Crítica | Arquitetura da Destruição (2)

Documentário do sueco Peter Cohen, narrado por Rolf Arsenius na versão original, depois em alemão por Bruno Ganz (o mesmo que encarnou Hitler anos mais tarde em A Queda) e Sam Gray em inglês, Arquitetura da Destruição começa falando sobre uma aldeia alemã dos anos 30, onde nasceu o Nacional Socialismo, uma ideologia de espectro direitista extremo, pautada na característica da rejeição sexual. Sobrevoando vilas de casas suburbanas, que povoam um ambiente florestal 3m sua maioria, que evoca o isolamento deles. O narrador fala do mundo prestes a ruir.

O governo do Terceiro Reich, segundo o estudo que Cohen propõe, os alemães faziam  oposição ao racionalismo, apostava em uma arte rebuscada, que os mesmos seriam incapazes de idealizar, exatamente para confundir o povo, deixando eles estupefatos, sem perceber o engodo em que caiam e as injustiças que ocorriam simultaneamente as exibições artísticas e aberturas de museus. Hoje, candidatos e governos extremos escancaram seus preconceitos, e apelam para o lugar comum e para a crueldades que a classe média compartilhava em segredo, fazendo com que esse eleitorado escolha pôr para fora essa necessidade de exclusão dos mais fracos. Há muitos traços comuns entre as estrategias, a diferença é a sofisticação das abordagens,  enquanto uma tem como base a ópera Rienzi de Wagner, a outra tem a hiper socialização conservadora de ex atores de filmes pornográficos e uma trilha genérica de música local, que tenciona parecer fruto da terra onde nasceu mas que pega emprestado uma sem número de elementos internacionais para suas formulas musicais baratas.

Outro ponto comum é a insistência em manter um ultra nacionalismo, embora Adolf Hitler e os seus parecessem ser mais apegados a esse pensamento, enquanto boa parte das lideranças direitistas atuais o façam da boca para fora, sendo formadas também por entreguistas que falam fino com potências maiores. O Fuhrer  era megalomaníaco,  vaidoso e tinha o intuito de se cercar do que ele achava belo para esconder suas próprias inseguranças e frustrações por ser um artista que não deu certo, mas o conceito freudiano de compensação também está no modo de governar dos que se sentem (e são) frágeis, e onda ultra conservadora que tomou o mundo tem muitos desses líderes nesse sentido, especialmente os recém eleitos e os sem experiência .

Os artistas esperavam da parte do governo uma repressão,  queimando algumas artes, chamadas de degeneradas, exibidas em Stuttgart, Nuremberg e outras cidades, frutos do que eles chamam de Bolchevismo Cultural, que eram vistos como instigados pelos judeus, e eram queimados depois. A história tem insistente tendência de se repetir, não à toa boa parte do levante pseudo liberal que tomou o Brasil e parte da América do Sul por volta de 2014, 2015 até hoje teve por passo inicial a perseguição de manifestações de arte, mas tirado de contexto.

Há também um livre uso de informações falsas ou manipuladas a respeito da genética hebraica, acusando os mesmos de serem retardados (o termo usado na tradução é exatamente este) de que avançariam sobre os ditos normais. Assistir o documentário hoje é um exercício de quase  sadismo, pois a exposição dos infortúnios dos judeus e dos desmandos maquiavélicos dos nazistas impressiona pela crueldade, e pouco é aplacada pelo tom professoral, mas manter essa memoria é importante obviamente, para que haja parâmetro de comparações com movimentações semelhantes hoje e para que não haja esquecimento dessas práticas.

Arquitetura da Destruição cita a máquina de propaganda e documentários de Joseph Goebbels, como já analisado O Eterno Judeu, e todo seu esforço é para expor não só os horrores praticados pelo governo nazista, mas também o modo como eles dominaram corações e mentes e esse é sem dúvida alguma o maior legado do trabalho de Cohen, denunciando e prevenindo o nascimento de novas  forças intolerantes. Talvez, se seus documentários fossem assistidos com atenção por parte de influenciadores de opinião, boa parte do levante reacionário recente poderia ou ser evitado ou ser aplacado, uma vez que há indícios dessas discussões todas dentro das pouco menos de duas horas de filme.

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