[Crítica] A Opinião Pública

A Opinião Pública

Logo nos primeiros minutos de tela, são mostrados letreiros que indicavam quais apoios foram utilizados para a realização da fita. Os agradecimentos vão para órgãos de imprensa, como o Jornal do Brasil (com a adjetivação de grande amigo do Cinema Novo) utilizando muitas cenas de Maioria Absoluta, de Leon Hirszman. A ideia de Arnaldo Jabor era refletir o típico, fugindo do pitoresco, e explicitar quais seriam as esperanças da juventude carioca e qual a perspectiva dos professores sobre como seria o futuro destes jovens — torcendo para que estes fiquem longe do estereótipo da Juventude Transviada.

Segundo a narração, há um abismo enorme entre a realidade de adultos e dos jovens, como se estes vivessem em mundos distintos. O discurso dos homens novos é descompromissado e não é ligado a qualquer ideologia que não tenha a ver com preocupações banais, como ter dinheiro para o “mocinho poder sair com um broto”. Enquanto a fala dos pais preocupados preconiza a necessidade de achar a mulher certa, trabalhar para se sustentar e, claro, casar e valorizar a tradição, família e propriedade. Mais uma vez as realidades são muito díspares.

As entrevistas com os indivíduos do sexo feminino têm em seu conteúdo alguns pontos muito curiosos, mostrando algumas meninas muito crentes na possibilidade de encontrar sua alma gêmea e nas vicissitudes dos sentimentos, das paixões e no acaso do casamento. Um ótimo argumento é o de uma das pessoas perguntadas sobre a carnalidade do sentimento da paixão, discutindo o quanto é importante dar vazão ao coração e ao romantismo, e o quanto pensar em um futuro relativo ao sustento e a infraestrutura de uma vida saudável, levantando a rivalidade entre a “malandragem” e o trabalhador que exerce seu ofício arduamente.

Os baluartes da juventude direita são louvados como exemplos para os seus iguais em idade, fugindo do estereótipo da rebeldia contestadora e ligada às drogas. Os debates eram tratados como algo ruim, fétido e inconveniente, longe dos ideais de uma boa pessoa. O discurso se caracterizava como forma de enaltecer o apogeu econômico e a ascensão de classe, num pensamento tipicamente capitalista com ideário voltado a “subir na vida” e “tornar-se alguém”. O objetivo era mudar de classe e evoluir: a felicidade é uma forma de poder e não um prêmio para as virtudes.

A ideia do diretor é reproduzir como é o pensamento do brasileiro médio, demonstrando o quão alienada pode ser a opinião pública, característica fomentada pelo alto nível de desinformação e pela influência das autoridades dentro das redações dos jornais. Porém, não ignora que a relação entre sociedade e governo é simbiótica, e que a multidão tem sim sua parcela de culpa no estado em que o país se encontrava. A narração mais uma vez inclui um argumento baseado na burguesia: “O homem da classe média sempre é propriedade de alguém” — enquanto isto é falado, são mostrados jovens se alistando no serviço militar, com a orgulhosa pecha de lutar pela pátria, reforçando a ideia de que quem está fora desse molde de contestação zero está errado e sem possibilidade de obter sequer algo tão lúdico e intangível quanto a felicidade. O objeto de análise passa por um viés até filosófico. As pessoas ligadas à classe média se vitimizam, pedindo compreensão por parte da população por sentirem-se as mais afetadas pelo atual momento do país, sempre temendo pelo seu sustento.

Para os patrões, o brilhantismo intelectual é reservado às pessoas que ocupavam os altos cargos no empresariado. Os chefes sempre seriam os mais inteligentes e melhores preparados, enquanto aos operários sobrariam o voluntariado e a indispensável capacidade de se propor a quaisquer atividades que demandassem esforço físico e submissão absoluta. O cargo era o auge da vida do trabalhador: o povo teria de ser levado ao “pensamento de cordeiro”; a honradez era parte da uniformização populacional que obviamente escondia algo. Para o espectador com um pouco de discernimento, o conteúdo das falas dos “normativos” é muitíssimo mais subversivo que qualquer possibilidade (irreal e fantasiosa, evidentemente) de desapropriação de domicílio, e mesmo para os indivíduos mais conservadores, ao menos em uma pequena parcela, talvez cause a reflexão sobre o cunho de seu estilo de vida. A modernidade é vista como algo pejorativo e as outras corruptelas dão à película um ar de apologia à misantropia graças às mensagens nas entrelinhas das falas do sujeito comum. Claro, focando nos seus anseios fúteis e despreocupados com o contexto social, dando um significado especial à expressão “massa de manobra”.

Para o narrador, a classe média é produto do meio, sem origem definida por suas próprias mãos e sem nada a perder, mesmo que pense em ter alguma propriedade. A negação da miséria que assola o país é notória e conveniente. Sua movimentação política só é realizada quando há alguma mudança que possa interferir nos seus interesses. A iniciativa jamais parte dela; seu papel é a de vanguarda inocente da sociedade moderna, defensora de valores que lhe foram passados e inculcados sem muita motivação lógica ou racional, manipulados para movimentar-se até contra si mesma. Até por parte das lideranças deste contingente populacional, não há uniformidade no discurso. Jabor escolhe criticar a conivência do povo com o Regime, usando uma ironia fina, mas bastante explícita, apelando para aqueles que queriam ouvir e estavam ávidos pela discussão, disfarçando essa contestação com uma capa de propaganda do modo moral e correto de vivência. A essência do combalido Cinema Novo estava em seu filme e em sua mensagem.