Crítica | A Primeira Noite de Crime

Dando vazão a uma espécie de fetiche cinematográfico por narrativas de origem, a quarta incursão ao universo narrativo de Uma Noite de Crime, explora, como denota o título, os motivos que levaram a criação da lei do Expurgo, uma noite criada por lei em que os crimes não possuem punição da justiça. Uma ação visando aplacar o estresse dos cidadãos.

A narrativa que se iniciou em 2013 como uma história de terror foi se descolando desse gênero a cada sequência. Aprofundou-se, na medida do possível, sem perder a tônica de uma história pautada para o entretenimento, em  uma análise social sobre a sociedade que permitiu tal mudança de paradigma. O primeiro filme focava na tensão de uma família aprisionada em casa; O segundo mostrava como as ruas lidavam com os fatos; a terceira parte acrescentava a tensão política e contrapunha questões sociais entre os ricos que podem se defender do expurgo e os mais humildes que buscam sobreviver a noite.

Nesse novo ato, temos um breve panorama da queda econômica americana e um estudo psicológico que justifica a violência controlada como forma de aplacar a violência aleatória. Para executar o primeiro teste, um bairro de Nova York, em que se destaca a população de baixa renda da cidade, foi escolhido.

Ampliando a análise politica vista anteriormente, mesmo que de maneira breve e pontual, a trama se situa como uma observadora dos tempos presentes estabelecendo o binômio básico entre dominante e dominado. De um lado, os detentores do poder e a composição da esdrúxula lei do expurgo. Do outro, a população oprimida cuja duas únicas opções são sair da cidade, abandonado o próprio lar por uma noite, ou ficar no local e ganhar uma pequena quantia estipulada pelo governo como participação no evento. Diante da necessidade, evidente que muitos personagens decidem ficar.

Ao ler ou assistir narrativas distópicas, muitos se perguntam quais estruturas levaram a composição desse universo opressor. Talvez o que poucos percebam é que tais ações acontecem de maneira gradual. O universo antes do expurgo, por exemplo, representa obviamente momento mundial atual. Diante de um momento em que se destaca certa falência democrática, a ascensão de um novo fascismo, e outros direitos cambaleantes, o fio entre ficção e realidade parece se esgarçar, dando-nos a impressão que o futuro pode ser mais tenebroso do que se parece.

Evidentemente, tais reflexões surgem a partir do filme e não inseridos como fundamento dentro de sua estrutura. A franquia, em geral, é voltada para o suspense. Sob esse aspecto, Gerard McMurray que assume a direção nesta sequência executa boas cenas de ação, dando maior dinamismo para sequências que comparados aos anteriores não funcionavam tão bem. Cenas em plano-sequência se apresentam bem encenadas e em um dos atos finais da trama, o som de um alarme aliado a falhas elétricas estabelecem com qualidade a tensão final.

Talvez o maior erro do filme seja não se aprofundar por completo em questões levantadas pontualmente, argumentos que sustentariam um interessante filme social sobre a opressão das lei. Mas talvez a franquia como um todo não tivesse essa intenção. Mas se estabelece bem como entretenimento que promove também certa reflexão ainda que pautada em algumas bases narrativas comum ao gênero de suspense.

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