[Crítica] Alien Covenant

Na época em que foi lançado, Prometheus sofreu de um mal de identidade. Para muitos, era a prequel de Alien: O Oitavo Passageiro, já para seu diretor Ridley Scott e seu roteirista principal Damon Lindelof, seria um filme isolado, que poderia ter a ver com a franquia Alien, com promessas de se discutir um cunho religioso e filosófico que mirava 2001: Uma Odisseia no Espaço e entregava um terrível texto, semelhante a folhetins mal escritos. Após muitas críticas, sua continuação Alien Covenant aceitou a alcunha de sub-produto da saga, usando o prenome famoso, finalmente.

A história conta a rotina da nave Covenant, que visa colonizar planetas e que tem a bordo dela o androide Walter (Michael Fassbender), que seria uma evolução do David inserido no filme anterior. Um acidente estranho faz perder grande parte da tripulação, como visto em outros tomos da cinessérie, e o comando recai sobre duas pessoas resignadas, Oram (Billy Kodrup) e a esposa do falecido ex-capitão, a imediata Daniels (Katherine Waterston). Novamente Scott apela para sobrenomes, para tirar a pessoalidade dos personagens, fazendo deles meras engrenagens para as grandes corporações.

A questão primordial é a mudança de caráter da discussão, uma vez que se perdeu  por completo a ideia de se discutir a comercialização da guerra, como era típico no primeiro Alien e em Prometheus e o enfoque é na questão da criação, usando como avatar dessa discussão o antigo membro da tripulação focada no capítulo anterior, com David retornando ao seu papel de ente fora dos padrões comuns a humanidade. A discussão mais adulta presente no roteiro de John Logan e Dante Harper – por sua vez, com argumento de Jack Paglen e Michael Green – é relativa ao papel da divindade e a responsabilidade de quem cria vida, se aproveitando de um diálogo do próprio David com o personagem de Charlie Holloway em Prometheus, que começa ali um acirrado debate sobre devoção entre criador e criatura.

Scott consegue resgatar a sensação de suspense que se perdeu em Aliens, Alien 3 e Alien: A Ressurreição, mas o roteiro pega por ser demasiado expositivo, como se fosse esse um contra-argumento às escolhas que o próprio cineasta e Lindelof fizeram no outro prequel. Os acontecimentos são tão previsíveis em especial na parte final que parecem até telegrafados em alguns pontos, em especial no combate entre os androides irmãos.

No entanto a construção do suspense funciona bem, muito graças as relações dos personagens, que tem laços emocionais entre si e claro, pela obrigação profissional de cuidar dos colonos que estão repousando interior das capsulas de sobrevivência. A análise sobre a capacidade de criar vida e a possibilidade levantada ao final para a origem da criatura extraterrestre no título é condizente com o já citado no cânone da saga, driblando inclusive as invencionices de Prometheus, ainda que tenha sim suas licenças poéticas. O resgate do horror tem novas encarnações, e por mais que sejam diferentes, não são ofensivas ao fandom de Alien.

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