Cinema

Crítica | Aqueles Que Ficaram

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Expoente do cinema húngaro, Aqueles Que Ficaram começa seu drama em um hospital e usa esse cenário como gênese de sua historia, acompanhado de um número silencioso  que simboliza bem o silêncio travado na garganta de seus personagens centrais, em especial, Körner Aladár chamado pelos mais íntimos por Aldo, o médico interpretado por Károly Hajduk e uma paciente de 16 anos, que chega (supostamente) grávida, Klara (Abigél Szõke). Dessa dupla nasce um relação diferente e inesperada.

Klara tem pesadelos o tempo inteiro, é carente e tem dificuldade em achar um lugar para ficar. Ela se aproxima de Aldo que por pena, vai permitindo sua aproximação. A compleição física e a timidez do personagem fazem eco com seu passado, ele foi vítima dos campos de concentração nazistas, sofreu na pele um infortúnio gigante, fato que o marcou demais, e por isso ele não consegue negar ajuda a moça que parece variar entre um caráter interesseiro e necessitado, praticamente na mesma medida inclusive.

Barnabás Tóth usa elementos visuais bem marcados para estabelecer uma atmosfera de melancolia e desesperança. A historia, que se situa entre os anos quarenta e cinqüenta do século XX é repleta de um moralismo exacerbado – há de se lembrar do conservadorismo ainda mais agressivo dessa metade de século – e de julgamentos que objetificam e condenam as mulheres, e Klara não é exceção.

Os olhos fundos da moça representam não só suas preocupações mundanas como o que comerá no dia seguinte, ou se terá um teto sobre sua cabeça, mas também é um símbolo das terríveis condições de vida das pessoas que compunham as Forças do Eixo. O nazi fascismo não deixou só os países vitimados esfacelados, mas também os que lutaram ao seu lado, como a Hungria, e o que se vê aqui são pessoas doentes, esquálidas, mal nutridas, uma representação da vida pós holocausto, e que não foi consertada sequer pelos soviéticos.

Próximo do final (e após muita coisa ocorrer) Aldo assiste um personagem masculino comemorar a morte de Joseph Stalin, mas ele mesmo não comunga desse pensamento, pois não foi alienado o suficiente para igualar o poderio soviético a influência nefasta dos nazistas. Para quem realmente viu os horrores da guerra e o autoritarismo via extrema direita não há como comparar sequer com os desmandos de Stalin e companhia, afinal, são métodos e modos de viver bem diferentes entre si.

A confusão mental propicia que a paranoia do pós 1945 tenha efeitos, e isso enriquece ainda mais toda a questão tabu envolvendo Aldo e Klara. A relação evolui para um romance celibatário,  mas que não impede a ideia de posse por ambas as partes, e a chance dessa abordagem parecer algo grotesco é driblado por uma direção pontual e bem pensada. De negativo, há a quantidade grande de cenas escuras, que tem uma difícil compreensão em muitos pontos, sobretudo nas cenas à noite. Dependendo da sala de cinema, boa parte do filme não será totalmente compreendido.

Barnabás traz um produto repleto de intimismo e lirismo, a forma como se fala de sentimentos bem comuns como carência, relação paternal e amor proibitivo é bem delicada, mesmo ao apresentar curvas dramáticas que flerta com o incesto (ou semi incesto, dada a estranha relação aqui mostrada), há referências claras ao Complexo de Édipo e os diálogos fogem de algo expositivo, são naturais ao extremo. As privações como a dificuldade de tomar banho ou de se alimentar são a maior mostra pragmática dos malefícios do fascismo, todos tem que lidar com a miséria e as sombras do que já foi ima vida plena para muitos, alem de questões econômicas inclusive.

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Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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