[Crítica] Alemão

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No início da noite de 26 de novembro de 2013, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, com o apoio da Polícia Federal, Polícia Civil e das Forças Armadas, cercou o Complexo do Alemão, localizado na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, para iniciar uma grande operação de retomada com o intuito de pacificar o local.

A trajetória das UPP – Unidades de Polícia Pacificadora – ainda permanece no cerne de grandes discussões políticas e nunca teve aceitação completa da população brasileira. Profissionais em segurança, policiais, políticos e até famosos expuseram seus pontos de vista entre os prós e contras destas operações realizadas em diversos morros do Rio.

A trama de Alemão utiliza a invasão policial como pano de fundo da ação. A produção inicia-se com cenas televisivas sobre o acontecimento, e, em cena, somos apresentados a um grupo de policiais infiltrados no local para informar in loco o desenvolvimento da ação. Mudanças de táticas feitas pelo alto escalão e o bloqueio – também planejado – dos sinais de transmissões deixam estes policiais às cegas, sem saber qual procedimento seguir e acreditando ter entre eles um traidor em potencial.

Diferentemente de uma história que explora a questão policial e a favela ou de um argumento que explora de maneira global os acontecimentos, tomando ou não partido de um lado, boa parte da ação inicial se desenvolve no interior de uma pizzaria, ponto de encontro do grupo infiltrado. Sem nenhuma informação da Inteligência, os agentes estão em campo desconhecido e de olhos vendados. Há uma sensação de um drama de guerra, com personagens sitiados no fronte inimigo tentando sobreviver e sem se revelarem. Conforme as horas em confinamento se estendem, as discussões ficam acaloradas e os ânimos começam a se acirrar.

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O policial é apresentado como uma figura frágil, independente de sua personalidade, que faz da coragem a guia para seguir em frente. O grupo aprisionado é representado por tipos característicos de outras histórias policiais: o homem esquentado sem nada a perder; aquele que focaliza sua força na família; outro que, embora não tenha talento tático, é hábil com a inteligência. Forma-se, assim, um grupo heterogêneo de investigação. Em comum, todos possuem a dúvida em relação à eficiência da operação e sabem que foram esquecidos pela corporação. Devem se virar por conta própria, sem qualquer heroísmo, se quiserem sobreviver.

Formado por grandes atores com domínio dramático, visto em outros longas-metragens ou em novelas televisivas, o quinteto formado por Caio Blat, Milhem Cortaz, Otávio Müller, Gabriel Braga Nunes e Marcello Melo Jr é responsável por sustentar a parte inicial da trama de maneira favorável. O drama que aflige os policiais ultrapassa a barreira da profissão, e o público, mesmo contrário às políticas estabelecidas, reconhece o histórico pessoal de cada um dos envolvidos.

Do lado de fora desta intriga, dois polos contrários também estão em cena. A polícia representada por Antonio Fagundes, um dos chefes da invasão que conduziu a operação dos infiltrados, e o bandido dono do morro, um jovem apelidado de Playboy por sua pose rica e ostensiva, interpretado por Cauã Reymond. Fora do confinamento, a história não tem a mesma intensidade. A representação da polícia feita pelo Delegado Valadares (Fagundes) é de um sistema que mal reconhece sua própria estrutura. O delegado perde qualquer comunicação com sua equipe e, não querendo que o erro caia em sua mão, omite esta problemática dos outros, tentando resolver à sua maneira o resgate de sua equipe. Uma demonstração da fragilidade da operação como um todo. É questionável como uma operação de grande porte possa suportar erros como este apresentado.

Enquanto isso, do outro lado da lei, o bandido de Raymond passa a maior parte do tempo apenas contemplando de maneira fria a queda de seu império, talvez incrédulo de que uma operação deste estilo fosse implantada de fato. Salvo um relacionamento amoroso que lhe deixa apreensivo, o personagem não tem carisma e não produz sentimento algum no público. Ao contrário de outros personagens limítrofes entre a lei e a sobrevivência, vistos em Cidade de Deus ou Tropa de Elite.

A semelhança do estilo narrativo deste filme em relação aos outros é visível. E, de fato, sem o sucesso de Cidade de Deus ou Tropa de Elite, um filme como Alemão talvez seria produzido de maneira diferente. A estética visual que foi consagrada imprimou verossimilhança a tais tramas e não sem razão é retomada; difícil seria uma história sobre polícia e tráfico sem esta influência. E o resultado desta aproximação é um roteiro que modifica sua estrutura em sua segunda parte ao escolher mostrar ângulos diferentes de uma mesma situação, fazendo da boa proposta inicial do confinamento obrigatório se perder em cenas de ação e em resoluções que negam os próprios argumentos desenvolvidos entre os policiais sobre a questão da humanidade e o heroísmo. Se nem mesmo a produção tem confiança no argumento inicial que se propõe, não há público que não perceba a fragilidade da história, que decide a saída mais conhecida para uma história já conhecida pelos brasileiros.