Crítica | A Noite do Jogo

Se há um gênero capaz de gerar discussão no cinema, esse gênero é a comédia. Humor é algo complicadíssimo de ser feito. O que é engraçado pra um, é chato para outro. Faça uma reflexão: quantas vezes você já contou uma piada que parecia ser engraçadíssima, mas que ninguém acabou rindo? Pois é. Agora aplique essa reflexão para o cinema. Pois é justamente no mais melindroso dos gêneros que A Noite do Jogo se aventura. E verdade seja dita: o resultado dessa viagem é dos mais divertidos.

No filme escrito por Mark Perez e dirigido pela dupla de John Francis Daley e Jonathan Goldstein (roteiristas do ótimo Quero Matar Meu Chefe e do péssimo reboot de Férias Frustradas), somos apresentados ao casal Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams). Extremamente competitivos, os dois se conhecem durante um quiz em um bar e se apaixonam perdidamente. Após se casarem, Max e Annie se tornam anfitriões de noites semanais de jogos onde reúnem os amigos para se divertirem e competirem entre si. Porém, numa dessas noites de jogos, o irmão mais velho (e babaca) de Max aparece repentinamente e as coisas já começam a desandar. Após tirar muita onda com a cara do caçula, Brooks (vivido por Kyle Chandler) desafia os amigos para uma noite de jogos definitiva: reunidos em sua mansão, terão que resolver um mistério que envolve um sequestro e um assassinato, tudo orquestrado por uma empresa de jogos, tal e qual o ótimo suspense Vidas em Jogo (dirigido por David Fincher e estrelado por Michael Douglas e Sean Penn). Porém, as coisas não vão ser tão simples assim.

Qualquer coisa que eu disser a mais sobre a trama pode vir a estragar alguma surpresa ou circunstância engraçada do filme. O roteiro de Mark Perez é muito bem amarrado e equilibra suspense, comédia e ação nas doses corretas. É muito interessante observar que o humor negro que permeia a trama não parece forçado em nenhum momento. Outro ponto interessante é a forma como o filme arranca boas risadas de algumas situações bem peculiares, tais como remoção de uma bala do braço de um personagem e os constrangedores diálogos entre o casal de protagonistas e o sinistro vizinho policial vivido por Jesse Plemons. Aliás, é na casa desse vizinho uma das sequências mais engraçadas envolvendo Max, um cachorro e um memorial para uma pessoa falecida. Entretanto, o roteiro não é tão simples como pode parecer. Pelo contrário, a trama vai se desdobrando e apresentando novas e mirabolantes situações que poderiam tornar o filme confuso à medida que fosse avançando. O que ocorre aqui é exatamente o oposto. Tudo é solucionado de forma natural, ainda que de forma mais ou menos mirabolante.

A direção inspirada de John Francis Daley e Jonathan Goldstein ajuda na fluidez do desenrolar da trama. Geralmente, um roteiro com tantos desdobramentos como o de A Noite do Jogo acaba sendo nocivo até mesmo para um diretor experiente. No caso da dupla, esse é apenas o segundo longa metragem que dirigem, mas Daley e Goldstein mostram maturidade de veteranos. O ritmo frenético que imprimem prega o espectador na poltrona, pois as sequências de ação muito bem orquestradas, com destaque especial para um jogo de “bobinho” que ocorre dentro de uma mansão e com um Ovo Fabergé. Destaca-se ainda, algumas transições de cenas que são feitas de forma a emular um jogo de tabuleiro. Já na parte cômica, o timing dos diretores é certeiro em vários momentos. A dupla ainda consegue arrancar atuações inspiradíssimas do elenco, com um destaque todo especial para Jesse Plemons (de Black Mirror). Sua interpretação para o vizinho policial viúvo atormentado é ao mesmo tempo engraçadíssima e perturbadora.

Grata surpresa de 2018 até o momento, A Noite do Jogo acerta em cheio ao equilibrar na dose certa humor negro, suspense e ação. Indo mais adiante, creio que já temos um forte candidato ao melhor filme de comédia do ano.

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