Crítica | A Cor do Dinheiro

A Cor do Dinheiro precisa ilustrar em todos os dicionários a palavra Charme, bem ao lado do adjetivo, nas páginas da letra ‘C’. O filme de Martin Scorsese, sendo esse injustamente um dos seus menos famosos títulos entre mais de quarenta produzidos, tem início numa conversa de bar entre o garanhão Eddie Felson, um ex-campeão de sinuca encarnado aqui pelos eternos olhos azuis de Paul Newman, uma lenda que navegou por todas as eras de Hollywood, e uma moça fadada a cair na lábia irresistível do cara, entre um jogo e outro. Pouco tempo depois desse breve encontro boêmio palco de juras e promessas, estabelece-se rapidamente e de forma brilhante por Scorsese (e uma fantástica direção de arte) o fato de A Cor do Dinheiro ser um manifesto exato sobre o que o próprio título já nos anuncia, e de antemão.

Ambientado por um realismo constante e basilar, se a palavra oficial de O Lobo de Wall Street foi “Fuck”, a palavra-chave aqui é outra: “Money”, e qual mais seria então? O que é o dinheiro (e até aonde você iria para ganhá-lo) é bem diferente do que ele pode significar para outra pessoa, e se essas perspectivas distintas acerca de meras notas de papel, e o seu verdadeiro valor na vida de alguém em sociedade são completamente democráticas nos Estados Unidos e no mundo capitalista, eis um dos filmes mais divertidos e inteligentes a respeito do que pode mover um homem de dentro pra fora, com a trama preferindo trilhar esse caminho que debater superficialidades e outros conceitos clichê nesse tema. Scorsese, mais cool e musical do que nunca, denuncia a superficialidade das relações aqui, e critica a cultura da posse e do custo financeiro vir antes do custo pessoal de cada um, discutindo entre mil e uma situações urbanas se todos realmente possuem um preço.

É melhor ser, ou ter? Para o jogador Eddie, que apenas quer ser o mentor de Vincent, o jovem impulsivo e inconsequente que joga sinuca com a facilidade de quem bebe um copo d’água, a pergunta é mais complexa do que aparenta. Ele deseja ensiná-lo tudo, mostrar para o jovem e a sua namoradinha o valor do esporte, da competitividade e da juventude. Tom Cruise em 1986 ainda precisava se provar aos olhos de público e crítica, e faz do seu Vincent um moleque de fogo nos olhos e rebeldia pura; quase um James Dean de taco na mão, e esse é o conflito central no filme: Como que um ex-campeão naquilo que fez e faz consegue lidar com um pupilo de outra geração, de valores éticos e morais tão diferentes dos seus? Se em Cassino Scorsese construiu um panorama mais glamoroso mesmo sobre as tragédias que o dinheiro abundante acarreta em mãos erradas, aqui é exatamente o contrário, e quase tão prazeroso e reflexivo de se assistir quanto o épico dos anos 90, em Las Vegas.

A intensidade e a violência de Scorsese sempre acham espaço no decorrer de uma história (a briga no bar, o stress na escada), nem que seja nos detalhes ou na iluminação vibrante avermelhada. Elas têm que explodir na tela, e isso não poderia ser melhor é claro, agindo não apenas como elemento de puro entretenimento. A Cor do Dinheiro, por mais charmoso e bem filmado que seja, alonga-se demais e tem aquela barriga narrativa típica dos filmes do mestre, tamanha sua paixão pelo Cinema e em contar histórias que, sobretudo, merecem ser registradas em sua longa filmografia. A já mencionada direção de arte aqui é essencial, exalando a cor verde e ressaltando conforme a necessidade o fato do dinheiro sempre estar ao redor, em pauta, nos olhos e nas veias de cada um, e o que isso causa nos caminhos de quem ostenta sua imaturidade e arrogância desmedidas na terra da ambição, do dinheiro de jogatina e dos wanna be – uma terra também chamada de Estados Unidos da América.

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