[Crítica] A Juventude

Juventude - poster

A terceira idade adquiriu um peso cujo significado se traduz por uma derrocada tanto do corpo quanto de estágios mentais. Uma concepção que aponta como o contemporâneo lida com tais valores em uma sociedade cada vez mais líquida, em que o novo é sempre louvado. A afirmação é delicada e profunda a ponto do próprio cinema evitar escalar atores velhos para certos papéis, visão que necessita ser mudada devido a uma percepção errônea.

Estágio natural a todos os homens, a velhice é tratada com desprezo por parte do pensamento ocidental e da indústria cultural. A maturidade e sabedoria advinda do acúmulo dos anos são ignoradas e transformam este período em uma área de isolamento. A Juventude, nova produção do italiano Paolo Sorrentino, versa sobre esta fase ao apresentar dois amigos, Fred (Michael Caine) e Mick (Harvey Keatel), passando as férias em um luxuoso hotel, valendo-se de um elenco de primeira linha para sua história.

O diretor ainda apresenta um estilo cinematográfico no qual o visual significa parte de sua mensagem. A trama desenvolve a amizade dos dois personagens e suas lembranças de épocas anteriores ao mesmo tempo que apresenta silenciosamente outros hóspedes do local, pessoas sem expressão, despidas, em uma suposição de que a própria vida está ausente. Inserida na questão estética, a contemplação é uma das bases fundamentais de sua narrativa. Cenários e personagens convivem em um espaço teatral, preservando uma situação que representa uma espécie de vazio em contrapartida ao que deveria ser prazeroso, vide o cenário natural do local com muito luxo.

Ainda que cada personagem seja particularmente normal, dentro deste cenário os papéis compõem um tecido díspar de humanos que parecem estar no local como tentativa de fuga. A filha que nega o término do casamento (Rachel Weisz); o velho maestro que não assume a morte da esposa; o diretor em derrocada que não assume seu fracasso. Dentro deste cenário, a figura de Jimmy Tree (Paul Dano), representando um ator talentoso cujo papel mais famoso foi em um filme-pipoca sobre um robô, observa a todos e constata, em determinado momento, o quanto o drama interno de cada um deles é rico em dilemas existenciais que devem ser explorados. Uma visão que parece compartilhar a impressão do público e, sem dúvida, a do próprio roteirista ao compor este quadro.

A juventude que marca o título da história se identifica com maior facilidade pela beleza. Um signo óbvio que estabelece um padrão estético ainda vigente, a beleza dionisíaca e a seu culto, um conceito de perfeição desenvolvida em eras anteriores. Ainda que coerente com sua metáfora, a bela cena que ilustra o imagético pôster internacional é um impacto parco em relação a outros símbolos inseridos na trama. A beleza da atriz é notável, e Sorrentino sabe conduzir a cena de tal modo que a mantém em uma contemplação ideológica entre a moça, o novo e perfeito, e os velhos, menores e destituídos do vigor da vida, com uma carga de admiração que não se sobrepõe ao apelo sexual.

De fato, o significado da juventude dentro do filme é múltipla. Contemplativamente parece representar uma visão idealista de um passado visto com admiração. Nesse aspecto, a juventude e a beleza, principalmente a feminina, seriam grandes representantes deste ideal. Em contrapartida, denota uma imaturidade a qual qualquer homem estaria sucessível quando não desenvolve um equilíbrio interno, uma juventude interna e cenário de incompreensão e imaturidade.

O filme mantém uma lacuna para a interpretação do público sobre parte dos símbolos desta narrativa, que é bem conduzida entre tais espaços para possibilidades e uma intenção firme de seu autor.