Cinema

[Crítica] A Garota

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De proposta bem diferente de seu primo de época Hitchcock, o filme de Julian Jarrold retrata a relação de Tippi Hedren (Siena Miller) e o diretor britânico Alfred Hitchcock (Toby Jones), durante a feitura de Os Pássaros. A produção A Garota é baseado no livro Fascinado pela Beleza, de Donald Spoto, e já em seu início mostra uma persona de Hitch bastante controversa e invasiva, sem tomar o cuidado de criar no espectador a fascinação direta que o filme de Sacha Gervisi fez questão de fazer.

Os relatos da própria Tippi Hedren traçam uma figura bastante abusiva do diretor de Festim Diabólico e Intriga Internacional, diferente do personagem adocicado e atormentado que Anthony Hopkins interpretou no mesmo ano. Esta versão da HBO Films é um pouco mais explícita nessa questão, mostrando o cineasta abusando da paciência, da moral e dos sentimentos da estrela, pondo-a em situações limites a fim de tirar dela a melhor atuação.

A contestação por parte da equipe de produção é tímida, e comedida, de certa forma emula o medo que há por grande parte dos admiradores de Alfred em tocar em assuntos pessoais espinhosos, uma vez que ele é visto pela maioria como um mito, como um objeto completamente inalcançável. Nesse ponto, a atuação de completo pavor que Siena Miller faz em relação a figura de medo é excelente, não resta dúvida tanto sobre as responsabilidades do diretor nos traumas da interprete, quanto também a parte biográfica do longa, se dedicando mais a Hedren o que a Hitchcock, residindo aí o maior protesto em relação a outra biografia.

A gravidade dos fatos se exacerba quando se mostra as cenas de feitoria de Marnie – Confissões de Uma Ladra, onde a nudez de Tippi é usada como elemento de denúncia e de exposição dos tantos abusos que o homem fez a mulher. Todo montante de humilhações e provações antes mostradas encontram seu ápice aí, quando os olhos lascivos do já ancião realizador encontram o corpo desnudo da jovem e agora desesperançosa atriz.

A Garota toca em pontos nevrálgicos da tempestuosa e polêmica carreira de Alfred Hitchcock, e dá voz finalmente ao relato de Hedren, ainda que suavize grande parte dos abusos que ela fez em sua versão já famosa. O modo que Jarrold conduz sua câmera condiz mais com a linguagem cinematográfica do que televisiva, abusando de tomadas aéreas e planos profundos, que reiteram a grandiosidade da filmografia analisada, mas ajudando também a grafar os dramas complicados, com super closes que mostram o terror que o cineasta causava em seus atores, os mesmos que o próprio considerava apenas como gado.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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