Crítica | A Vida Invisível

Karim Aïnouz é o diretor do filme que representara o Brasil na corrida pelo Oscar de filme estrangeiro. Ao contrário do que houve entre Pequeno Segredo e Aquarius, a barracão de Bacurau não foi nada mal vista, afinal, A Vida Invisível tal qual o filme de Kleber Mendonça Filho, foi muito bem nos festivais internacionais, e não à toa, já que a jornada das irmãs Guida de Julia Stocker e Euridice de Carol Duarte além de apresentar uma realidade dura e pragmática, ainda consegue ser algo belo e bastante tocante.

O inicio do filme é contemplativo, passeia por passagens rurais dentro da capital fluminense dos anos 50, onde dá para ouvir a água corrente caindo sobre os muros e chãos das casas suburbanas do bairro de São Cristóvão. Essa entrada é bastante lírica, e faz jus a adaptação ao livro de Martha Batalha. A historia começa com a ternura da relação das irmãs Gusmão, que vivem no Rio antigo e são criadas por uma família de origem portuguesa e viés conservador. A vida faz com que as duas se separem, cada uma tomando um rumo amoroso diferente, e essa distância  não é cortada, mesmo que ambas tencionem se encontrar.

Euridice é uma artista nata, toca muito bem piano, enquanto Guida é enérgica, divertida e muito amorosa. As duas, belíssimas quando novas, tem sua inocência invadida, uma por escolha própria e outra via casamento arranjado. A forma como a historia mostra os sonhos de ambas morrendo reúne coincidências no destino das duas – em especial na rejeição a maternidade – e claro, o descontentamento com a rotina que levam, já que ambas imaginavam que teriam linhas de vida bem diferentes.

A forma como o roteiro de Aïnouz, Murilo Hauser e Inés Bortagaray trata a intimidade das moças é sui generis. O sexo praticado é sempre impessoal, agressivo, na maioria das vezes mal é consentido, e serve bem ao propósito do filme, de mostrar vidas falhas e trajetórias fracassadas as margens do Rio de Janeiro, um cenário bucólico e decadente, bem distante do que comumente é associada a Cidade Maravilhosa.

As historias marginais de ambas mesmo na melancolia soam inspiradoras e belas, e mesmo os personagens com posturas que se aproximam da vilania não são registradas de maneira maniqueísta. Cada pessoa é tridimensional, tem aspectos de comportamento positivos e negativos, como qualquer ser humano comum.

A forma delicada como se trata temas como psicose, depressão e saudade também é absurdamente positiva, as confusões sentimentais são bem pontuadas pela entrega das interpretes. Julia Stockler é deslumbrante em tela e o trabalho corporal de Carol Duarte é absurdo, ela consegue imprimir idades bem diferentes, mudando basicamente a sua postura, retratando bem a condição de uma pessoa depressiva basicamente com expressões corporais e com formas de se manter ereta.

Mesmo os saltos temporais (bem grandes, por sinal) são bem encaixados, e mostram uma justiça tardia sendo cumprida. A Vida Invisível registra uma historia familiar conturbada, que representa bem o dia a dia dos brasileiros, que vivem entre o cuidado e o desprezo dos mais próximos, e também representa bem como a vida pode ser cruel, curta e irônica, isso tudo pontuado por atuações incríveis, mesmo em participações especiais como a de Fernanda Montenegro, que é só um dos bons desempenhos dramáticos que o filme apresenta.

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