[Crítica] A Chegada

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O começo do novo filme de Dennis Villeneuve mistura docilidade com melancolia, mirando um evento bastante sentimental antes de adentrar na questão central da vinda de alienígenas pelo globo terrestre. A Chegada tenciona ser poético e reflexivo, resgatando conceitos antigos de Carl Sagan a fim de reimaginá-los, mas esbarra em um maniqueísmo que já havia sido ofensivo em Sicário e que aqui, é suavizado. O drama é contado através da vivência da doutora em linguística Louise Banks, vivida por sua vez por Amy Adams.

Louise é uma mulher bem resolvida, inteligente, solteira e de pensamento progressista. No passado ela já havia auxiliado o governo americano com uma situação com árabes, da qual se arrependeu, já que os americanos cercearam a vida de seus adversários sem piedade. Quando ocorre um evento global de invasão de alienígenas, é a linguista que chamam, após uma situação de calamidade e comoção que se assemelhava demais ao ocorrido em 11 de Setembro de 2001.

Villeneuve é indiscutivelmente um diretor interessante, seu trabalho de imagens é de uma qualidade ímpar e o mesmo está sempre acompanhando por bons cinematógrafos. No episódio anterior, o diretor canadense havia trabalhado com Roger Deakins, e neste sci-fi a direção de fotografia está a cargo de Bradford Young, que já havia mostrado um olho apurado para cenas de suspense e tensão tanto em Selma quanto em O Ano Mais Violento. Young apresenta imagens lindíssimas e consegue harmonizar o CGI fruto do orçamento milionário com cenas emocionantes e carregadas de melodrama, fazendo toda a questão soar naturalista apesar do aspecto fantasioso presente na adaptação do livro de Ted Chiang, Story Of Your Life.

O principal problema no texto é compartilhado com o nome da literatura do qual foi baseado, uma vez que todos os aspectos positivos do filme e toda a filosofia por trás dos visitantes giram em torno de uma experiência individual, no caso de Louise. A personagem de Adams é forte mas há um claro desequilíbrio narrativo. Todo e qualquer personagem da trama soa caricato e forçado, para fazer a protagonista brilhar sozinha, sub aproveitando os préstimos de gente tarimbada como Forest Whitaker e Michael Stuhlbarg, e outros famosos como Jeremy Renner. O enfoque na mulher soaria ainda mais interessante se aqueles que a envolvem não fossem tão incapazes de gerar nuances diante das câmeras.

O estabelecimento do primeiro contato é feito gradativamento, pautado no talento da linguista que consegue em pouco tempo estabelecer uma empatia com os visitantes. A questão da gravidade é recorrentemente mencionada dentro do argumento, e a demonstração gráfica dela soa interessante. A questão é que esse escopo de realidade e pragmatismo é levado em conta em alguns momentos e em outro não, fazendo com que toda a suspensão de descrença para alguns graves furos de roteiro de Eric Heisserer soe ofensiva. O paradoxo estabelecido dentro da história beira o deus ex machina, fator que infelizmente está cada vez mais em uso nos blockbusters, quase jogando o filme em uma vala comum e medíocre.

O cenário sócio político é risível, mais uma vez se apelando para uma paranoia que cabia mais na época da Guerra Fria do que em 2016, ao mostrar os Estados Unidos como o povo mais compreensivo com os problemas de comunicação e os chineses como seres teimosos, que só se veem compelidos a mudar sua atitude depois de uma revelação pessoal e certeira em uma de suas autoridades. A inteligência do roteiro mora também em um de seus defeitos, já que apesar da glamourização do auto sacrifício soar pueril e oportunista, também acaba fazendo paralelo com o pensamento freudiano de que a simples ciência de um diagnóstico de uma condição de doença não necessariamente a soluciona, semelhante ao visto na dor que Louise teria de sentir mesmo tendo consciência do que ocorreria no futuro. A Chegada mira uma versão moderna de Contato e entrega um desfecho de dádiva bastante parecido com o de Highlander, ainda que a seriedade da película de Villeneuve em nada tivesse semelhança com a de Russel Mulcahy. Ainda assim, pelas questões propostas e pelo fascínio ao que o humano desconhece, Arrival soa interessante apesar de suas falhas de concepção.