[Crítica] A Onda

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Em diversas passagens históricas a humanidade vivenciou o horror causado pelas ideias e comportamentos extremos de grupos que se julgavam superiores aos demais. No início do século XX, o nazismo imperou como um dos episódios mais cruéis já reportados e seu legado nocivo é lembrado até os dias de hoje. Nos Estados Unidos da década de 60, Ron Jones, um docente do ensino médio, tentou mostrar que um regime parecido poderia ocorrer novamente caso houvesse manipulação efetiva dos alunos, exigindo deles disciplina e comprometimento com uma causa. Esse acontecimento inspirou A Onda, filme alemão dirigido por Dennis Gansel.

Em seus primeiros minutos, a obra mostra o professor Rainer Wenger (Jürgen Vogel) entoando Rock ‘n’ Roll High School, música dos Ramones, trazendo um ar contestador, porém descontraído logo de início. Visando ensinar aos alunos que uma ditadura poderia surgir atualmente, Rainer os insere num regime liderado por ele e que possui suas próprias regras e objetivos. O carisma e a proximidade que tem dos jovens faz com que muitos deles participem ativamente de suas aulas. No entanto, alguns alunos questionam tal método e ponderam sobre o risco que ele pode acarretar.

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O núcleo estudantil é a representação ideal dos nichos a partir dos quais a narrativa irá desenvolver seu argumento; baderneiros, ‘populares’ e abastados são alguns dos grupos que possuem suas próprias regras, comportamentos e objetivos. Vemos também que os incapazes de integrarem esses grupos são rejeitados; o ‘bullying’ figura como um dos pontos debatidos ao longo do filme através do personagem de Tim (Frederick Lau); o rapaz não consegue se enturmar e é constantemente rechaçado por alguns colegas. Outro argumento levantado é a personalidade frágil de jovens sem perspectiva e carentes de uma causa pela qual lutar, que se deixa conduzir por um discurso inflamado e pela ideia de ser superior aos outros. Desse modo, Tim vê na doutrina de Rainer o estilo de vida ideal a seguir, e passa a envolver-se profundamente com ela.

A trama se desenvolve ao longo de cinco dias, durante os quais os alunos se dedicam inteiramente a tornar a Onda uma ideologia forte. Porém seu modo de agir passa a ser incisivo e, por vezes, agressivo, como hostilizar colegas ou outras pessoas que não concordam com suas diretrizes. Ao presenciar incidentes alarmantes dentro e fora da escola, Wenger decide concluir seu projeto ao final do quinto dia.

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Reunindo todos os membros do experimento no auditório da escola, numa passagem da película que parece aludir às grandes concentrações de pessoas guiadas por homens vis e sedentos de poder, Rainer decreta o fim da Onda, num discurso corrosivo e esclarecedor de que a ascensão de um regime totalitário seria possível nos dias atuais. O grande erro começa exatamente no ponto em que nos julgamos imunes a rendição perante um ideal, uma causa e aceitação no coletivo, e ao que faríamos para perpetuar esse status quo.

À exemplo de grupos radicais e governos tiranos que recrutam suas forças armadas através de promessas e garantia de grandes conquistas, e usam do extremismo para alcançar seu propósito, o desfecho no âmbito escolar de A Onda é estarrecedor e amargo. A lição é ensinada, os semblantes incrédulos e pesarosos de professores e alunos presenciam-na em sua forma crua, sem meias palavras ou amenidades. A última visão que temos do filme é a expressão aflita de Wenger, que parece temer o futuro pela culpa que irá carregar para o resto de sua vida e pela desolação em saber que atos extremos sempre vão acontecer.

Texto de autoria de Carolina Esperança.