[Crítica] À Beira Mar

A Beira Mar 1

De início idílico, se valendo do cenário belo e inspirador da costa francesa, acompanhado de uma filmagem linda que resume emoções conflitantes, À Beira Mar começa promissor, a contar o drama de um casal que se isola, para aos poucos revelar a intimidade e o que ocorre na confusão mental e sentimental que o assola.

Angelina Jolie – que agora utiliza o nome Pitt ao final – interpreta Vanessa, uma esposa bela, entediada e chorosa, incapaz em todos os momentos de expressar qualquer emoção que não envolva frustração e descontentamento. Seu marido, o autor literário em bloqueio criativo Roland Bertrand (Brad Pitt), tenta, através do retiro que fazem dos Estados Unidos, resgatar a vontade de escrever, além de ensaiar uma reaproximação com seu par, fato que o incomoda e que pouco parece ter importância a ela, visto a completa abstração de sua mulher.

O retratar do estado depressivo é muito bem exemplificado ao determinar as duas partes do casal em momentos distintos da melancolia, mostrando uma mulher inapta, antissocial e largada ao auto-abandono, e um homem sem estímulos que se sente impotente por não conseguir ajudar seu par. Os moradores e frequentadores da pousada passam a ser elementos de refúgio para o homem, enquanto um casal de vizinhos, Lea (Melanie Laurent) e Pascal (Frédéric Desager), chega e começa aos poucos a capturar a atenção da mulher, que enxerga na paixão de ambos algo há muito perdido em si e em seu par.

O roteiro de Jolie começa muito bem, tendo ótimas sacadas ao se discutirem questões morais relativas à inveja, traição, desconfiança, ciúmes e voyeurismo. As situações envolvendo a intensa busca por inspiração resultam em momentos cuja comicidade beira o desequilíbrio, resultando em um sucesso estrondoso e improvável. O problema é o preciosismo que ataca os momentos finais das mais de duas horas de duração.

A razão que move Vanessa a agir de maneira egoísta não é mencionada, e a sugestão ao mistério acrescenta demais à trama, gerando complexidade a sua persona, quase justificando toda a misantropia e recalques psíquicos que a assolavam. Suas atitudes de intrusa e de péssima companheira passam a pesar quando o motivo torna-se óbvio, resultando num sem número de ações mal construídas dentro do roteiro.

Ao menos a condução de atores é feita de um modo interessante, com momentos para cada um dos três principais personagens – e astros – brilharem em momentos solos, com diálogos e situações inteligentes pulverizadas entre eles, não sendo monopólio nem de Pitt ou Jolie as atenções dramáticas do longa, com momentos de brilho esporádico não só para os análogos mais jovens, como para Niels Arestrup, que faz um mentor estereotipado que funciona em cada momento em que aparece.

O embate que poderia ser interessante, entre Laurent e Jolie, duas diretoras/atrizes promissoras em cena, se dilui em meio a explicações baratas que fazem eco com as piores manias do cinema mainstream, vistas principalmente em Interestelar e em seus primos. A comparação com Sr. e Sra. Smith, que seria em tom de piada, quase se justifica graças aos tropeços da direção.

O conto, que poderia ter sido mais, soa bobo e infantil, distante do que a premissa previa, sobrando uma fotografia e edição competentes, caindo sobre Angelina Jolie Pitt os mesmos pecados vistos em seu filme anterior, Invencível, ainda que À Beira Mar não seja um produto panfletário e cafona, ao menos não até o seu final, que abraça por completo o segundo adjetivo. Gera sobre o casal de atores a pecha de metalinguagem da crise conjugal, com a teoria de que o incômodo passado em tela reflete de certa forma o drama do casal.