[Crítica] A Gente

Em 2013,o cineasta bahiano Aly Muritiba apresentou em alguns festivais o documentário A Gente, que investiga a rotina de um presídio paranaense. O diretor trabalhou na unidade durante sete anos, e depois de inaugurar seu cinema, ele decide voltar ao seu antigo trabalho para mostrar o mundo como é o dia a dia da equipe Alfa, que lida diretamente com os encarcerados.

A aura naturalista do longa é fortificada pelo uso curioso do som, gravado com microfones, mas permitindo a captação de sons típicos do ambiente das prisões. Ao contrário do que se pensa comumente, o ambiente documentado não é sujo ou hostil, ao contrário, a rotina e ambientação da cadeia no Paraná é limpa e o caráter dos funcionários é bastante humanizado, principalmente por conta ao enfoque em um personagem que tem em sua intimidade, uma fé inabalável.

Muritiba tenta aproximar seu espectador de um homem de fé, a fim de universalizar seu discurso, e em alguns pontos o credo se torna um atalho dramático. Apesar do detalhamento do cotidiano, o fato do protagonista se agarrar a fé limita um pouco a discussão em torno do que é de fato o comum na vida dos presos e dos funcionários que lidam com esses.

A visão de um homem preso essencialmente aos seus princípios funciona como uma faca de dois gumes, que ao mesmo tempo anestesia um pouco o espectador diante das situações limites que são vividas todos os dias, como também demonstram que para quem lida com essas tarefas diariamente, é preciso um distanciamento ou uma forma de distração para o que lá se vive. Apesar de limitante, o caráter dúbio não é de todo mal por denunciar o quão penosa e humana pode ser a vida desses agentes retratados no documentário.

Ainda assim, o acuro visual e a fotografia empregada no filme de Muritiba ajudam a diferenciar ele de outros tantos documentários genéricos. O valor diferenciado de A Gente certamente é a fuga do maniqueísmo com que normalmente se tratam as prisões brasileiras.

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