[Crítica] Acossado

Acossado 1

Ainda em início de experimentações e variações de sua Nouvelle Vaugue, Jean Luc Godard iniciava sua película Acossado resgatando alguns elementos do estilo noir, visto no cinema norte-americano, com a fotografia em preto e branco, que lembrava a neblina dos filmes de detetive, além de resgatar o som e figurino típico deste estilo, contando com metais fortes na trilha sonora e chapéus, que escondiam os rostos de sua personagens, bem como disfarçava as reais intenções das pessoas retratadas pela inquisitiva câmera do realizador e crítico de arte.

A proposta ensaística se equilibra junto a fluidez narrativa das falas de suas personagens, que abusam da verborragia para mascarar inseguranças, o que claramente faz eco com muitos discursos ligados a moral atual, o curioso é que tal artificio é executado por Michel  Poiccard, um personagem que é um fora da lei, e que tem sua trajetória contada através de uma sequência de cortes de estilos completamente diferentes entre si, referenciando certamente a confusão e contradição mental em que está inserido.

A correria estilística abarca alguns acontecimentos que parecem ocorrer ao acaso, mas que funcionam mais para flagrar os limites da moralidade do homem comum e até onde o sujeito pode ir em busca de um desejo que se choca com a normalidade tradicional. O Michel Poiccard de Jean-Paul Belmondo é a priori um homem comum, que vê a possibilidade de ascensão social via furtos e assaltos, não hesitando nenhuma vez quando a oportunidade lhe aparece, desmistificando a ideia comum de que o mal brota no coração dos incomuns, elevando o conceito de contravenção ao simples fortúnio de sua possibilidade, além das claras tentações carnais que sobrepõem a sua existência.

Acossado 4

As sensações de prazer e desejo pelo perigo se agravam quando Poiccard se encontra com Patrícia Franchini (Jean Seberg), em um movimento que era supostamente por coincidência, mas que se revela profundamente integrado com o destino, já que a apreensão pelo proibido é comum entre ele e ela. Aos poucos, eles formam o casal prefeito, reprisando o amor pelo censurado, ilegal e proibido, utilizando a tela para dar destaque as pulsões previstas em estudos freudianos como inexoráveis a psique do individuo.

 O desfecho tanto do pretenso romance, quanto do filme guardam louvor ao ocaso, valorizando o completo caos de mentes vazias, com uma lente afiada que acompanha a inútil tentativa de fuga do protagonista, um personagem que foge completamente dos arquétipos belos do herói clássico e paladínico. Nem mesmo na despedida entre os entes amorosas há espaço para sentimentalismos bobos e maniqueísmos, fazendo lembrar a face selvagem do homem, que opta por se aproximar daqueles que lhe produzem asco. O máximo de alegoria normativa que Godard permite ao seu filme, é este, de perseguir o párea, ainda que ao final este seja um mártir, o acuado e atormentado homem que dá título ao filme.