Cinema

Crítica | A Festa de Despedida

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Up - Altas Aventuras, sem grau de comparação, mostrou para as crianças que a velhice nem sempre precisa ser tediosa, chata, sinônimo de sopa de ervilhas. Se a Pixar conseguiu nos passar essa impressão (e para crianças de todas as idades), um feito Herculano de nos divertir com um velhinho e seus balões, então 1+1 não precisa ser sempre 2, e idosos existem SIM, sentem fome, frio, e não merecem ser invisíveis após ter moldado nosso mundo e nos dar a chance de fazer o mesmo. E quando o marido de uma das moradoras de uma casa de repouso já está no pé da cova, uma máquina de eutanásia é usada por um grupo de amigos para trazer paz ao doente irreversível. Um filme que não se apoia em melancolia mas que não tira sarro da morte, A Festa de Despedida é um convite para revermos, racionalmente, os sentimentos que podem brotar nas nossas aventuras, tardias ou não, pelas extremidades da vida.

Filme dócil, sábio, estilo A Cruz dos Anos, de 1937. Composto por zelo, representação dos desafios da melhor-idade e por imagens que afirmam (mas também contradizem) o pesar da morte, tema deveras cadavérico, ainda mais em caráter idoso, em recente já tratado diferentemente no belo Amor, de 2012, mas que no poder de um visual nostálgico de cores frias, também, são imagens que não deixam de lado o equilíbrio entre a relevância e o reconhecer da dor de quem fica, nítida no personagem do marido fiel, e o lado “deixa a vida me levar” de outras cenas e simbolismos presentes no filme, como a máquina que conta o tempo mas acaba se desregulando, ou seja, a importância do tempo varia de idade para idade! Um filme de proposta bergmaniana, com ecos das boas comédias irônicas do mestre sueco (O Olho do Diabo) e sua ótima direção cênica (Gritos e Sussuros), pincelado com o humor leve e ácido dos Coen e de outros artesãos do “riso involuntário”, um riso presente nessas comédias acidentais, em situações que não deveriam nos fazer rir, mas acabam nos lembrando de que este ainda é o melhor remédio – até para prolongar o difícil bye-bye.

Nota-se o cuidado com os componentes de um asilo a céu aberto que resiste ao fim das coisas, da amizade, do fim do riso e do choro - no filme, um tempo usado para nos apresentar o peso das relações humanas diante da morte, numa espiral bem apresentada (e até divertida!) que elevam o drama ao patamar de uma leve e hipersensível comédia, com gosto gritante de comida de vovó. Cinema também é culinária, já afirmei aqui antes, e no que diz respeito ao “tempero” e outras metáforas gastronômicas em um filme, A Festa de Despedida é um cinema sereno, raro hoje em dia, avesso a apostar em quaisquer polêmicas para ser deliciosamente frágil, e fortemente seguro de seu ritmo, quase fabulístico, tal estivéssemos assistindo à adaptação de um conto de nossos avós, sentados na cadeira de balanço. É esse arranjo de elementos, traduzidos da vida para a literatura, a música, para o Cinema, (esses elementos presentes numa vida bem-vivida, entre guerras e abraços, entre a liberdade e os nossos laços) que também afasta as belas-artes da lata do lixo, como já afirmou Glauber Rocha, e as eleva, em plenitude, à vontade do público de rever o filme, reler o livro... revisitar a obra, mesmo se o preço para isso seja fazer escapar uma lágrima ou um sorriso.

Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
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