Crítica | A Grande Jogada

Aaron Sorkin não se limita a drama de tribunal nem a linhas temporais únicas, muito pelo contrário, algo que muitos já sabem. Tampouco o roteirista precisava provar nada a ninguém depois de A Rede Social, grande filme moderno de David Fincher cujo pelo excepcional roteiro adaptado para casa Sorkin levou o seu merecido Oscar. Aqui, quis brincar de diretor profissional, traduzindo palavras para a tela. Manobra difícil mas que o escritor encara com vitalidade surpreendente, “homenageando” e se apoiando em vários trejeitos práticos de Fincher (a iluminação, os cenários, a direção dos diálogos, a postura dos atores, tudo parece ser de um mundo paralelo ao universo do diretor de Clube da Luta), fazendo entregar um pequeno grande filme atual sobre os fundamentos da superação, das prioridades, do oportunismo e do pôquer – para iniciantes.

Após se envolver com o submundo das jogatinas, com os privilégios e as possibilidades financeiras que disputas envolvendo milhões de dólares trazem aos espertinhos que bolam e gerenciam esses encontros ocultos ilegais, a ex-atleta Molly Bloom, depois de quebrar sua coluna na neve, decide mudar de vida – e de preferência de uma forma que não dê para voltar atrás. A trama de A Grande Jogada parte de uma situação tentadora muito semelhante à da secretária Marion em Psicose, de Alfred Hitchcock, que recebe aqui uma grana preta do patrão para guardar mas que resolve fazer com ela algo de bem inusitado: Desenvolver o seu próprio sistema de trambicagens em Nova York, e dar a volta por cima desde seu acidente esportivo. Nisso, Molly abandona seu uniforme de esquiadora olímpica e opta por vestidos vermelhos longos, rímel e olhos de raposa entre os lobos milionários. Só que a pose dura pouco tempo, até a realidade bater na porta da forma mais cruel possível, e é exatamente isso que o filme (corajosa [e linda] mente) consegue emoldurar, na maior parte do tempo: O processo de desconstrução de uma femme fatale.

Jessica Chastain é um monstro, e merece papéis à altura do seu talento, tal como esse. Encarnando com os olhos a ousadia e otimismo de Molly, apegada mais a família que nos seus próprios princípios morais, tudo pouco a pouco desaba na sua história como empresaria, e é para um advogado nada ousado e realista (Idris Elba) que ela recorre, desesperada quando o castelo de cartas começa a desabar, mas sem nunca escorregar do salto ou manchar a maquiagem – exceto quando a mesma é manchada de sangue, na cena mais violenta de A Grande Jogada. Aaron Sorkin tenta polvilhar no filme inteiro essa elegância que uma atriz igual Chastain ostenta, e de fato é bem-sucedido nisso, entre seus diálogos inspirados (a citação ao livro Ulysses, de James Joyce, é irresistível pra ele), verborragia e sobretudo conflitos reais, e urbanos. Seus personagens não calam a boca, e isso não poderia ser mais divertido, afinal, apenas quatro mentes do Cinema americano conseguem transmitir a sensação de puro entretenimento através de diálogos ritmados: Os Irmãos Coen, Quentin Tarantino, e o próprio Sorkin.

Temos então o cara revisitando sua identidade já conhecida para quem acompanha seus trabalhos de perto, seja no Cinema ou em séries como The Newsroom, e filmando bem e com conforto o roteiro que é dele, num típico suspense dramático (ou seria um drama com ares de inerente mistério?) prontamente oriundo de uma mente labiríntica e que conhece muito bem a história de Molly de trás, pra frente. Um trabalho que, se não é marcante, é ultra decente e até impõe certo carisma nas construções de cena e do que extrair delas. Fica a vontade de ver o que Sorkin poderia fazer, enquanto cineasta, com um roteiro que não é dele, afinal fica fácil vasculhar, ser versátil e mandar bem com algo de autoria própria, certo? Mas o que a gente queria mesmo era ver essa Chastain de A Grande Jogada, toda vestida para matar e aqui fingindo ser o mulherão poderoso que Molly nunca foi, sendo dirigida pelo Brian de Palma dos anos 80, no auge da carreira. Ninguém pode afirmar o que sairia dessa parceria entre a atriz e o mestre, mas provavelmente, entraria para a história.

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