Crítica | A Valsa de Waldheim

De Ruth Beckerman, A Valsa de Waldheim começa em maio de 1986, com uma filmagem encontrada em uma fita VHS antiga da diretora, em uma manifestação a respeito da candidatura de Kurt Josef  Waldheim, político carismático e amado pelo povo austríaco, mas que tinha um passado nebuloso e bastante confuso. Beckerman era oposição a ele, e suspeitava que a aparência de bom velhinho escondia algo.

O filme é narrada pela diretora, fato que proporciona ao filme uma aura de pessoalidade extrema, mesmo que o objeto focado seja uma figura pública tão polêmica. Uma das situações que mais marca no depoimento de Beckerman é a descrição dos gestos que Waldheim vivia fazendo, sempre com movimentos de mãos que imitavam abraços. Sua linguagem corporal transparecia o seu discurso, de ser o homem da família. As filmagens de 86 lembram Opinião Pública, de Arnaldo Jabor, e em muitos outros momentos esses dois filmes conversam.

O longa participou do Festival de Berlim esse ano, e curiosamente a história apagada de suas filmografias tem proximidade com a Alemanha, uma vez que ele foi um ex-soldado da SA (abreviação de Sturmabteilung), polícia de assalto nazista. Em alguns materiais biográficos, fala-se que ele foi dispensado por doença, e em algumas entrevistas ele simplesmente nega que tenha servido, apesar de seu nome constar nos registros e essas contradições fizeram sua reputação cair ainda mais. A diretora escolhe muito bem algumas imagens de julgamentos onde o filho do político passa uma vergonha tremenda ao tentar defender seu pai, ao mesmo tempo em que as autoridades internacionais afirmam que ninguém além da família dele acredita nessa versão açucarada que a campanha faz dele.

Waldheim antes de tentar a presidência foi embaixador da ONU, pessoa respeitada apesar de ter em seu passado fatos que depunham contra si. Quando representava a Áustria em uma solenidade relacionada ao holocausto, ele não cobriu a cabeça como manda a tradição e a repercussão apesar de negativa, não foi tão execrada quanto poderia. Há um trecho de falas do político que se destaca em meio as muitas coisas que ele falava, todo momento ele perguntava se durante a segunda guerra mundial só morreram judeus. Beckerman quer reforçar ao público que esse argumento é tendencioso e perigoso, podendo esconder um preconceito interno e a vontade de se vitimizar para esconder os seus próprios pecados.

Houve uma espécie de anistia aos austríacos nazistas e durante anos se acreditou que a Áustria não contribuiu com o Terceiro Reich, sendo sempre encarada como vítima, apesar da presença de pelo menos 550 mil nazistas no país. A construção da figura de homem justo em torno de Waldheim é muito bem orquestrada e conversa demais com algumas figuras políticas atuais, entre elas Jair Bolsonaro ainda que no caso do brasileiro essa construção seja muito mais escrachada e desavergonhada quando se trata de discurso de ódio. Ao final, uma cena chama a atenção: Kurt discursando para o povo em meio a uma forte chuva, uma amostra de sua importância para a população em geral.

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