Cinema

Crítica | A Escolha Perfeita

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É sintoma claro de velhice o uso do passado como referencial único e inquestionável para avaliação cultural. Tal engajamento com o passado leva a crer que hoje em dia não há obras equivalentes àquelas que definiram e representaram gerações passadas, tal como o cultuado Clube dos Cinco. Em novos tempos, novos interesses e anseios, não cabe mais aos novos representantes da juventude a rebeldia ingênua de outrora, ao menos não nos mesmos moldes. Desde temas tristemente sérios como em As Vantagens de Ser Invisível e Juno, a celebração ingênua da felicidade de Pequenas Miss Sunshine e Super Bad, filmes marcam e desenham o mapa desta geração, e com A Escolha Perfeita não é diferente.

Na história, Beca (Anna Kendrick) é uma garota indisposta com relação à tudo que se refere à ter seu futuro desenhado por outras pessoas. A aspirante à DJ frequenta a universidade por pressão de seu pai. No outro lado do campus, a equipe feminina de acapella tenta quebrar a hegemonia da equipe masculina na competição. Após um fracasso escatológico durante a final da última competição associado não à incompetência, mas sim devido à pressão em serem bonitas talentosas e multifuncionais, a equipe se desfaz e junto com ela o sonho das Bellas de Barden de mostrar que são capazes. Tal pressão faz com que a equipe frequentemente evite se expor ou ousar em suas apresentações, de modo à ser aquilo que esperam delas. Qualquer semelhança com as dificuldades enfrentadas pelas mulheres em seus dia-a-dia não é mera coincidência.

Na tentativa de revitalizar a equipe, os moldes desta se alteram. Das meninas de corpos perfeitos e voz de princesa da Disney, dá-se lugar à personagens desajustadas, como a própria Beca e àquela que rouba a cena em cada um de seus segundos em tela: Amy Gorda( Rebel Wilson). Assim ela se anuncia, de forma assertiva ao demonstrar que tem consciência daquilo que dizem dela pelas costas, mas que nem por isso iria esconder-se dentro de si, usando a intenção jocosa daqueles que olham torta para sua aparência como uma ferramenta de autoafirmação. Ela é gorda, não se importa e sabe disso. Sabe também que é muito mais do que seu "design" aponta. Aliado à isso, Rabel Wilson tem a capacidade de transmitir uma agressividade ingênua em seu olhar e fala, fazendo de suas piadas que poderiam facilmente serem consideradas como de gosto duvidoso uma forma de exaltar-se, mas sem necessariamente rebaixar alguém.

Produzido por Elizabeth Banks, que atua como uma das comentaristas do disputado torneio universitário de Acapella, dando o contraste ideal para os comentários misóginos de seu parceiro John (John Michael Higgins) e assim relevando o tom de crítica das piadas que surgem ao longo do filme, deixando claro ser uma obra que tem como objetivo discutir o papel feminino no mundo de forma séria, mas sem deixar de fazer ser uma comédia.

Se de um lado o humor age como uma forma de debochar do outro sob o verniz de que "É apenas uma piada", o uso deste deboche para ressaltar a contradição ética que é ser machista é um dos grandes acertos de A Escolha Perfeita.

O feminismo protagonizado aqui releva uma abordagem realmente interessante ao evitar o máximo possível ser maniqueísta, e abandona os desejos de competição Masculino vs Feminino em prol de um discurso de abertura de oportunidades e respeito nas relações. Muito diferente dos filmes das décadas de 1990 e 2000, onde a menina feia era incapaz de se mostrar como quem era, usando óculos gigantes e cabelos amarrados apenas à espera de um rei do baile que pudesse mostrar para ela a sua verdadeira beleza mesmo que sua motivação seja apenas vencer a aposta de levar a desajeitada da escola para o baile. Esse template foi reproduzido em diversas ditas comédias românticas sem se dar conta de sua atmosfera machista, onde a mulher só poderia revelar-se ao mundo sob o papel de fêmea, limitando-se à ser uma costela do homem e vencer por sua beleza e fragilidade. Inclusive, tal coisa surge como piada entre Beca e seu interesse amoroso, Jesse (Skylar Astin) relevando a consciência do filme de que o romance não precisa ser evitado e nem mesmo ser um objetivo, só precisando fazer sentido e ser saudável.

A Escolha Perfeita surge em 2012 como representante feminino dos filmes que relatavam as relações de extrema amizade dos meninos, conhecido como "bromance", enquanto as meninas eram representadas como seres insensíveis às necessidades dos meninos. E assim, com suas músicas pop e o uso de brincadeiras pretensamente destinadas às meninas, como a brincadeira do copo, —Que originou uma das grandes demonstrações da representatividade que este filme alcançou com o clipe Cups— A Escolha Perfeita trata de um momento histórico de extrema importância na cultura pop onde a mulher é a verdadeira protagonista.

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Texto de autoria de Marcos Paulo Oliveira.

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