Crítica | Aladdin (2019)

O live action de Aladdin que Guy Ritchie dirigiu finalmente chegou aos cinemas, e sua recepção foi mista, de maneira justificada, dado se tratar de um filme irregular. A dúvida a respeito da fidelidade com o material original é respondida rapidamente, pois seu começo é diferente da animação, se situando em um navio e não no deserto, em uma variação interessante do conto inicial visto no longa de 1992.

A ação segue com semelhanças enormes com a franquia de games Prince of Persia, tanto na encarnação do jogo clássico de 1989 quanto em suas reformulações pós-anos 2000. No entanto, em seu desenvolvimento dramático existe uma enorme pressa no tocante as conexões sentimentais, trabalhando essas relações apenas posteriormente. O texto é pouco inteligente, faz até estranhar em algumas de suas decisões, possivelmente causando confusão no espectador que não tenha a história do filme original fresca em sua memória, errando na maioria de suas escolhas ao refilmes as primeiras cenas que remetem aos momentos clássicos da animação.

Mena Massoud se atrapalha um pouco ao tentar fazer um herói encantador e incompreendido, mas não compromete tanto, já Marwan Kenzari até tenta, mas o roteiro não permite muito além do clichê de vilão maniqueísta e didático. Naomi Scott brilha em praticamente toda cena que surge, sua Jasmine foge do estereótipo fútil de garota rica e apresenta uma mulher cheia de resoluções e ambições políticas, buscando entender os anseios e necessidades das camadas mais populares, nem que para isso ela precise romper com tradições milenares. Sua presença é soberba, melhorando até mesmo as interpretações de Massoud quando juntos. O desconcerto de Aladdin diante dela também é visto no desempenho dos atores, até porque o desejo da moça é expandir, conhecer novos mundos e pessoas, e não ficar restrita aos mesmos cenários, enquanto a dele, é provar ser mais que um simples larápio.

Jafar é o calcanhar de Aquiles da produção em matéria de narrativa, tem um passado interessante, mas seu comportamento é mal desenvolvido e não justifica em nada toda sua oposição ao sultão, ao palácio e a Agrabah. Sua obsessão por poder é mal explicada. Pior, seu parceiro, Iago, que no original é engraçado e o segundo melhor alívio cômico, é sub aproveitado, não tendo qualquer graça ou um mínimo de carisma.

Apesar de o começo tropeçar na falta de identidade que Ritchie insiste em colocar em seu filme, não decidindo entre ser uma cópia literal do outro filme, como foi A Bela e Fera, ou uma nova versão do conto (aliás, quando apela para isso o filme soa muito mais maduro), do segundo terço em diante há uma enorme melhora, não à toa isso acontece após a aparição de Will Smith como Gênio da Lâmpada. Sua animação em computação gráfica prossegue estranha em alguns momentos, mas é aceitável na maioria. Ele é divertido, carismático, faz piadas com linhas de tempo diferentes e é metalinguístico. O Gênio da Lâmpada rouba a cena sempre que aparece e faz uma versão inspirada, ainda que diferente da hiper cartoonizada que Robin Williams emprestou a voz na década de noventa. Smith é puro carisma, um verdadeiro mestre de cerimônias,  encantador como há muito tempo não era.

A problemática mora na questão de quando não estão presentes Gênio ou Jasmine em tela, todo o resto empobrece, e perde as cores. Nem Aladdin e os outros coadjuvantes são inspirados, o que é uma pena, pois o desenho antigo era repleto de bons personagens, ainda que contassem com pouquíssimo tempo de tela. Dentro dessa mentalidade de comédia, a cena de dança em que Ali Ababwa é ao mesmo tempo tosca e maravilhosa, e resume bem o espírito que o filme tem, ou ao menos o que ele tenta alcançar, não se levando a sério ao mesmo tempo que é feito com muito esmero e carinho.

Esta versão de Aladdin varia entre o épico, com Jasmine e sua ideia de governar para o povo, e o patético com Jafar e sua obsessão pelo poder, repleto de textos expositivos e contando com um vilão unidimensional que não faz o expectador crer em nada, e é nesse meio termo difícil que o filme tenta se equilibrar, ainda que seja muito mais divertido e animado, legitimando a pecha de filme de princesa, para o bom sentido, inclusive invertendo o protagonismo quando quer, e é nesses momentos, que o filme de Ritchie mais é exitoso.

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