Crítica | A Fábrica de Nada

Esse filme precisa ser visto. Diante da iminência dos seres humanos terem sua mão de obra substituída pelas máquinas, num futuro bem próximo como já apontam certas artigos feito esse e esse, bem esclarecedores quanto ao tema que promete estar em pauta, cada vez mais, o proletariado precisa tomar providências para assegurar o próximo café da manhã – nem que estas sejam amparadas por elas mesmas, e mais ninguém. Eis o simbolismo perfeito disso na revolta de uma dúzia de trabalhadores portugueses, uns jovens outros nem tanto que, para não perderem seus postos, se juntam e se agrupam numa firma de elevadores, no auge da atual crise econômica europeia, para preservar a garantia nunca fornecida pelos patrões de serem alguém, numa lógica cruel de perdedores e vencedores para onde quer que se olhe.

As pessoas precisam se sentir úteis, produzir, rir, gozar, ser parte de algo maior. É justamente na revolta acumulada nas máquinas humanas desse sistema que nasce a base tântrica de A Fábrica de Nada, sobre moscas ao olhar do sistema que cavocam o açúcar para dar-lhe os melhores cristais – sem nunca aproveitarem da própria produção, sempre “destinada” a outros; a mão invisível com olhos de câmera, e canetada implacável. O filme de Pedro Pinho pode ser encarado por diversas óticas, e tem o potencial de ser exibido em inúmeras aulas de sociologia ao redor do mundo, contando com uma alta carga de alegorias e reflexões atuais acerca das engrenagens que fazem mover o sentido capitalista de se viver, enquanto um sistema enriquecedor para poucos, e excludente aos que carregam a pirâmide nos ombros, enquanto podem.

Nisso, remete-se aqui inevitavelmente a outros grandes tratados do Cinema, como o ótimo documentário Peões, de Eduardo Coutinho, ou o clássico A Classe Operária Vai ao Paraíso, acerca de um tema que assombra todas as classes submetidas aos desdobramentos de uma lógica que pode custar a dignidade física e moral de uma pessoa, e suas relações – algo muito bem retratado no filme, também. Em meio a discussões e debates acalorados dos operários, numa das salas da fábrica que, injustiçados e traídos pela administração do local, tomam-no como casa própria, um deles grita “Mas você já não tem nada!” para o outro que prefere fazer greve, do que empreender um sistema de autogestão coletiva da firma, impedindo assim a estagnação do proletariado. Perdidos, Pinho filma a busca de homens e mulheres comuns, com suas mãos e uniformes sujos, rumo ao seu lugar no mundo que, se fora da fábrica não os pertence, pelo menos dentro dela ele precisa pertencer.

O lugar da arte no mundo real (a arte não apenas se mostra, mas intervém na lógica fria e mecânica dos espaços) é amplo tal qual o horizonte que nunca enxergamos, ao todo. O filme de Pinho, um dos melhores dessa década do fabuloso Cinema português, já foi acusado de tudo, inclusive de glamourizar a crise que a zona do euro vem enfrentando, propondo aqui uma encenação dos atores num (lindo) número musical entre as máquinas, cortando assim o climão das discussões de cunho sindicalista entre eles, para todos se orgulharem de seu lugar no mundo! É esse número musical dos operários que os faz libertar suas angústias através dos gritos, do canto, dos saltos e movimentos coreografados. Pequeno instante de liberdade através da dança e da cantoria coletiva, entre as máquinas que tanto protegem, numa Fábrica de Nada cujas chaminés nunca podem parar de respirar, tal um disco do Pink Floyd. Animais, sim, mas conscientes do papel que representam. Esse filme merece ser visto.

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