Cinema

Crítica | Alabama Monroe

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O sul dos EUA, a parte do racismo, pobreza, fanatismo religioso e outros problemas, possui uma produção cultural riquíssima, digna de atenção do mundo todo, e não são poucos os músicos e outros artistas que foram influenciados por suas invenções, mesclas de cultura dos africanos e europeus, como o blues, country (com todas as suas variações) e depois, o rock. Essa aura musical é pano de fundo para o longa belga The Broken Circle Breakdown (Alabama Monroe), de Felix Van Groeningen, indicado ao Oscar 2014 de Melhor filme estrangeiro.

O filme conta a história do casal Elise (Veerle Baetens) e Didier (Johan Heldenbergh). Ela, uma tatuadora com toque pin-up e ele um fanático pela cultura hillbilly e bluegrass do sul dos EUA, tendo inclusive um grupo musical que toca músicas do estilo... na Bélgica. Ambos possuem uma filha pequena, Maybelle (Nell Cattrysse) que fica gravemente doente, colocando em risco toda a relação entre eles.

Uma das razões para o filme funcionar tão bem, e ter a carga dramática, pesada, tão bem medida, é a montagem. Ao alternar cenas fortes como da filha doente com cenas do passado, do casamento, do nascimento de Maybelle e seus pequenos momentos de descoberta, o espectador consegue dosar a brutalidade de uma doença terrível como o câncer infantil e lidar melhor com os sentimentos. Quando Maybelle morre, somos apresentados ao momento em que Didier e Elise se conhecem. Não fosse isso, provavelmente a experiência de ver o filme se tornaria provavelmente insuportável.

Outro destaque vai para a trilha sonora, composta por canções originais e regravações de clássicos de bluegrass, executadas pelos protagonistas Heldenbergh, Baetens e Bjorn Eriksson no grupo The Broken Circle Breakdown, que dá nome ao filme. As músicas, reconhecidas por melodias simples e muitas vezes melancólicas, conduz a história quase como um personagem a parte, mais ou menos como os irmãos Coen fizeram em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você, inclusive com a repetição de uma música já usada no filme protagonizado por Clooney, “Didn't Leave Nobody But The Baby”, em um belo, mas trágico momento do filme.

Trágico, inclusive, é o que melhor traduz o avanço da história, ao mostrar como um casal, por mais conectado que seja, dificilmente consegue superar a perda de um filho. E essa dor traduz em agressões verbais entre Didier e Elise, que apesar de se amarem, não sabem o que fazer com aqueles sentimentos, explodindo para fora.

A trama, pessoal até então, derrapa um pouco ao tornar Didier porta-voz de um discurso político pró-ciência e anti-religião. Ao se passar no momento em que o presidente Bush proibia as pesquisas com células-tronco nos EUA, há uma mudança pouco natural na temática e que torna o sentimento de Didier artificial, apesar de ser clara a tentativa de mostrar um homem racional tentando lidar, a sua forma, com uma dor tão grande.

O contraponto interessante nessa parte se dá justamente ao colocar uma figura clássica do sul dos EUA, o presidente George W. Bush, notável conservador e representante da ideologia da maior parte da população da região, vai contra uma pesquisa de células-tronco por motivos religiosos, uma pesquisa que, com a contribuição dos EUA poderia estar mais adiantada e ter salvado a filha do casal. Ou seja, a mesma cultura capaz de produzir uma musicalidade tão formidável produz seres como Bush, responsáveis por desgraças imensas. Didier e Elise aprendem, do jeito mais duro, de que a cultura não é inseparável, e que o sul dos EUA trazem uma carga pesada junto a música.

Essencial também é notar como Didier, ao melhor estilo da música sulista em sua origem, não é um simples produto de consumo como em nossa sociedade, mas sim uma manifestação artística que une pessoas e as ajuda a passar por momentos difíceis, o que a população negra da região sabe muito bem. Portanto, ao utilizar a música nos momentos mais trágicos do filme, há essa lembrança essencial da real função da arte, a de nos trazer uma reflexão sobre as pessoas, o planeta, e principalmente, sobre nós mesmos.

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Texto de autoria de Fábio Z. Candioto.

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