Crítica | A Terra é Plana

O filme documentário de Daniel J. Clark, A Terra é Plana não tenta lançar uma luz sobre a realidade dos que tem a tola crença de que a Terra não é redonda, e sim trazer esclarecimentos sobre os adeptos do terra planismo, tentando compreender o que faz com que essa teoria da conspiração seja tão difundida e reúna tantos crentes em torno de si, claro, tendo algum humor nessa abordagem.

O começo do longa é tímido, embalado por uma música pop, e soa engraçado ao analisar a figura do conspirólogo Mark Sargent. Já nesse inicio, o personagem “biografado” afirma que todas as imagens do espaço são falsas, e ele fala com uma convicção que chega a assustar. É temeroso que certas verdades universais sejam tão discutidas, e não no sentido de talvez jogar uma luz e discutir a validade delas, aqui o que se vê é meramente a substituição de fatos cientificamente comprovados por frágeis suposições que põem em cheque o formato do planeta.

Mark ainda vive com a mãe (que alias, é entrevistada e dá declarações bem pesadas), e compara a realidade “globalista” ao Show de Truman, protagonizado por Jim Carrey, o que é uma ofensa a qualquer pessoa que tenhoa feito parte da produção do filme. Fanático por conspirações, o sujeito através dos videos que subia no youtube e de falas que fazia em seu pequeno blog foi ganhando notoriedade e fama, principalmente dos que assistem a plataforma e entre os ouvintes de podcast, onde pessoas curiosas e sem qualquer embasamento cientifico por não terem capacidade de refutar o que ele afirma de maneira veemente. A ignorância e incapacidade de desmistificar  algo não é prova de que aquilo é real, e isso é tão básico que nem deveria ser debatido.

A vida pessoal de Mark é largamente exposta, é impressionante a entrega dele ao filme. Sua rotina pouco usual inclui não só o fato de morar e ser  sustentado por sua mãe, mas também algumas pseudo relações amorosas que trava. Nesse ponto, o filme soa até um pouco cruel, mostrando um dia a dia melancólico, em que o celibato não parece ser transposto, mas retratar essa realidade pode ser importante, não só para compor o “personagem” mas também para humanizar Sargent, além de servir para entender como funciona o modo o operar dessas pessoas, exemplificando dificuldades de aceitação, de socialização, tornando problemático até o messianismo que ele possui, discutindo se o mundo precisa mesmo de profetas como esse.

É bizarro como se forma um grupo de crença, baseado em reuniões de meias verdades, e de estudo científicos pegos somente das partes que são convenientes ao pensamento quase dogmático dos que defendem essa sandice, quando não são meramente pseudo científicos mesmo, ajudando a formar uma crença frágil que se torna mais fraca quando cresce e é propagada. Qualquer  discussão decente o mínimo que seja já faz desbaratar esses argumentos  facilmente, mas ao invés disso, o que se vê são discursos inflamados de negação, e claro, pessoas que aderem ao “culto” cegamente.

Dentro do núcleo de terrraplanistas, há guerra de egos e fogueiras de vaidades, onde “adversários” de Mark brigam com ele pela autoria dos pensamentos, mostrando que a paranoia é maior até que a crença, onde os adeptos não se unem tanto, e buscam na verdade notoriedade acima até da crença em comum. Figuras como Math Powerland e Patricia Steere dividem com Mark os holofotes da desinformação e conspiração, em alguns pontos caminhas juntos e em outros, separados. É fato conhecido – e até um comentário lugar comum – que boa parte dos progressistas tem dificuldade em tornar palatável seu discurso, soando academicista ao extremo, mas culpar os cientistas pelo surgimento desse tipo do movimento é ridículo, não há o que discutir dentro dessa mentalidade obscurantista e louca. O próprio diretor afirma que sempre olhou com desconfianças para os que faziam esse tipo de conteúdo, alegando que eles na verdade ou eram fakes ou trolls, mas ao investigar, ele percebe que boa parte realmente acredita nisso.

A raiz para perceber o motivo dessa crença, pode morar também na presunção e no culto ao saber errado, onde o ignorante, do alto do seu desconhecimento percebe que pode estar sendo enganado a vida toda, culpando terceiros por sua ignorância ao invés de notar que a raiz para a desinformação passada, é exatamente a falta de conhecimento ou dificuldade de agrupar idéias de estudo em mente. É mais fácil se auto enganar, afirmando que há um conluio para mentir a todos do que perceber o próprio abismo de  segurança, lembrando evidentemente que as pessoas que defendem isso estão longe de ser pessoas sem acesso a conhecimento, informação ou afins. Quando a educação não é libertadora abre-se espaço para todo tipo de sordidez e distorção do real.

Resta uma curiosidade  em quem termina de assistir o longa, de se Mark Sargent assistiu o corte final, incluindo as cenas que sua mãe diz ter vergonha do envolvimento do filho nisso, uma vez que a mulher é bem franca, mas nada do que a senhora fala é tão grotesco quanto os momentos finais, na conferência a respeito do assunto da Terra Plana. Quando o palestrante abre a palavra ao público, só responde obviedades, e é quase monossilábico, não consegue traçar qualquer resposta aos questionamentos que não seja “sim” ou “não”, quando muito, ele elogia quem o inquere, em nome de uma suposta trama dos globalistas. Aparentemente não é rasa só a argumentação em torno do que pregam as figuras de estudo de A Terra é Plana, como também é frágil a psique dos que propagam esses  argumentos vazios e ilógicos, como se fossem preceitos religiosos sacros.

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