Cinema

[Crítica] A Terra e a Sombra

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A Terra e a Sombra 2

Cesar Augusto Acevedo introduz seu filme de modo puramente visual, mostrando imageticamente os meandros por onde a vida escapa e em que curvas a existência se torna complicada. A Terra e a Sombra é uma história de sofrimento, amargor, confronto ao passado, focada em pessoas cujas mãos calejadas servem de introdução aos seus dramas, complicados e complexos de um modo que qualquer sinopse simplesmente não consegue resumir.

Alfonso (Haimer Leal) é um homem velho e seu andar lento e gradual determina sua condição e de idade, bem como pontua sua saúde ainda não tão debilitada, especialmente em comparação com os outros personagens, membros de sua família. O resignado homem atende ao chamado dos seus, de retorno a sua terra após 17 anos ausente, enxergando em sua antiga casa um ambiente e cenário completamente mudado, sendo recebido por sua nora Esperanza (Marleyda Soto), que rapidamente o “apresenta” ao seu filho, Gerardo (Edison Raigoza), que está acamado e impossibilitado de trabalhar na coleta de cana de açúcar.

Neste micro universo, são postos dois aspectos importantes, o primeiro, da casa comandada pelo matriarcado de Alicia (Hilda Ruiz), que tem em seu doce nome uma contradição de sentimento enorme, dada sua clara indocilidade. O tratamento da mulher ao recém-chegado “visitante” é frio e cheio de amargura, reação imediata do abandono que o sujeito fez no pretérito, e que se tornou a partir daí uma figura estranha, até para os que algum dia foram seus. A desolação de alma da matriarca também ocorre graças ao trabalho que ela e Alicia fazem, no lugar de Gerardo, sendo elas as únicas funcionárias que aceitam trabalhar nas condições de quase greve que os canavieiros tentam impor, já que não são pagos.

Apesar de aventar uma situação política bem estabelecida, mesmo com poucas cenas, o roteiro de Acevedo prioriza as condições paupérrimas, econômicas e emocionais do clã, usando o pragmatismo para explicar e até justificar a submissão das mulheres às péssimas condições de trabalho, o que gera não só um mergulho mais profundo nas necessidades daquela família, como serve de aspecto universal ao drama de muitos trabalhadores humildes, que não têm qualquer esperança de igualdade empregatícia.

No entanto, o tema mais caro ao argumento são as relações de uma família devastada, e a simbiose presente entre as gerações, fato que impede Gerardo de tentar voar solo, bem como de tratar sua doença, que só se agrava graças à hostilidade das queimadas que ocorrem ao redor de sua casa. A dificuldade em se ver livre do pesado julgo de sua mãe revela apatia e comodismo com o que está claramente errado, além de uma surdez seletiva, onde mesmo o moribundo, ignora completamente os apelos de sua “amada” esposa, fazendo dele um personagem indigno de torcida, pondo-o no mesmo nível de empatia de seus pais.

O sistema opressor de A Terra e A Sombra é basicamente matriarcal, como em eras passadas, ratificando por um entorno também ligado ao passado. A tentativa de transportar este sistema para o patriarcado se mostra tardio, mesmo ganhando espaço como a possibilidade do “último recurso”. A decisão de Gerardo por sair da zona de desconforto é lenta, não passando de um embrião. O desespero dos residentes é tamanho que a falta de opção de saídas se manifesta apenas pela possível troca de um regime opressor para outro, ainda que aparentemente a figura de Alfonso seja mais dócil do que a de Alicia.

A crônica sobre abandono se dá pela posição do conflito e pela inércia em não evoluir, mesmo diante de todas as consequências dos pecados do passado, fator que faz de A Terra e a Sombra um conto de desesperança caro e sensível, como pouco se vê no circuito comercial de cinema.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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