[Crítica] Anna

A investigação criminal ganha contornos fantásticos em Anna (Mindscape no original) onde nos primeiros cinco minutos já é mostrado um método bem diferente de detecção. Mark Strong faz John, um detetive com um poder especial – o de se inserir na lembrança alheia, revivendo os momentos que outros viveram, como um autêntico expectador, mas passivo em seu caráter, uma vez que ele só pode observar, ao menos em um primeiro momento. O thriller sci-fi é o primeiro longa-metragem realizado pela madrilenho Jorge Dorado.

A prática deste tipo de detecção é comum, já que a Mindscape, empresa que emprega os préstimos de John, é a principal agência de detetives do mundo, e o personagem citado é o mais conhecido dos profissionais da área. Tal fama não foi o suficiente para que ele fosse requisitado para um caso de repercussão grande, envolvendo um político. Após ter isto recusado, ele aceita o caso de uma adolescente com problemas de isolamento e suspeita de sociopatia, de nome Anna (Taissa Farmiga). Ao encontrá-la, John percebe um pessimismo que pode indicar tanto a depressão quanto o niilismo, com uma leve inclinação (consciente e voluntária da parte da moça) para o segundo, uma vez que o cinismo impera em seu discurso.

A fotografia nas cenas de inserção muda de tom completamente, primeiro porque o ambiente fica polvilhado de uma granulação, remetendo a películas mais antigas, já que estas são lembranças de um passado não muito agradável. A cor que predomina nos cenários também muda muito, descendo uma escala de tonalidade, onde tons grafite dão lugar a amarelados, que visam remeter ao mesmo pretérito incômodo encontrado no granulado. O que ocorre na viagem ao âmago da mente da menina incorre aos motivos que a fizeram se fechar em si, e claro, nas suspeitas de ter um instinto assassino desde a infância. A orfandade claramente a abala, ainda que ela não assuma, e sua relação com Robert (Richard Delane), seu padrasto, não é das melhores, a despeito do testemunho de sua mãe, Michelle (Saskia Reeves), que não percebe com total clareza as desavenças entre os dois membros de sua família.

Com o desenrolar da trama, os casos de violência e tentativa de assassinado vão aparecendo e cercando toda a existência de Anna, fazendo seus argumentos perderem valor graças ao que John vê, no entanto ele teima em dar mais crédito a ela do que a qualquer outro suspeito, enxergando todas as exceções segundo o julgamento desta. Seu passado trágico o faz se identificar com ela e até relevar alguns de seus “pecados”, ainda que os mais sérios ele não consiga ignorar, procurando ir a fundo, no cerne da polêmica atitude dela, pesquisando os motivos que fazem ter o inventário cibernético que tem.

Os devaneios invadem a visão de John, dificultando a sua percepção do que é real e do que é imaginário, a natureza do seu trabalho atrapalha a visão dos fatos, fazendo-o, ironicamente, não ter clarividência sobre o que acontecia ao seu redor e sobre a arapuca que se formava acima de sua cabeça. A inversão de papéis é muitíssimo bem construída e é de uma urdição ímpar, coroada com um final que não chega a ser surpreendente, ainda que não seja completamente esperado.

Todo o suspense e a trama só funcionam graças às atuações, não tanto a de Mark Strong, já que este serve o tempo todo de escada para a personagem título. Taissa Farmiga parece ter o mesmo talento de sua irmã, Vera Farmiga, e seu papel em Mindscape é cuidadosamente montado para intrigar e para deixar dúvida em quem o investiga, seja o detetive mental ou o público ávido por chegar a verdade, e sua persona sabe impingir todo o mistério necessário para intrigar os analistas e os investigadores citados.