Crítica | A Mula

Clint Eastwood tem sido um diretor cujas obras recentes são bastante criticadas. 15h17: Trem Para Paris figurou em boa parte da lista de piores filmes de 2018, Sully foi considerado puramente um filme de herói dos Estados Unidos enquanto Sniper Americano virou motivo de piada sobretudo pela cena do boneco. Em A Mula o diretor retorna as origens, se coloca como o personagem principal, Earl Stone, um velho homem cuja vida pessoal e familiar é uma bagunça e que viu a oportunidade de mudar sua rotina ao se tornar entregador de um produto para bandidos.

O roteiro de Nick Schenk é baseado em um artigo de autoria de Sam Dolnick, e começa sua historia em um momento chave da vida de Earl, onde sua filha, Iris (interpretada por Alison Eastwood, filha do cineasta) está casando pela segunda vez. Como manda a tradição, ele deveria entrar com ela, mas como há uma premiação dos melhores lírios da região de Illinois e como ele as cultiva, ele perde todo seu tempo no evento e no pós evento. Logo a linha temporal vai para alguns anos no futuro, onde sua neta Ginny (Taissa Farmiga) irá casar, e caberia a ele pagar as bebidas, mas ele está falido, por não se adaptar a tempos com a internet.

Os dois momentos temporais tem algo em comum, o carisma e extrema gaiatice de Earl. Por mais que ele seja um pai / avô / marido ausente é impossível não simpatizar por ele, pois é engraçado, descolado, galanteador e cavalheiro. A idade avançada do personagem e de seu interprete não o impedem de atrair a atenção das mulheres, seja com galanteio ou com o dinheiro que oferece a elas, e seu modo de agir bon vivant o ajuda a prosperar dentro do novo negócio que empreende, mesmo que a chegada a esse ponto tenha ocorrido de maneira inesperada.

Há alguns exageros na transposição dessa jornada, e em alguns pontos o crescimento do personagem dentro da organização a que ele serve soa irreal, mas tudo isso é driblado facilmente pela persona do protagonista e por seu modo de levar a vida. Seus pretensos opositores, seja o chefe do tráfico de drogas mexicano Julio (Ignacio Serricchio) ou o detetive do FBI Colin (Bradley Cooper) conseguem ambos serem enrolados por ele. A experiência do senhor é posta a prova a todo instante e se excluir os momentos finais, praticamente não há falhas no seu modo de convencer as pessoas.

A obra de Eastwood é engraçada e dramática, harmoniza bem esses dois aspectos além de conseguir tocar em temáticas de suspense, Thriller e até de Road Movies. A direção de Clint é econômica e emocional, fazendo lembrar os melhores momentos de As Pontes de Madison, fundamentando isso com um personagem principal com carisma digno de Gran Torino e Dirty Harry, simples, direto, bonachão e muito querido.

No entanto, A Mula não é uma comédia, tampouco deixa de levar a sério os assuntos espinhosos que levanta. Toda a questão parental dos Stones é muitíssimo bem construída, em especial quando Mary (Dianne Wiest) está em cena, pois ela consegue expressar bem o amargor de uma mulher a muito abandonada mas que também guarda alguns dos sentimentos da época em que eram um casal, principalmente nos momentos finais desta. O filme poderia ter caído facilmente sobre uma abordagem piegas, mas foge dessa pecha da maneira extremamente elegante. A duração de todo o drama e o ritmo cadenciado faz com que este seja o mais notável e equilibrado da filmografia recente do realizador, certamente um bom momento que faz lembrar do seu auge com Os Imperdoáveis e outras obras de qualidade indiscutível, embora o filme não tenha vergonha em se assumir como não grandioso.

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