Crítica | A Casa Que Jack Construiu

Lars Von Trier se tornou um cineasta refém de suas marcas dentro e fora das telas. Depois de Ninfomaniaca Vol 1 e Ninfomaniaca Vol 2, decidiu adaptar uma história que mostra um personagem psicopata, detalhando os assassinatos que ele comete em um movimento gradativo. A Casa Que Jack Construiu começa com uma conversa em off, entre o personagem principal (Matt Dillon) e uma pessoa que se faz de entrevistadora, e que mais tarde, ganha a alcunha de Virgilio (Bruno Genz).

Como é de praxe, o roteiro de Von Trier é capitular e o nome dessas divisórias é Incidente, e mira nos acontecimentos que envolvem os assassinatos que ele comete. O primeiro deles defronta ele, um sujeito tímido e antissocial com uma moça chata, interpretada por Uma Thurman que tem seu carro quebrado e não tem um macaco. Ele dá carona a moça e ela protagoniza uma conversa chatíssima, sugerindo que ele tinha cara de um assassino serial, e a inconveniência parece que gera nele um gatilho desse desejo.

Aos poucos, é mostrado que Jack é neurótico, tem mania de limpeza e transtorno obsessivo-compulsivo, e o roteiro de Von Trier acaba por ser tornar um filme sobre os métodos de violência e assassinato. O fato de gostar desses crimes é mostrado como algo a evoluir lentamente, assim como os modos dele dissimular, se tornando um enganador, mas que sempre precisa de alguma abertura por parte de suas vítimas, quase como um vampiro precisa de um convite para adentrar em uma residência.

Ainda nesse tomo, há uma cena dantesca, com o assassino arrastando o corpo da vítima, amarrada ao pára-choque do carro, deixando um rastro de sangue pelo caminho, com a chuva o salvando, providencialmente. Aparentemente, mesmo sendo frio e cético, ele é ajudado pelas forças sobrenaturais da natureza. Von Trier também apela para clichês do gênero, mostrando o personagem ainda criança mutilando um patinho, mostrando tendências sociopatas quando ainda era infante.

Ao menos em um ponto o filme acerta, que é no quesito de fazer um retrato de como um serial killer funciona, inclusive mostrando sua evolução, como a especialização em estrangulamento, assim como sua sofisticação em registrar as vítimas em foto, começando com quadros bem básicos, passando a tentar criar uma narrativa dali para frente. Depois disso ele passa a congelar os cadáveres com mais freqüência e seu TOC diminui, ou seja, seus defeitos se adéquam ao seu modo de operar.

Jack passa por estágios da evolução de seu quadro muito semelhantes aos estágios do luto, incluindo aí a negação de sua problemática psique. Ele tenta fingir por um tempo que não é um predador/caçador e pensa em adotar uma família, mas até isso é um verniz social, e até esse despiste ele acaba por perverter. Neste ponto, as críticas a Von Trier passam a ser justas, já que a referência a parábola da tartaruga e do escorpião é extremamente óbvia nesse trecho, e não se desenvolve o assunto para muito além disso. O diferencial talvez ocorra porque é neste ponto que ele começa a empalhar algumas vítimas, e se torna um taxidermista.

Quando passa a ser reconhecido pelo seu trabalho, Jack é chamado via imprensa de Senhor Sofisticação (Mr. Sofistication), mas a realidade em que vive abre mão de qualquer sutileza. Quando  ele diz  que se apaixona por uma mulher – Jacqueline (Riley Keough) – ela a humilha o tempo inteiro, inclusive chamando-o de Simple. O segmento dessa personagem foi o maior argumento por parte de quem detrata o realizador, afirmando que ele é um misógino, mas é exatamente nesse ponto que o roteiro explora um fato comum a muitos mulheres quando tentam denunciar maus tratos masculinos, pois mesmo quando a moça denuncia para os policiais o que aconteceu, mesmo com Jack repetindo em voz alta as maldades que já fez, as autoridades dão de ombros, não acreditando que aquilo é verdade, seja por uma misoginia ou pelo egoísmo vigente que tanto Jack quanto o cineasta acreditam predominar na normalidade humana.

A tática nazista de usar uma bala para matar muitos – com uma munição full metal jacket – é a demonstração dele utilizando pela primeira vez armas de fogo, e esse é o momento onde ele tem mais conflitos com pessoas que não suas vítimas. Aqui ele apresenta sua faceta mais agressiva e intolerante, e onde deixa mais lastro para ser encarado como o suspeito de ser o Senhor Sofisticação. Ao mesmo tempo em que ele começa a se definir como um artista da dor, ele também assume para Virgilio um leve desejo de ser pego, aludindo a um clichê freudiano, de que quase toda pessoa que tem necessidades psiquiátricas severas, tem em algum momento o desejo de não existir, isso se manifestando nesse desejo de ser pego

Se terminasse aí, o filme poderia até soar positivo, mas o epílogo é uma sucessão de eventos intragáveis. Toda a questão envolvendo os mitos gregos do inferno que Hades governa e os Campos Elísios, lugar onde os heróis e os servos dos deuses vivem e que só pode ser visto pelo personagem de longe é mega pasteurizado, sem falar que apela para um ecumenismo meio bobo, misturando mitos gregos com o judaísmo e evangelho cristão de uma maneira nada fluída. Nesse ponto, a pretensão de Von Trier grita e incomoda demais, ate mais do que no momento em que se autorreferencia, apelando cenas de seus outros filmes. A Casa Que Jack Construiu tem bons conceitos, mas sua narrativa é bagunçada, e muito refém da fórmula que o diretor estabeleceu. Em seu final soa como uma repetição das temáticas caras ao diretor, só que em um filme claramente menos inspirado, ainda assim, não justifica a ranzinzice com que foi tratado na maior parte dos reviews negativos.

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