[Crítica] A Cabana

A Cabana é um best-seller, escrito pelo canadense Philip P. Young, no ano de 2007. Curiosamente, foi uma história que não nasceu para ser publicada, já que Young a imprimiu para entregar aos seus filhos durante o Natal de 2005, pois se tratava de algo que ele escreveu para confortar a si mesmo. Contudo, após despertar o interesse de dois produtores, a história foi reescrita algumas vezes e foi rejeitada em todas as editoras religiosas que poderiam publicá-la, até que os dois produtores (ambos ex-pastores) em questão, Wayne Jacobsen e Brad Cummings resolveram abrir sua própria editora e lançarem o livro. A aceitação foi tamanha que atingiu, além do público alvo, pessoas de diversas outras religiões, além daqueles que não são “pessoas de fé”. Com isso, o livro foi traduzido para o mundo todo, além de figurar na lista de best-sellers dos principais meios de comunicação ao redor do globo o que rendeu, inclusive um desentendimento jurídico entre Young, de um lado e Jacobsen e Cummings, de outro, onde o escritor pleiteou na justiça royalties que não teriam sido repassados.

Como quase todo sucesso literário vira filme, com A Cabana não foi diferente.

Mack Phillips, interpretado por Sam Worthington, é um pai de uma bela, perfeita e feliz família, que toda semana, sem falta, entregam parte de seu tempo para celebrar Deus e os ensinamentos das Escrituras nos cultos de sua congregação. Percebe-se que Mack está lá apenas para acompanhar sua esposa, Nan (Radha Mitchell), a mais religiosa entre os 5 membros da família. A identidade que Nan tem com Deus é tamanha que ela e sua filha menor o chamam de Papai, que seria algo mais carinhoso do que apenas “Pai”. Durante um fim de semana em que Nan precisa trabalhar, Mack leva seus filhos, os adolescentes Kate (Megan Charpentier) e Josh (Gage Munroe) e a pequena Missy (Amélie Eve) para passar o fim de semana acampando nas montanhas, junto de um lago como costumam fazer quase que sempre. Durante o camping, um dos adolescentes se afoga e ao sair para socorrê-lo junto de outras famílias, Missy é sequestrada e nunca mais é encontrada. Inclusive, vestígios de que a menina sofreu abusos e uma consequente morte foram encontrados numa cabana abandonada nas montanhas.

Com esse terrível acontecimento, a história salta alguns meses no tempo e podemos perceber que a família foi destroçada pelo fato. Nan é a mais centrada no que se diz respeito à perda da filha, porém, Mack, Kate e Josh, simplesmente pararam com os sorrisos que tinham anteriormente para viverem uma vida de depressão e desgosto, cada um à sua maneira. As coisas começam a mudar quando Mack tira de sua caixa de correio um envelope com o seguinte recado: “te espero na cabana”. Atormentado por poder confrontar o assassino de sua filha, o protagonista não pensa duas vezes e embarca numa viagem que mudará a sua vida para sempre.

Com essa premissa, rapidamente, a jornada de Mack vai muito além do que ele imagina, sendo que na verdade, ele acaba por encontrar Jesus Cristo, vivido pelo israelense Avraham Aviv Alush, que imediatamente transforma o local afetado por um tenebroso inverno numa bela, ensolarada e colorida floresta. Não demora muito para conhecermos Deus, representado de forma proposital pela figura feminina de Octavia Spencer, além da jovem Sarayu (Sumire Matsubara), que representa o Espírito Santo.

O filme se estende por um longo período em que Mack, além de ajudar a Trindade nos afazeres domésticos (algo bem leve e lúdico uma vez que cozinha com Deus, faz serviços de carpintaria com Jesus e planta com Sarayu), os confronta, muitas vezes com ódio, sobre os por porquês de Deus ter deixado sua filha ser brutalmente assassinada. E é assim que conhecemos Sophie (Alice Braga), que coloca Mack numa emocionante situação. O filme oscila o tempo todo com as emoções do espectador. Num determinado momento arranca risos da plateia, sendo que, minutos depois, é possível ouvir choros na sala do cinema. Esse mix de sensações se deve ao roteiro leve de John Fusco, que tem em seu currículo, clássicos como A EncruzilhadaJovens Pistoleiros e mais recentemente era a mente por trás da série Marco Polo, da Netflix. Fusco usa tudo em seu favor e consegue fazer piada até com o fato de Jesus conseguir andar sobre a água. Também não podemos deixar de mencionar a direção do inexperiente, porém, competente, Stuart Hazeldine, que até então só tinha um único filme e não sentava na cadeira do diretor desde 2009.

Como dito, o filme é longo e acaba por perder um pouco o ritmo. Nota-se que o segundo ato se estende demais com situações que podem ser consideradas desnecessárias e quase não deixa espaço para a conclusão, que, aparentemente, foi bastante acelerada na sala de edição. Ainda assim, A Cabana tem pouquíssimos aspectos negativos, mas deixa muito claro qual a mensagem que Young, Fusco e Hazeldine queriam passar, tanto no livro, quanto no longa metragem. E podemos dizer que a missão foi cumprida com sucesso. Vale destacar que o filme foi feito para todas as pessoas, uma vez que não existem momentos de “pregação”, mas, obviamente, é um filme que atinge um público específico.

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