagnosticar uma possível doença, como por exemplo, déficit de atenção. Já nesse início se nota a extrema artificialidade da história contada e o drama desenvolvido.

Beira a tortura ter que acompanhar a trajetória de fracassos do trio, em especial Spencer, personagem que aparentemente tem mais desfalques mentais entre os três. O trio de protagonistas é representado como pessoas não aptas para o ofício de honrar a bandeira americana, falhando em praticamente tudo o que tentam, seja como civis ou no processo de seleção para obterem graduações voltadas a especializações em combates.

A escolha de Clint Eastwood por colocar os próprios sobreviventes como intérpretes de si mesmos ajuda a quebrar qualquer ar de naturalidade que um filme que se mune da realidade precisa. O roteiro de Dorothy Blyscal não é só expositivo, como possui um conjunto de diálogos terrível, se assemelhando a um Tropa de Elite ou Cidade de Deus às avessas, pois claramente possui diálogos que soam artificiais, mecânicos e bastante patéticos. Pior, para efeito de comparação, recentemente, Projeto Flórida havia trabalhado bem com não-atores ou intérpretes iniciantes povoando o elenco, Sean Baker acertou demais na condução. Isso passa longe de acontecer no filme de Eastwood, e o início faz lembrar os filmes evangélicos recentes, como Deus Não Está Morto, sua continuação Deus Não Está Morto 2 e Quarto de Oração, em especial por sua abordagem muito baseada em um discurso evangélico completamente esvaziado de significado ou senso crítico, tais quais os três filmes sofistas citados.

O filme de apenas 94 minutos, assusta pela morosidade da história e sua dilatação para que o evento-chave finalmente aconteça, tornando 15h17: Trem Para Paris um filme extremamente enfadonho e chato. Nenhuma conversa aparenta sair da boca de pessoas reais, ainda que sejam eles os personagens reais que vivenciaram tal situação. Todas as coincidências que ocorrem no desenvolvimento soam piegas ao extrema, assim como a tentativa de imputar um heroísmo aos personagens. Em Sully: O Herói do Rio Hudson e Sniper Americano, Clint havia representado personagens que se destacavam do ordinário, e nesse, a tentativa de mostrar pessoas comuns fazendo algo extraordinário ganha ares de comédia involuntária, com um texto pueril que beira os panfletos de auto-ajuda encontrados em consultórios de psicólogos aproveitadores, e sem qualquer personagem memorável ou digno de qualquer empatia.

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